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ARTIGOS ORIGINAIS

Fatores de risco para desenvolvimento de transtorno mental comum entre trabalhadores da saúde de Diamantina, estado de Minas Gerais

Risk factors for common mental disorders in health care workers in the city of Diamantina, state of Minas Gerais

Igor Lucas Geraldo Izalino de Almeida1; Ana Carolina Monteiro Duarte2; Mariana Lopes Simões3; Danielle Sandra da Silva de Azevedo3; Marcus Alessandro de Alcantara2

DOI: 10.47626/1679-4435-2020-574

RESUMO

INTRODUÇÃO: O aumento na prevalência de sintomas psíquicos em trabalhadores da atenção básica à saúde evidenciado nos últimos anos é preocupante e conclama a identificação de fatores de risco modificáveis em favor desses profissionais.
OBJETIVOS: Analisar a prevalência de transtornos mentais comuns e os possíveis fatores associados entre trabalhadores da atenção básica de Diamantina, estado de Minas Gerais.
MÉTODOS: Estudo exploratório, transversal, com amostra de 203 trabalhadores de diferentes setores da atenção básica à saúde. Os participantes responderam ao Self-Reporting Questionnaire, à Job Stress Scale e a um formulário contendo blocos relacionados a questões sociodemográficas, ocupacionais, hábitos e estilo de vida. A regressão de Poisson com estimativa da variância robusta foi usada como método estatístico multivariado.
RESULTADOS: A prevalência de transtornos mentais comuns foi de 20,2%. Observou-se associação estatisticamente significante (p ≤ 0,05) entre esses transtornos e faixa etária jovem, autoavaliação negativa de saúde, qualidade de sono ruim e alta demanda física.
CONCLUSÕES: O trabalho precário pode afetar a ocorrência de transtornos mentais comuns de forma direta e indireta por meio da influência nos hábitos e estilos de vida. A reorganização do modelo organizacional, em conjunto com políticas de valorização do trabalhador, pode contribuir favoravelmente para a saúde mental dos trabalhadores.

Palavras-chave: trabalhador da saúde; transtorno mental comum; atenção básica.

ABSTRACT

INTRODUCTION: The increased prevalence of mental health symptoms in primary care workers in recent years is a major cause of concern, and highlights the need to identify modifiable risk factors for mental health disorders in this population.
OBJECTIVES: To analyze the prevalence of common mental disorders and associated factors in primary care workers in the city of Diamantina, state of Minas Gerais.
METHODS: This was a cross-sectional, exploratory study involving 203 workers in different sectors of primary health care. Participants completed the Self-Report Questionnaire (20 item version), the Job Stress Scale (JSS), and a form with questions regarding sociodemographic factors, occupational characteristics, lifestyle and habits.
RESULTS: The prevalence of common mental disorders in the sample was 20.2%. These disorders were significantly associated (p ≤ 0.05) with younger age, poor self-assessed health, poor sleep quality and physically demanding work.
CONCLUSIONS: Poor working conditions may directly and indirectly affect the occurrence of mental health disorders by influencing lifestyle and habits. The restructuring of organizational norms, together with worker support policies, may positively contribute to the mental health of workers.

Keywords: health care workers; common mental disorders; primary care.

INTRODUÇÃO

O transtorno mental comum (TMC) é uma condição de saúde que engloba sintomas psicogênicos compatíveis com depressão ou ansiedade não diagnosticadas. Essa condição caracteriza sintomas como fadiga, insônia, esquecimento, irritabilidade e dificuldade de concentração. Além disso, trazem incapacidade funcional e sofrimento para as pessoas que a desenvolvem1,2.

O relatório do Global Burden of Disease Study 2010, organização que monitora índices de morbimortalidade em 85 países e 19 regiões do mundo, indicou que os transtornos mentais foram a maior causa de incapacidade entre os desfechos não fatais nas últimas décadas; eles também estão entre as principais causas de anos de vida perdidos por morte prematura e anos de vida com incapacidade3.

A preocupação com a saúde dos trabalhadores da saúde é recente, e a compreensão sobre como os múltiplos fatores de risco se associam deve ser uma prioridade4. Estudos recentes evidenciaram um aumento na proporção de trabalhadores insatisfeitos, independentemente do setor em que trabalham5. Há convergência a propósito de perda de autonomia profissional, pressão dos superiores hierárquicos e usuários, falta de reconhecimento, condições precárias de trabalho e baixos salários6.

A evolução nos processos de trabalho na atenção básica à saúde no contexto de reformas sanitárias passou a requerer maior responsabilização dos trabalhadores devido ao contato com as famílias e à necessidade de oferecer um cuidado humanizado e resolver problemas localmente2. Entretanto, nem sempre os trabalhadores da saúde contam com a retaguarda necessária; faltam-lhes, muitas vezes, insumos materiais básicos, autonomia, suporte da gestão e até mesmo possibilidade de contar com o colega na atividade de cuidar do outro7.

A divergência entre o que a população espera e o que é oferecido atinge diretamente os trabalhadores da saúde através do desgaste físico e mental, gerando sentimentos de solidão e vulnerabilidade no exercício do trabalho8. Pesquisas recentes evidenciam o aumento significativo de casos de TMC entre trabalhadores da saúde, cujos níveis têm superado os problemas musculoesqueléticos como causa de absenteísmo e incapacidade para o trabalho na maioria dos países desenvolvidos3.

Um estudo multicêntrico com trabalhadores da atenção básica à saúde das regiões Sul e Nordeste do Brasil mostrou uma prevalência média de 16% para TMC2. Os valores foram inferiores àqueles identificados em grupos específicos, como agentes comunitários de saúde (ACS)9, profissionais da saúde mental4 e enfermeiros10.

Apesar das prevalências dissonantes, a magnitude dos TMC nessa população chama a atenção, uma vez que atinge um a cada cinco trabalhadores em média e confirma a necessidade de intervenção e acompanhamento da saúde mental nesse grupo. A concentração de estudos com populações específicas limita comparações5, sendo necessário conhecer a realidade dos trabalhadores da atenção básica em diferentes contextos.

Cabe reforçar ainda a necessidade de pesquisas envolvendo os trabalhadores da atenção básica conforme previsto no Protocolo nº 008/2011 da Mesa Nacional de Negociação Permanente do Sistema Único de Saúde (SUS), que trata das Diretrizes da Política Nacional de Promoção da Saúde do Trabalhador do SUS11. Trata-se de uma política de Estado que visa melhorias nas condições de saúde do trabalhador do SUS por meio de princípios gerais para ações de vigilância em saúde do trabalhador. Assim, o conhecimento de diferentes realidades e organizações de trabalho e como elas impactam a saúde mental dos trabalhadores da saúde são imprescindíveis para um planejamento de medidas preventivas antes que os sintomas se tornem permanentes.

Considerando que a atenção básica à saúde é a principal porta de entrada dos usuários ao sistema de saúde e a necessidade de aprofundar a compreensão das exigências específicas desse grupo de trabalhadores, delineou-se este estudo com o objetivo de analisar associações entre a prevalência de TMC e fatores de risco individuais e ocupacionais em uma amostra de trabalhadores da atenção básica vinculados ao serviço municipal de saúde de Diamantina, estado de Minas Gerais.

 

MÉTODO

DESENHO

Trata-se de um estudo observacional de corte transversal baseado em dados de um inquérito sobre saúde e condições de trabalho em trabalhadores da Secretaria Municipal de Saúde de Diamantina, estado de Minas Gerais.

PARTICIPANTES

A população-alvo foi composta por trabalhadores vinculados a sete unidades básicas de saúde, dois Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), uma policlínica, uma farmácia, um laboratório, um almoxarifado, um setor de transporte e a administração central. A amostragem incluiu também os funcionários dos setores de vigilância sanitária, vigilância ambiental e vigilância epidemiológica.

Considerando um universo amostral de 374 servidores à época das entrevistas, após excluir os trabalhadores da zona rural (55 trabalhadores), aqueles cedidos a outras instituições (15 trabalhadores) e os que se encontravam afastados por licença médica ou férias (47 trabalhadores), obteve-se uma população elegível de 257 trabalhadores. Um total de 203 trabalhadores concordaram em participar do estudo (taxa de resposta de 79%).

Anteriormente à coleta de dados, a equipe de entrevistadores recebeu um manual elaborado pelos coordenadores da pesquisa, contendo orientações sobre o estudo e potenciais dúvidas. Além disso, a equipe participou de um treinamento a fim de garantir uma abordagem e linguagem similares entre os entrevistadores. As entrevistas foram realizadas em ambiente reservado, com a presença apenas do pesquisador/entrevistador. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri sob o parecer nº 1.739.249 (CAAE: 56754616.3.0000.5108), e todos os participantes da pesquisa assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido.

VARIÁVEIS ESTUDADAS

A variável dependente TMC foi operacionalizada com o Self-Reporting Questionnaire (SRQ-20), na versão adaptada para a língua portuguesa, cujas propriedades psicométricas são adequadas12. O instrumento é composto por 20 perguntas, que permitem rastrear a presença transtornos psiquiátricos menores, como depressão, ansiedade, insônia, irritabilidade, fadiga, dificuldade de concentração, esquecimento e queixas somáticas. Definiu-se como ponto de corte para a presença de TMC seis ou mais respostas positivas para os participantes homens e oito ou mais respostas positivas para as mulheres entrevistadas12.

As variáveis explicativas foram agrupadas em três blocos: 1) informações sociodemográficas (sexo, idade, escolaridade e renda individual); 2) condições de saúde (autoavaliação de saúde, práticas de atividades de lazer e qualidade do sono); e 3) condições de trabalho (demanda física, ambiente físico, estresse ocupacional e apoio social no trabalho). Um formulário estruturado foi administrado, coletando informações sobre sexo (masculino/feminino), idade (anos), escolaridade concluída (ensino fundamental/médio/superior) e renda individual (salários mínimos). Posteriormente, foi criada a variável faixa etária baseada nos quartis de idade.

A autoavaliação de saúde foi avaliada por meio da pergunta: “em geral, como você classificaria seu estado de saúde?” As opções de resposta variaram de muita boa a muito ruim na escala Likert de 5 pontos. Nas análises, as respostas foram dicotomizados em autoavaliação de saúde positiva (categorias boa e muito boa) e autoavaliação de saúde negativa (categorias boa a inferiores).

A variável atividade de lazer foi avaliada através do questionamento: “você pratica atividades de lazer?” As respostas se diferenciaram em sim ou não. A qualidade do sono no último mês foi avaliada pela seguinte pergunta: “durante o último mês, como você classificaria a qualidade do seu sono de uma maneira geral?” As opções de resposta variaram de muito boa a muito ruim na escala Likert de 4 pontos.

O estresse ocupacional foi avaliado por meio da Job Stress Scale (JSS), descrita como tendo adequadas propriedades psicométricas13. A escala permite avaliar as dimensões demanda psicológica, controle e apoio social no trabalho. A demanda psicológica inclui questões sobre exigências psicológicas do trabalho, pressão de tempo, níveis de concentração, interrupção das tarefas e necessidade de esperar pelas atividades realizadas por outros trabalhadores; o controle sobre o trabalho avalia o uso e desenvolvimento de habilidades e a autoridade para tomada de decisão. A mediana dessas dimensões foi utilizada para determinar os grupos de alta e baixa demanda, bem como os grupos de alto e baixo controle13. Posteriormente, a combinação das dimensões demanda e controle foi feita para definir os seguintes quadrantes: alta demanda e baixo controle (alta exigência), que reflete alta exposição a estresse ocupacional; alta demanda e alto controle (trabalho ativo), situação mais positiva entre os quadrantes; baixa demanda e baixo controle (trabalho passivo), exposição intermediária a estresse ocupacional; baixa demanda e alto controle (baixa exigência), situação sem exposição a estresse ocupacional. O apoio social no trabalho foi avaliado separadamente e inclui as relações com colegas e chefias, por meio do cálculo das medianas para definir alto e baixo apoio social no trabalho13.

A demanda física foi mensurada através de seis perguntas que avaliavam a opinião do trabalhador quanto ao desempenho no trabalho fisicamente. As questões abordavam a ocorrência de posturas inadequadas, trabalho de pé, trabalho sentado, deslocamentos excessivos, manuseio de peso e ausência de pausas. Todas as perguntas tinham como possíveis respostas 0 = nunca, 1 = raramente, 2 = às vezes e 3 = sempre. Portanto, quanto maior o escore, maior a carga física no trabalho. A variável demanda física foi operacionalizada a partir do somatório dos itens supracitados que foram, em seguida, categorizados pela mediana em baixa demanda física (valores iguais ou abaixo da mediana) e alta demanda física (valores acima da mediana).

A qualidade do ambiente físico de trabalho foi avaliada por seis perguntas sobre ventilação, temperatura, iluminação e mobiliário, com opções de resposta em escala Likert de 5 pontos, que variou de muito boa a muito ruim. Os participantes também foram questionados sobre a influência do ruído no ambiente interno e ruído no ambiente externo, com opções de resposta entre desprezível e insuportável. A variável ambiente físico foi operacionalizada a partir do somatório dos itens supracitados, que foram, em seguida, categorizados pela mediana em ambiente adequado (valores iguais ou abaixo da mediana) e ambiente inadequado (valores acima da mediana).

ANÁLISE DOS DADOS

Utilizou-se o software estatístico Stata versão 12.0 em todas as análises. Além das análises descritivas das distribuições, procedeu-se com a categorização das variáveis contínuas e discretas. Para verificar a associação entre as variáveis explicativas e o TMC, realizou-se análise bivariada com estimativas de razões de prevalência com cálculo dos respectivos intervalos de confiança. Empregou-se a regressão de Poisson com variância robusta, sendo inseridas no modelo multivariado as variáveis que apresentaram um p-valor < 0,20 para significância estatística.

Na análise multivariada, procedeu-se com uma série de regressões de Poisson com entrada das variáveis por blocos: informações sociodemográficas, condições de saúde e, por último, condições de trabalho. Dessa forma, as variáveis dos blocos mais distais permaneceram como fatores de ajuste para os blocos inferiores, permitindo que uma variável em particular possa ser determinada em relação aos efeitos das variáveis introduzidas anteriormente14. As variáveis que não estavam significativamente associadas ao TMC eram excluídas antes da entrada do próximo bloco de variáveis, e o modelo final contém apenas os fatores que permaneceram associados em nível de p-valor < 0,05.

A multicolinearidade no modelo final foi testada por meio do variance inflation factor (VIF). Considerou-se multicolinearidade elevada quando se observasse simultaneamente um condition index maior que 30, se um componente contribuísse em 90% ou mais para a variância de duas ou mais variáveis e se verificasse uma tolerância inferior a 0,1 menor do que 1015.

 

RESULTADOS

A amostra final foi composta por 203 trabalhadores, com predominância de ACS (n = 46; 22,7%), agentes de combate a endemias (n = 27; 13,3%), técnicas em enfermagem (n = 23; 11,3%), enfermeiros (n = 13; 6,4%) e auxiliares de limpeza (n = 13; 6,4%). A amostra incluiu também médicos, dentistas, farmacêuticos, fisioterapeutas, auxiliares de serviços gerais, motoristas, agentes de transporte, entre outros menos representados. Na distribuição por setor de trabalho, prevaleceu o vínculo com as Unidades Básicas de Saúde (n = 95; 46,8%), o Centro de Controle de Zoonoses (n = 31; 15,3%) e a Policlínica (n = 16; 7,9%). A distribuição da amostra conforme as variáveis estudadas e a prevalência de TMC estão apresentadas na Tabela 1.

 

 

A prevalência geral de TMC foi de 20,2%. As mulheres, mais jovens, com menor escolaridade e renda tiveram maior prevalência de TMC.

A maioria dos participantes era do sexo feminino, média de idade de 38,9 anos [desvio padrão (DP) = 10,7 anos] e faixa etária entre 20 e 23 anos. Quanto ao nível socioeconômico, a maior parte dos trabalhadores tinha apenas nível fundamental de escolaridade, com uma renda individual mensal menor ou igual a três salários mínimos.

Com relação aos indicadores de saúde, a autoavaliação de saúde em geral foi avaliada como inferior a boa por 28,6% dos entrevistados. Cerca de 32% não praticava atividades de lazer e 27,6% relataram uma qualidade de sono muito ruim ou ruim no último mês.

Sobre as condições físicas de trabalho, quase metade da amostra afirmou trabalhar sob alta demanda física. O ambiente de trabalho foi considerado inadequado por 39,9% dos trabalhadores.

A proporção de trabalhadores nos extratos de trabalho passivo e alto desgaste foram elevadas, contrastando com o percentual igualmente elevado de trabalhadores que relataram baixo apoio social no trabalho.

A Tabela 2 apresenta a análise bivariada entre a prevalência de TMC e as variáveis estudadas entre os trabalhadores da saúde. Ao nível de p < 0,20, a prevalência de tais transtornos associou-se às seguintes variáveis: sexo, faixa etária, renda salarial individual, autoavaliação de saúde, qualidade do sono, apoio social no trabalho, demanda física e ambiente físico de trabalho.

 

 

Os fatores significativamente associados com TMC (p < 0,20) na análise bivariada foram incluídos na análise multivariada (Tabela 3). A análise de regressão de Poisson com estimação de variância robusta demonstrou que a faixa etária foi a única variável das características individuais que permaneceu no modelo final. Quanto às condições de saúde, permaneceram significativamente associadas à prevalência de TMC (p ≤ 0,05) as variáveis autoavaliação de saúde e qualidade do sono no último mês. A demanda física foi a única variável do trabalho que permaneceu no modelo. A suposição de multicolinearidade entre as variáveis independentes foi testada e não houve violação desse pressuposto.

 

 

DISCUSSÃO

Este estudo investigou a associação entre TMC e fatores individuais e ocupacionais entre profissionais da atenção básica à saúde de Diamantina, estado de Minas Gerais. Constatou-se que a ocorrência de TMC é multifatorial, e potenciais intervenções devem considerar essa condição de saúde em toda a sua complexidade.

A prevalência de TMC encontrada no presente estudo foi superior aos resultados de um estudo com trabalhadores da atenção básica à saúde das regiões Sul e Nordeste do Brasil2, mas inferior ao rastreamento em profissionais da saúde mental, ACS4 e trabalhadores da atenção básica à saúde em Botucatu, em São Paulo16. Entretanto, a ocorrência de TMC foi superior à prevalência encontrada entre profissionais da atenção básica à saúde de Feira de Santana17, estado da Bahia. Diferenças metodológicas na operacionalização de TMC e características específicas no contexto de vida e trabalho explicam, em parte, a variabilidade dos resultados.

Apesar das diferenças na prevalência de TMC encontradas na literatura científica, os nossos resultados são consistentes com estudos nacionais18 e internacionais19 que apontam o TMC como grave problema de saúde entre os trabalhadores da saúde. Sob qualquer perspectiva, os TMC podem comprometer não apenas a saúde dos trabalhadores, mas também a sua atividade-fim de cuidar20, com repercussões individuais, econômicas e sociais.

A prevalência de TMC foi menor entre os extratos mais avançados de idade. Esse resultado contrasta com a tendência de aumento na prevalência de TMC com o avançar da idade na população em geral21, mas é coerente com a maior prevalência de TMC encontrada entre médicos jovens na cidade de Salvador22, estado da Bahia. Sabe-se que a experiência adquirida através do tempo de trabalho favorece maior controle e uso de habilidades na realização das tarefas, além de contribuir para a valorização do papel social do trabalhador21. É possível que um aumento nas competências profissionais e a aquisição de resiliência estejam associados a maior proteção à saúde mental dos trabalhadores23. Entretanto, um efeito do trabalhador saudável não pode ser desconsiderado. Tal efeito é indicador de condições precárias de trabalho, pois exigências desproporcionais e pressões no ambiente de trabalho estão associadas a adoecimento físico e mental, com consequente afastamento do trabalhador por motivo de saúde24.

A associação positiva entre autoavaliação de saúde e TMC é consistente. Esse indicador exprime um julgamento que reflete aspectos objetivos e subjetivos da saúde, capaz de predizer morbidade e mortalidade25, sendo amplamente usado em estudos epidemiológicos. Além disso, estudos atuais demostram que as divergências nas atividades realizadas, o excesso de trabalho e as insatisfações com a qualidade de vida favorecem para uma autoavaliação de saúde negativa entre os trabalhadores da saúde26.

A qualidade do sono foi outro fator de risco que influenciou a ocorrência de TMC nos trabalhadores investigados. A privação de sono é preocupante, pois afeta a memória e os níveis de atenção, desencadeando sintomas físicos e problemas emocionais27. Essas consequências, comumente, têm sido associadas ao trabalho noturno de profissionais de saúde, com prejuízos do equilíbrio biológico, dos hábitos alimentares, da acumulação de erros, da vida familiar e social28. Como a amostra do presente estudo não está sujeita a trabalho noturno, pesquisas adicionais são necessárias para aumentar a compreensão do efeito da qualidade do sono entre profissionais da atenção primária à saúde.

A alta demanda física se associou a ocorrência de TMC na amostra investigada. Tal resultado era esperado, pois a maior prevalência de TMC entre trabalhadores expostos a altas sobrecargas físicas tem sido relatada em diferentes estudos12. Elevadas cargas de trabalho comprometem a saúde física e mental dos trabalhadores, além de dificultar o relacionamento com a equipe de trabalho e a produtividade29.

De forma inesperada, nenhuma dimensão do estresse ocupacional se associou à ocorrência de TMC. Estudos têm evidenciado o efeito negativo de altas exigências psicológicas e falta de apoio social no trabalho no setor da saúde29,30. Levando em consideração as especificidades do trabalho em saúde, como trabalho sempre coletivo, e sua exigência de relações interpessoais, parece evidente a necessidade de projetar os serviços e as tarefas de maneira a fortalecer os trabalhadores da saúde na realização da missão sem ultrapassar os seus próprios limites.

Com relação às vantagens e limitações do estudo, o desenho transversal limita inferências de causa e efeito; portanto, comparações com outras populações devem ser feitas com cuidado. Entretanto, a coerência dos nossos resultados com a literatura científica sugere adequada validade externa das informações.

 

CONCLUSÕES

Este estudo constatou que a prevalência de TMC foi maior entre os trabalhadores da saúde mais jovens, com autoavaliação de saúde inferior a boa, qualidade do sono ruim e sobrecarga física. A associação com variáveis do indivíduo e do trabalho indicam que a ocorrência de TMC é complexa e deve ser acompanhada constantemente no ambiente de trabalho. Sabe-se que a população atendida na atenção básica cresce exponencialmente a cada mês e que o número de profissionais para acompanhar esse crescimento é insuficiente, gerando sobrecarga de trabalho, um fator de risco para TMC. Além disso, é importante os gestores pensarem em uma reorganização das tarefas e adoção de uma gestão democrática com políticas de valorização do trabalhador e abertura de espaços de discussão coletiva de problemas. Essas medidas adquirem uma relevância ainda maior quando se trata dos trabalhadores da atenção básica à saúde, pois as suas atribuições se evidenciam como a própria eficiência do SUS.

 

AGRADECIMENTO

À Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (FAPEMIG) e ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pelo apoio na execução da pesquisa.

 

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Recebido em 8 de Abril de 2020.
Aceito em 16 de Junho de 2020.

Fonte de financiamento: Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (FAPEMIG); Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)

Conflitos de interesse: Nenhum


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