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ARTIGO ORIGINAL

Possíveis fatores de risco que influenciam no estresse psíquico-emocional e depressão de profissionais envolvidos na prática da medicina legal

Possible risk factors involved in psychological and emotional stress and depression among forensic medicine workers

Katrin Möbius Gebran1; Alessandra Möbius Gebran1; Flávio Meingast Piva1; Rosane Mary Möbius Gebran2; Alexandre Antônio Saad Gebran-Neto2; Mara Rejane Rodrigues Correa Segalla2

DOI: 10.47626/1679-4435-2022-635

RESUMO

INTRODUÇÃO: Através do trabalho, são introduzidas diferentes formas de racionalização, resultantes de mudanças econômicas, políticas e sociais que intensificam a necessidade de mão de obra. Nesse contexto, surgem instituições que ignoram os efeitos da má qualidade de serviço sobre a saúde do trabalhador, como o desenvolvimento de distúrbios mentais e psicológicos causados pelo ambiente de trabalho.
OBJETIVOS: Compreender o significado de atuar como perito oficial em um instituto médico-legal, investigar os fatores laborais e analisar a forma organizativa do ambiente que possam ser geradores ou concorrentes ao estresse psíquico-emocional e/ou depressão.
MÉTODOS: Foi realizada uma pesquisa exploratória com abordagem qualitativa em um instituto médico-legal de uma capital brasileira. Os dados foram levantados por entrevistas semiestruturadas aos profissionais selecionados a partir dos critérios de inclusão e exclusão.
RESULTADOS: Fatores laborais, incluindo a organização física e os de demanda psicológica, podem gerar ou concorrer para o desenvolvimento do estresse psíquico-emocional e/ou depressão em profissionais atuantes na medicina legal. As condições ambientais são relacionadas à qualidade e ao desempenho quantitativo do profissional, gerando produtividade em tempo hábil à população usuária do instituto.
CONCLUSÕES: A pesquisa possibilitou conhecer a realidade dos profissionais atuantes nos setores de um instituto médico-legal, elencar possíveis fatores capazes de causar instabilidade emocional, estresse psíquico-emocional e/ou depressão e indicar a necessidade de um redirecionamento da estrutura e da criação de políticas sociais e de cunho psicológico para minimizar o adoecimento profissional.

Palavras-chave: medicina legal; depressão; transtorno mental; ergonomia.

ABSTRACT

INTRODUCTION: Different forms of rationalization are introduced through work, which result from economic, political, and social changes that increase the need for labor force. Within this context, there are institutions that neglect the effects of poor work environments on workers’ health, such as the development of work-related mental and psychological disorders.
OBJECTIVES: To understand what it means to work as an official expert at a forensic medicine institute and investigate occupational and workplace factors that may contribute to emotional and psychological stress and/or depression.
METHODS: We conducted an exploratory, qualitative study at a forensic medicine institute of a Brazilian capital city. Data were collected using semi-structured interviews with study participants, which were selected according to inclusion and exclusion criteria.
RESULTS: Occupational factors, including physical organization and psychological demand, may generate or contribute to the development of psychological and emotional stress and/or depression in forensic medicine workers. Working conditions are related to the quality and quantitative performance of the worker and influence whether worker productivity meets the demands of those using the services provided by the institute.
CONCLUSIONS: This study revealed the reality of those working at a forensic medicine institute and identified possible factors that may cause emotional instability, psychological and emotional stress, and/or depression. We identified the need for changes in the workplace and the creation of social policies focused on mental health to minimize occupational illness.

Keywords: forensic medicine; depression; mental disorders; ergonomics.

INTRODUÇÃO

O trabalho é considerado um agente de transformação da realidade, capaz de proporcionar a sobrevivência e a realização do ser humano1. Através do trabalho, são introduzidas diferentes formas de racionalização, que decorrem das mudanças econômicas, políticas e sociais que intensificam a necessidade de mão de obra. Nesse contexto, surgem instituições que ignoram os efeitos da má qualidade de serviço sobre a saúde do trabalhador, denominadas “organizações patológicas”2.

Essas organizações encontram-se entrelaçadas com o serviço público brasileiro. Dentro do campo organizacional da gestão pública, percebe-se a dificuldade de articulação da qualidade do serviço com o local de trabalho, as condições de atuação física e psicológica dos profissionais e o reconhecimento desse posto perante a sociedade2. Diante disso, debate-se a vivência de profissionais a condições de insalubridade, como a área forense de peritos médicos-legistas, odontolegistas e auxiliares de perícia3.

Mediante situações conflitantes, o trabalhador é capaz de desenvolver desordens mentais e psicológicas provocadas pelo ambiente de trabalho. Entre essas condições, o estresse laboral pode ser diretamente desencadeado pelo cotidiano do trabalhador, alterando níveis de produção, satisfação e saúde e desencadeando sintomas de transtornos mentais e comportamentais4.

Diante dessa abordagem, este trabalho tem por finalidade discutir as relações de serviço dos peritos criminais de um instituto médico-legal (IML) de uma capital brasileira e associá-las com possíveis desfechos em saúde no campo das sanidades mentais e comportamentais. Para isso, almejou-se compreender os meios de organização dessa instituição como um órgão público e as implicações e relações do exercício laboral diário dos peritos como elementos fatoriais a possíveis consequências clínicas psíquico-emocionais e a quadros de depressão.

 

MÉTODOS

Tratou-se de um estudo exploratório-descritivo com abordagem qualitativa, realizado em um IML de um município do estado do Paraná nos setores de laboratório patológico e necropsia. Salienta-se que o local de pesquisa estava em processo de mudança. Quando foi realizado o período de coleta dos dados, os profissionais haviam passado pela transição do prédio antigo para o novo há 6 meses. A pesquisa foi realizada durante o segundo semestre de 2018 e aprovada por um comitê de ética sob o parecer consubstanciado n.º 2.453.329.

As informações foram coletadas por meio de entrevista semiestruturada e gravada em áudio com profissionais peritos médicos-legistas, odontolegistas e auxiliares de necropsia. O instrumento de pesquisa continha questões semiabertas, deixando-se livre a expressão dos participantes. Os participantes foram identificados por códigos, para preservar o anonimato (D1, D2…D14).

A coleta ocorreu no local de trabalho dos participantes, em sala reservada, a fim de não ocorrer interferência externa do ambiente ou de outros indivíduos, priorizando a privacidade e o conforto dos entrevistados.

As informações coletadas foram submetidas à análise de conteúdo temática proposta por Minayo, na qual a pesquisa segue um ciclo fundado em três fases: “fase exploratória”, em que se busca amadurecer o objetivo, a metodologia e o projeto de investigação; “trabalho de campo”, que consiste na coleta de informações sobre a teoria investigada; e “tratamento do material”, na qual se ordena, classifica e analisa os dados coletados, realizando o tratamento, por inferências e interpretações das informações5.

 

RESULTADOS

A pesquisa final foi realizada com funcionários de um IML, tendo sido aplicado um questionário sobre dados sociodemográficos e, em seguida, realizadas as perguntas norteadoras da pesquisa.

A amostra composta por 14 peritos correspondeu a 100% da categoria atuante na instituição. Os dados sociodemográficos revelaram que a maioria (57%) se encontrava na faixa etária de mais de 50 anos; 9 (65%) eram do gênero masculino; 5 (36%) possuíam carga horária semanal de 20 horas; e 11 (79%) possuíam tempo de atuação profissional na instituição entre 20-30 anos. Quanto ao grau de escolaridade, todos os participantes possuíam ensino superior completo.

A análise a partir da leitura das informações coletadas percorreu a segunda etapa da análise de conteúdo, obtendo-se a formação de categorias a fim de elucidar a questão norteadora.

CATEGORIA 1 – SIGNIFICADO DE ATUAR COMO PERITO

Ao analisar as entrevistas, foi possível apreender que os participantes consideram a profissão importante, relevante e de responsabilidade para desvendar crimes em busca de provas e fatos que possam incriminar ou acusar alguém. Ainda, relatam não ser um trabalho leve e limpo, pois exige atenção, dedicação e princípios de justiça ao examinar com rigor profissional em busca de provas. Além disso, denotam a responsabilidade sobre a amplitude e consequência que a atuação no instituto exige.

CATEGORIA 2 – PERCEPÇÃO SOBRE AS CONDIÇÕES RELACIONAIS E AMBIENTAIS NO TRABALHO

Ao abordar essa categoria, os profissionais realizaram comparações entre a estrutura física antiga que atuavam até o segundo semestre de 2017 com a atual, na qual foram iniciadas as atividades no primeiro semestre de 2018. Entre os resultados, os peritos destacam a importância de uma estrutura física adequada para o desempenho das funções, uma vez que, mesmo o trabalho continuando insalubre, o ambiente atual expõe os profissionais a menores riscos de contaminação.

O ambiente antigo de trabalho foi apontado por expor os profissionais a desvios de saúde, como material orgânico que se acumulava nas rachaduras do piso. Somado a isso, a proliferação de insetos e demais pragas urbanas, como ratos, baratas e escorpiões, define a precariedade da estrutura da instituição antiga.

Ainda, incluiu-se a falta de insumos básicos para a realização das perícias, como material de proteção para entrar em contato com o cadáver e máquina de radioscopia operante. Também foi destacada a deficiência de mobília e equipamentos ergonômicos para preenchimento dos laudos, manuseio e locomoção dos corpos durante as necropsias:

Na câmara fria, tinha que tirar 80 corpos, um de cima do outro, sem sacos plásticos ou algo para separar cada corpo; a máquina estragava e não refrigerava. Não tinha máquina ou mecanismo que ajudasse, era tudo no braço. Você tinha que jogar sua roupa fora e tomar três ou quatro banhos pra ir para casa. Isso é o tipo de coisa que quero esquecer. (D12)

Da mesma forma, percebe-se que o trabalho no IML é desenvolvido em equipe, sendo que cada profissional desempenha um papel fundamental para o desenvolvimento das atividades técnico-periciais. De acordo com alguns funcionários, essas relações são construídas dentro de uma rede capaz de complementar as atividades desenvolvidas em diferentes setores em prol de um trabalho social para a população.

No entanto, são apontadas adversidades entre auxiliares de perícia e médicos-legistas que atuam na instituição ou profissionais externos que solicitam encaminhamento de um corpo para o IML. Para os auxiliares, essa dificuldade está associada à preparação médica nas escolas de Medicina e tentativas de dirigir ao serviço corpos cuja causa mortis não condiz com a necessidade de abertura de inquérito e investigação médico-legal.

Nesse cenário de divergências, funcionários associam essas situações com a geração de quadros de ansiedade e de somatização nos períodos que antecedem os regimes de plantão, por conta do estado emocional e da dificuldade de comunicação com alguns profissionais:

Trabalhei com uma pessoa que destratava todos que estavam no plantão. Cheguei a um ponto que, no dia anterior ao plantão, estava com diarreia, náusea e dor de cabeça, era apavorante. Começava a chorar. (D4)

Meu médico pediu várias vezes afastamento do necrotério, sempre foi negado, até que tive que agir por conta. Tinha acesso a faca, machado, serra e um dia ameacei o médico lá dentro. Estava no meu limite. Acabei sendo afastado da função e hoje trabalho como motorista e faz 12 anos que faço tratamento psiquiátrico. (D10)

Em contrapartida, os participantes denotam que a construção do ambiente de trabalho depende das condutas profissionais exercidas no setor, como a capacidade de produção, o estado psicológico e as influências comportamentais. Além disso, a atuação em um serviço insalubre é considerada estressante pela necessidade de lidar com os riscos de contaminação, a morte, os familiares e a polícia.

CATEGORIA 3 – FATORES LABORAIS ENVOLVIDOS COM CONSEQUÊNCIAS CLÍNICAS PSÍQUICO-EMOCIONAIS E DE DEPRESSÃO

Nos relatos, percebe-se que a instituição, apesar de estar em um novo ambiente físico, carrega marcas inerentes ao ato laboral da antiga estrutura, que provocam diferentes sentimentos. Quanto ao local de trabalho, constatam-se lacunas em relação ao bem-estar dos profissionais, como o uso de materiais obsoletos e inadequados no setor do necrotério e a ausência de outros itens essenciais, como a sala de descontaminação e vestimentas adequadas para atuação externa ao IML.

Somado a isso, o déficit de funcionários é apontado como um dos maiores problemas entre os profissionais, que se sentem sobrecarregados em relação aos serviços desempenhados. Por conta desse esforço, necessidades básicas, como alimentação e horas mínimas de sono, não são respeitadas durante o exercício laboral. Assim, outras atividades essenciais à instituição, como as de natureza acadêmica, científica e jurídica, não são ampliadas, por conta do excesso de trabalho exigido.

Ainda, profissões extintas na instituição, como serviço social, são consideradas indispensáveis para o instituto. Segundo os funcionários, essa profissão é essencial para a identificação do cadáver e a obtenção de informações sociais e registro dos relatos dos familiares, tendo sido mencionada como uma lacuna existente no serviço:

O número de cadáveres sepultados como desconhecido aumentou aproximadamente 10% depois que acabou o serviço social do IML. São três cadáveres a mais por mês que não são identificados. Parece pouco esse número, mas, ao considerar que são três mães, pais ou irmãos desesperados procurando pelo seu parente, isso é muito. (D1)

Como consequência, a sobrecarga de trabalho foi mencionada como responsável pelo afastamento de profissionais para tratamento de saúde e de mudança na rotina de vida pessoal e profissional. Essa modificação foi considerada essencial para evitar o desenvolvimento de transtornos psiquiátricos:

Pela falta de funcionários, cheguei a emendar 72 horas de trabalho. Senti que estava mudando minha personalidade, ficando mais agressivo e sem paciência. Emagreci 11 quilos em 1 mês. Procurei ajuda psicológica e retomei o que eu fazia, vi que o meu problema era o excesso de carga horária. (D12)

Apreende-se ainda que a natureza do trabalho na medicina legal é um fator relevante para gerar sentimentos de frustração por parte dos funcionários. Por ser uma ciência correlacionada ao direito, é considerada pouco resolutiva em relação à cura de pacientes – como na medicina tradicional. Da mesma forma, a demanda de atendimento, relacionada a diversos tipos de violência, gera um ambiente de trabalho triste e agressivo, porque não é mais possível mudar o curso da morte e das dores causadas, principalmente nas populações mais vulneráveis. Ainda, afirmou-se a tentativa de distanciamento entre a construção dos laudos técnicos periciais das histórias relatadas pelas vítimas ou famílias sobre a violência ocorrida. Porém, essa distância nem sempre é possível, por ser fundamental para compreensão do caso e correto julgamento.

Nesse âmbito, funcionários elucidaram mudanças de comportamento pessoal em relação a diversas situações presenciadas no trabalho, como o falecimento de um jovem com idade próxima a um parente e a amputação de membro por conta de um acidente. Com isso, muitos não conseguem separar a vida profissional da pessoal, desenvolvendo sentimentos de excessivo cuidado para prevenir destinos semelhantes:

Já me senti deprimido diante da morte de adolescentes com idade próxima à do meu filho. De deparar com um cadáver muito parecido com alguém querido e chorar. Ter que se esconder, para ninguém ver chorando. Lidei com isso calado a minha vida inteira, trabalho aqui há 25 anos sem alguém que se preocupasse em saber o que a gente sente. (D1)

Sinto muita apreensão quando lido com vítimas crianças, porque vejo neles os meus filhos. Abusos, morte, negligência. Quando chego em casa e vejo meus filhos brincando, sabia que outra mãe não teria a mesma sorte. Era bem desgastante. (D9)

Dilemas ligados à ética de trabalho também são destacados no processo de terminalidade e limites da vida frente à aceitação das famílias das vítimas. A aceitação da perda, a falta de esclarecimentos burocráticos e o deslocamento para locais vulneráveis à violência são situações que demandam dos servidores extrapolar suas atividades técnicas. Apesar de natural o instinto de ajuda, a vivência com esses fatos também contribui para o abalo do estado psicológico dos trabalhadores:

Você chega ao local, e a família está chorando e não deixa remover o corpo. Tem que abraçar a família e consolar para poderem deixar levar o corpo. A gente tem que entrar psicologicamente na mente da pessoa antes de fazer a remoção do corpo. (D2)

Chegava a locais conhecidos pela violência, e, durante o atendimento da ocorrência, a polícia estava trocando tiro com os bandidos. Isso causa um estresse enorme. (D2)

Somado a isso, a mídia é apontada como canal de julgamento aos laudos resultantes dos atendimentos na clínica, no necrotério e no serviço de patologia. Relatou-se que tanto a sociedade quanto a mídia esperam que a conclusão do perito seja a mesma que as pré-divulgadas, contrariando a comprovação técnica pericial do autor de um crime. Dessa forma, médicos elencaram a necessidade de a instituição apresentar um posicionamento perante a mídia e o meio jurídico para proteção dos profissionais, das perícias e das vítimas:

Já me senti ameaçada por superiores que não concordavam com meu laudo. Mas a maior pressão é da mídia. Quando o laudo não acompanha o que a mídia ou a sociedade esperaria que fosse, somos automaticamente julgados, como se estivesse fazendo algo ilegal. É muito desgastante emocionalmente. (D5)

Acho que a Instituição deve se posicionar de uma forma mais atuante. Recebemos muitos pedidos de juízes, promotores, policiais que não são referentes ao nosso trabalho criminal. E, se a gente se negar, pode responder por crime de desobediência. (D5)

Ao mencionar as atribuições da profissão, funcionários relataram o desenvolvimento de transtornos psíquico-emocionais e de quadros de depressão associados às adversidades do cotidiano na instituição e a falta de suporte clínico aos funcionários:

Trato de ansiedade ao longo desses 25 anos que trabalho aqui e três vezes de depressão. Todos os episódios foram considerados relacionados ao trabalho. Consegui, com o tratamento psiquiátrico e psicoterapia, superar isso tudo. (D5)

Como consequência desses fatores, é mencionada a importância do suporte médico e psicológico associado à atuação na medicina legal, considerado indispensável para garantia do bem-estar psíquico-emocional. Dessa forma, profissionais defendem a necessidade de um especialista que realize avaliação periódica dos funcionários, esteja disponível para eles durante o período de serviço e conheça e conviva no local de trabalho:

Não tem suporte psicológico. Fazer avaliações frequentes e tratamento. A natureza desse trabalho é muito ingrata. (D5)

Acompanhamento de um profissional da saúde especializado que entreviste e que consiga perceber esses quadros depressivos, de angústia do funcionário de lidar com o horror que a gente vive seria fundamental. (D1)

 

DISCUSSÃO

A salubridade no ambiente de trabalho é instrumento essencial para o desenvolvimento do bem-estar e saúde da população ativa, uma vez que a boa ergonomia de trabalho, como segurança e limpeza, garante maiores índices de produção e desenvolvimento econômico. Quando se aplica esse conceito, mecanismos comportamentais positivos são expressos, como valorização do profissional no papel da empresa e sentimentos de responsabilidade social e harmonia6,7.

No contexto dos institutos periciais, o trabalho com o sofrimento humano e a morte é considerado um desafio para os profissionais de saúde, treinados para deter esses processos e buscar a cura dos pacientes. As escolas de Medicina, na maioria, possuem modelo biomédico de ensino, não abrangendo aspectos psicossociais da profissão8. O contato com o corpo inerte e marcado pela realidade social promove sensibilidade ao trabalhador atuante em paralelo a essa imagem. Junto à indignação, é comum a identificação de pessoas semelhantes a familiares, seja por idade, fisionomia, trabalho ou passatempos, aumentando a projeção sobre os eventos fatídicos. Diante desse cenário, criam-se questionamentos sobre valores éticos e religiosos do propósito do ser humano e da vida9.

Dessa forma, visualiza-se a proximidade do profissional à morte, uma vez presente a ideia de finitude humana. Para esse aspecto, é necessário refletir sobre as pressões psicológicas às quais os profissionais estão sujeitos devido ao envolvimento psicoemocional nas atividades diárias. Nesse contexto, dilemas éticos relacionados às experiências pessoais geram conflitos entre valores e crenças devido à estrutura familiar, às crenças religiosas e à aceitação da morte. Nesse cenário, o sofrimento torna-se fator que desencadeia estresse e transtornos psicoemocionais, que levam ao absenteísmo, burnout e doenças psiquiátricas9,10.

O cuidado com a saúde mental do profissional se faz necessário. O processo de adoecimento do indivíduo pode ocorrer pela quebra da identidade do “ser trabalhador” e pelas pressões da organização do trabalho. Nesse caso, o sofrimento é relacionado a uma estrutura rígida do processo de trabalho que impede a descarga psíquica, acarretando doenças físicas e mentais11.

Os transtornos mentais e comportamentais relacionados ao trabalho são condições clínicas determinadas pelas características do ambiente ou tarefas executadas que influenciam no processo de adoecimento. Ainda, são caracterizados por mudanças de pensamentos, emoções e determinação do funcionamento psíquico, podendo atingir o indivíduo, a família e a comunidade. Assim, os transtornos têm origem multifatorial e podem estar ligados a diferentes aspectos individuais ou sociais12.

Os transtornos de humor são comuns, sendo o depressivo de maior prevalência. A depressão é uma das principais causas de incapacidade no mundo. Ainda assim, cerca de 450 milhões de pessoas sofrem de algum tipo de distúrbio mental e comportamental, e 25% da população sofrerá algum distúrbio em algum momento da vida. Nesse cenário, a intervenção psicossocial é essencial para atender às demandas psicológicas dos trabalhadores13,14. Diante do cenário de tristeza, dor e perda a que os profissionais do necrotério estão expostos, a presença de apoio psicológico se faz necessária para redução desses sentimentos15.

Considera-se importante a avaliação dos ambientes de trabalho para determinação de fatores de risco aos profissionais. Nesse contexto, estão contempladas as demandas físicas, como mobília, iluminação, temperatura, ruídos e vibrações inadequados e realização de tarefas monótonas e repetitivas; e demandas cognitivas, como memória, atenção, relações afetivas, motivação e satisfação profissional, obrigação de manter ritmo acelerado de trabalho, excesso de horas e ausência de pausas. Esses fatores reversíveis forçam o profissional à adaptação para garantir a qualidade e quantidade exigidas, podendo influenciar no seu adoecimento12-16.

Nesse sentido, defende-se a criação de espaços destinados à comunicação interprofissional, à escuta de dificuldades e sugestões que permitem o acesso a melhorias no ambiente laboral associada ao suporte psicológico. Assim, a criação de grupos de conscientização e experiências é essencial para apoiar novas ideias, instrumentos e orientações para o suporte relacionado à rotina diária. Essa concepção, portanto, permite o desenvolvimento de alicerces às demandas psicológicas e físicas do exercício laboral17.

 

CONCLUSÕES

A pesquisa possibilitou conhecer a realidade dos profissionais atuantes nos setores do IML e elencar fatores capazes de causar instabilidade emocional, sendo alguns considerados inerentes à medicina legal, como vulnerabilidade, morte violenta e conflitos internos, assim como a influência da mídia e do campo jurídico na conclusão de perícias. Dessa forma, a presença de fatores de risco para distúrbios mentais indica a necessidade de redirecionamento da estrutura e da criação de políticas sociais de cunho psicológico para minimizar o adoecimento e garantir o bem-estar profissional.

 

AGRADECIMENTOS

Agradecemos as contribuições de todos os participantes deste estudo e à direção do serviço de medicina forense correspondente à realização da pesquisa.

Contribuições dos autores

KMG e AMG foram responsáveis pela concepção do estudo, tratamento dos dados, análise formal, investigação, metodologia, administração do projeto, apresentação e redação – esboço original. FMP foi responsável pela concepção do estudo, tratamento dos dados, análise formal, metodologia, supervisão, validação e redação – revisão & edição. RMMG foi responsável pela investigação, recursos/materiais e redação – revisão & edição. AASGN foi responsável pela concepção do estudo, análise formal, recursos/materiais e redação – revisão & edição. MRRCS foi responsável pela validação, recursos/materiais e redação – revisão & edição. Todos os autores aprovaram a versão final submetida e assumem responsabilidade pública por todos os aspectos do trabalho.

 

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Recebido em 17 de Julho de 2020.
Aceito em 5 de Outubro de 2020.

Fonte de financiamento: Nenhuma

Conflitos de interesse: Nenhum


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