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ARTIGO ORIGINAL

Prevalência de fatores de risco coronariano em motoristas de transporte de carga

Prevalence of coronary risk factors in load transport drivers

Beatriz Bastos Braga1; Fabrícia Geralda Ferreira2; Hamilton Henrique Teixeira Reis1; João Carlos Bouzas Marins1

DOI: 10.47626/1679-4435-2022-695

RESUMO

INTRODUÇÃO: As doenças crônicas não transmissíveis são a principal causa de morte no mundo, existindo fatores de risco que contribuem para sua formação, inclusive associados à atividade laboral.
OBJETIVOS: Avaliar a prevalência de fatores de risco relacionados ao desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis e sua relação com a atividade laboral em motoristas profissionais de transporte de carga.
MÉTODOS: Foram avaliados 80 caminhoneiros do sexo masculino (39,73±10,91 anos) com 15,22±12,09 anos de experiência profissional. Além dos dados antropométricos e mensuração da pressão arterial, os motoristas responderam a três questionários: Physical Activity Readiness Questionnaire, Risco Coronariano e Finnish Diabetes Risk Score. Realizou-se análise descritiva e inferencial por meio da correlação de Pearson e teste t de Student, adotando nível de significância de p < 0,05.
RESULTADOS: Os resultados demonstraram prevalência de hipertensão arterial de 31,30%, com o risco de desenvolvimento coronariano médio (46,30%), estando este fator associado diretamente ao tempo de profissão (r = 0,519; p < 0,05). Dos 80 caminhoneiros, 48,80% eram fisicamente inativos, com 73,80% com excesso de peso e 7,50% com alto risco para o desenvolvimento de diabetes.
CONCLUSÕES: A categoria laboral estudada apresenta excesso de risco para agravos à saúde no âmbito das doenças crônicas não transmissíveis devido às características peculiares de sua profissão.

Palavras-chave: doenças cardiovasculares; promoção da saúde; prevenção primária.

ABSTRACT

INTRODUCTION: Non-communicable diseases are the main cause of mortality worldwide, with risk factors that contribute to their development, including those associated with work activity.
OBJECTIVES: To evaluate the prevalence of risk factors related to the development of non-communicable diseases and their relationship with work activity in professional load transport drivers.
METHODS: Eighty male truck drivers were assessed (39.73±10.91 years) with 15.22±12.09 years of professional experience. In addition to collection of anthropometric data and measurement of blood data, drivers answered three questionnaires: Physical Activity Readiness Questionnaire, Coronary Risk, and Finnish Diabetes Risk Score. Descriptive and inferential analyses were performed using Pearson correlation and Student’s t test, considering a significance level of p < 0.05.
RESULTS: The results showed a prevalence of arterial hypertension of 31.30% and a medium coronary risk (46.30%), a factor that was directly associated with time of professional performance (r = 0.519; p < 0.05). Of the 80 truck drivers, 48.80% were physically inactive, 73.80% were overweight, and 7.50% had a high risk for the development of diabetes.
CONCLUSIONS: The professional category studied presents an excess risk for health problems in the context of non-communicable diseases due to the peculiar characteristics of their profession.

Keywords: cardiovascular diseases; health promotion; primary prevention.

INTRODUÇÃO

As doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) são as principais causas de morbidade e mortalidade da população1, sendo reconhecidas como um importante problema de saúde pública e com risco potencial de aumento ao longo dos anos, promovendo, consequentemente, maiores custos para a saúde pública2.

O diagnóstico prévio das DCNT minimiza danos relevantes à saúde3, favorecendo a adoção antecipada de medidas preventivas. Alguns questionários específicos, validados e aceitos internacionalmente, como o Physical Activity Readiness Questionnaire (PAR-q)4, a tabela de risco coronariano proposta pela Michigan Heart Association (MHA)5 e o Finnish Diabetes Risk Score (FINDRISC)6, são alternativas interessantes que contribuem nesse diagnóstico. Esses instrumentos já foram utilizados em estudos prévios7,8, sendo viáveis para a realização de estudos epidemiológicos em função de sua simplicidade e baixo custo, permitindo a avaliação de grandes amostras da população.

Entre os fatores relacionados com o desenvolvimento de DCNT, é possível citar a hipertensão arterial sistêmica como uma das mais importantes causas da mortalidade cardiovascular em adultos, com alta prevalência e incidência nessa população9. O índice de massa corporal (IMC), que identifica estado nutricional, também está associado a fatores de risco para o desenvolvimento dessas doenças10. A combinação entre essas duas variáveis apresenta um alto risco para a população, sendo uma das relevantes causas de morbimortalidade cardiovascular em adultos10.

O desenvolvimento de doença coronariana, além de estar associado a fatores genéticos e também a fatores comportamentais e ambientais, também pode ser diretamente influenciado pelas atividades laborais11. Algumas dessas atividades, devido a suas peculiaridades, interferem nos hábitos de vida dos trabalhadores, ocasionando elevada prevalência de riscos para a saúde11. Nesse sentido, a condução de estudos com populações em risco torna-se evidente a fim de gerar subsídios para a adoção de estratégias eficazes para o controle dessa situação2.

Os ambientes de trabalho dos motoristas profissionais de caminhão são caracterizados por longas horas de sedentarismo, por conta do tempo sentado, e horários e pressões de tempo irregulares, com poucas oportunidades de acesso a opções de alimentos saudáveis ou ambientes propícios à atividade física12. Como resultado, os motoristas de caminhão são consistentemente identificados como tendo maior risco de desenvolvimento de DCNT por conta da má qualidade nutricional e questões relacionadas a atividade física, como obesidade, doenças cardiovasculares e diabetes13. Atrelado a isso, a rotina laboral desgastante devido ao trabalho em ambiente aberto, sujeito a condições climáticas, de tráfego e do trajeto, pode ocasionar implicações no estado psicofisiológico do profissional14,15, potencializando, inclusive, o risco de desenvolvimento de DCNT16.

Grande parte da economia nacional está atrelada ao transporte rodoviário, viabilizando vários outros setores econômicos. Segundo dados atualizados do Departamento Nacional de Trânsito17, existem no Brasil 2.858.377 caminhões, representando 2,68% do total de veículos no país, estando 1.264.521 na região Sudeste e 348.874 no estado de Minas Gerais. Os motoristas desses veículos, por transportarem produtos essenciais e matéria-prima para fabricação de vários outros bens de consumo, assumem grande responsabilidade econômica e social, sendo considerados de importante destaque em nossa sociedade.

Visto a relevância desses profissionais para a sociedade e os riscos aos quais estão expostos pela sua atividade laboral, estudos específicos se fazem necessários para geração de subsídios para autoridades governamentais tomarem medidas de saúde pública para esse grupo de trabalhadores.

Diante disso, o presente estudo avaliou a prevalência de fatores de risco relacionados ao desenvolvimento de DCNT e sua relação com a atividade laboral em motoristas profissionais de transporte de carga.

 

MÉTODOS

POPULAÇÃO AMOSTRAL

A amostra, não probabilista, por conveniência, foi constituída por 80 motoristas profissionais de transporte de cargas de dois municípios do interior de Minas Gerais. Este estudo descritivo de delineamento transversal foi realizado após a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa com seres humanos da Universidade Federal de Viçosa (parecer n.º 875.283 e Certificado de Apresentação de Apreciação Ética [CAAE]: 37759114.7.0000.5153), seguindo a Resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde.

Como critério para inclusão, o participante deveria ser do sexo masculino, estar em plena atividade laboral e ter residência fixa em um dos municípios do estudo. Os caminhoneiros foram convidados a participar do estudo voluntariamente por meio de contato com as empresas em que trabalhavam. Obtida a autorização por parte das empresas, o convite aos motoristas foi realizado pessoalmente, de forma individual, no pátio desses estabelecimentos durante seu horário de funcionamento. Aqueles profissionais que concordaram em participar do estudo foram encaminhados a uma sala reservada onde, após toda a explanação e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, a coleta de dados foi realizada.

Como instrumento para o levantamento dos dados, adotou-se um questionário adaptado do software de avaliação física e prescrição AVAESPORTE®, com questões que avaliaram características sociodemográficas e laborais, além de hábitos de vida, como o tabagismo e a ingestão de álcool e as variáveis antropométricas (peso e estatura) autorrelatadas para classificação do IMC. Foram utilizados questionários específicos, validados e aceitos internacionalmente, que contribuíram para um diagnóstico prévio de DCNT, sendo eles o PAR-q4, a tabela de risco coronariano proposta pela MHA5 e o FINDRISC6.

A coleta dos dados foi realizada em uma sala reservada no ambiente laboral dos participantes, nas respectivas fábricas de móveis e/ou cooperativas dos municípios, sendo realizada por um único avaliador.

Além da aplicação dos questionários, foi realizada, no mesmo local, a aferição da pressão arterial utilizando esfigmomanômetro aneroide Premium®. A pressão foi aferida no braço esquerdo após o avaliado permanecer por 5 minutos em repouso. Foram classificados em estado de hipertensão os motoristas com a pressão sistólica ≥ 140 mmHg e/ou pressão diastólica ≥ 90 mmHg ou aqueles que relataram a presença da doença e faziam uso de medicamentos9.

ANÁLISE ESTATÍSTICA

Inicialmente, foi realizado o teste de Komolgorov-Smirnov para verificar a pressuposição de normalidade das variáveis. A correlação de Pearson foi calculada para verificar a relação entre o tempo de profissão e o risco coronariano. Adotou-se um nível de significância de α = 0,05, e foi utilizado o software Statistical Package for Social Sciences (SPSS) versão 20.

 

RESULTADOS

As principais características da amostra são apresentadas na Tabela 1, sendo que a maioria dos avaliados considera sua atividade laboral como moderada (42,80%) ou intensa (35,00%). Um total de 30,00% dos motoristas afirmou ter dificuldades para dormir, um percentual elevado (61,30%) afirmou realizar a ingestão de álcool, e 7,50% relataram a utilização de drogas ilícitas. A maioria da amostra (68,80%) foi considerada fisicamente inativa, apresentando excesso de peso (73,80%), e 31,30% dos avaliados autorrelatou ter sido diagnosticado com hipertensão arterial.

 

 

Na avaliação relativa ao risco coronariano, 51,20% dos avaliados apresentou risco acima da média (Tabela 2).

 

 

Foi possível observar uma correlação positiva entre o risco coronariano e o tempo de profissão (r = 0,519; p < 0,05), aumentando conforme o passar dos anos de trabalho.

 

DISCUSSÃO

O presente estudo teve como objetivo avaliar a prevalência de fatores de risco relacionados ao desenvolvimento de DCNT e sua relação com o tempo de atividade laboral em motoristas profissionais de transporte de carga de dois municípios do interior de Minas Gerais.

A média de idade apresentada pelos motoristas de transporte de carga (39,73±10,91) em nosso estudo é semelhante à apresentada em outros estudos com essa população18,19. Sendall et al.12 identificaram em seu estudo motoristas de transporte em plena atividade laboral com mais de 70 anos de idade. Esse perfil etário pode sugerir que determinadas características de risco coronariano típico para essas médias etárias sejam evidentes nesse público, relacionadas ao envelhecimento.

O tempo de profissão também é um fator que necessita ser explorado com cautela, uma vez que existem indícios de que motoristas profissionais atuantes há mais de 10 anos estão mais expostos ao risco de infarto agudo do miocárdio (IAM) quando comparados à mesma categoria profissional com menos tempo de atuação laboral20. Considerando que o tempo médio de profissão do presente estudo foi de 15,20 ± 12,09 anos, é possível estimar que seja uma população de risco para IAM, requerendo, assim, uma ação preventiva.

Entre as características laborais identificadas no estudo, observamos que a maior parte dos entrevistados avaliou sua profissão como moderada ou intensa, corroborando com resultados anteriores21,22. Os motoristas profissionais de transporte de cargas estão expostos a uma rotina laboral desgastante, podendo ocasionar implicações no seu estado psicofisiológico14,15.

Sabe-se que o sono exerce influência sobre as condições físicas, psicológicas e sociais do indivíduo, tendo importante papel em sua vida23. No presente estudo, foi observada uma baixa média de horas de sono nos motoristas, o que também ocorreu em outros estudos21,23, podendo ser um dos motivos que ocasionam alterações psicológicas nesses profissionais. O não cumprimento das horas de sono de forma adequada pode acarretar riscos a curto prazo, como cansaço e sonolência durante o dia, irritabilidade, alterações de humor, perda da memória de fatos recentes, comprometimento da criatividade, redução da capacidade de planejar e executar, lentidão do raciocínio, desatenção e dificuldade de concentração21,23, o que caracteriza um problema de magnitude elevada, uma vez que esses profissionais necessitam de atenção constante para cumprir sua tarefa, que normalmente consiste em mais de 9 horas de trabalho por dia12. Dessa forma, ao planejar ações em saúde destinadas a essa categoria laboral, é de extrema importância abordar o fator sono.

Outros fatores associados ao aumento do risco de desenvolvimento de DCNT são o tabagismo, o consumo de álcool e o uso de drogas. Os participantes deste estudo apresentaram uma maior propensão ao tabagismo comparado a outros estudos realizados com a mesma categoria laboral16,24. O tabagismo é uma das principais causas de morte evitável, estando associado a diversos agravos à saúde, destacando-se, entre eles, o risco para o câncer e para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares e pulmonares25. É fundamental, então, a realização de campanhas de esclarecimento sobre os prejuízos do tabagismo na população em foco, visando reduzir essa prevalência.

O consumo de álcool foi altamente relatado pelos avaliados (61,30%), sobretudo na comparação com outros estudos com o mesmo grupo populacional16,24. Índices de etilismo presentes na categoria de motoristas são preocupantes, visto que altos índices de acidentes de transportes envolvem essa população26. Diante desses achados, nota-se a importância de uma fiscalização mais assídua na aplicação da legislação específica já existente (Lei Seca 12.760/12) para que o consumo possa ser inibido e a segurança dessa população seja preservada.

Em relação ao uso de outras drogas, é difícil fazer inferências em função da complexidade em avaliar essa variável. São poucos os estudos brasileiros que adotam a metodologia de análise toxicológica ou com base em relatos para investigação do consumo de drogas. Em estudo realizado por Takitane et al.27, a urina dos avaliados foi analisada para a presença de anfetamina, e, em 10,80% das amostras, os resultados foram positivos para essa substância. Destes indivíduos, menos da metade (42,90%) declaram ter feito o uso da droga, evidenciando a dificuldade de realização de levantamentos reais por meio de relatos do uso de substâncias ilícitas. Um total de 7,50% dos avaliados espontaneamente afirmou consumir substâncias ilícitas, índice elevado e preocupante em função da gravidade do consumo desse tipo de substância por profissionais que atuam na direção. A ingestão de qualquer quantidade de substância psicoativa pode ocasionar alterações cognitivas não condizentes com uma direção segura em virtude de seus efeitos agudos, residuais ou de abstinência27.

Em relação aos hábitos alimentares, os dados encontrados corresponderam ao esperado. A maioria dos motoristas entrevistados (63,70%) apresentou insatisfação com sua dieta. Alguns autores, ao investigar esse grupo de trabalhadores e sua relação com os hábitos alimentares, observaram que grande parte desses profissionais se encontra numa situação de dependência da oferta nutricional de estabelecimentos que, normalmente, oferecem alimentos com alto valor calórico e baixo valor nutritivo12. Aliado a isso, por conta das características específicas da profissão, além da qualidade da oferta de alimentos por parte dos estabelecimentos, os horários para a realização das refeições também são considerados inadequados12.

A avaliação através do IMC demonstrou que 35,00% dos participantes avaliados no presente estudo foram considerados obesos. Esses achados são semelhantes a outros estudos com a mesma categoria profissional, explicitando uma característica negativa em termos desse parâmetro nessa profissão28.

A obesidade está associada a uma série de patologias, entre elas as enfermidades cardiovasculares e cerebrovasculares, distúrbios metabólicos, alguns tipos de câncer, hipertensão e diabetes, sendo um desafio para a saúde pública1. Dessa forma, campanhas visando o combate dessas elevadas prevalências se fazem necessárias a fim de ampliar a qualidade de vida e a saúde desses profissionais tão importantes para a economia do país.

Nesse sentido, a prática regular de atividades físicas se torna desejável e necessária mediante à variedade de benefícios a elas associada29.

Ainda analisando os aspectos comportamentais no grupo estudado, foi identificada elevada prevalência de inatividade física (68,80%), também observada em outros estudos12,16 com a população de motoristas de transporte de cargas. O comportamento sedentário característico nesse tipo de profissão pode agravar ainda mais a saúde desse grupo profissional, uma vez que eles permanecem em posição sentada durante várias horas por dia. A adoção de um estilo de vida mais ativo fisicamente deve ser incentivada a fim de minimizar os efeitos do comportamento sedentário.

É necessária uma avaliação pré-exercício mais criteriosa nessa população antes da elaboração de um plano de exercícios físicos, uma vez que 48,80% do grupo avaliado não foram considerados aptos para iniciar um programa específico, conforme evidenciado pelo PAR-q (Tabela 1). Em relação aos resultados encontrados a partir dessa avaliação, foi observado que, entre as respostas afirmativas relacionadas à incapacidade de se realizar uma atividade física regular, a mais prevalente foi em relação a complicações de ordem osteoarticular (35,00%). Uma hipótese para tal achado seria a postura sentada adotada por esses profissionais no decorrer de sua jornada de trabalho. Diante dessa análise, é ressaltada a importância de estudos relacionados à ergonomia na atuação dos motoristas, visando melhorias em qualidade de vida e consequentemente em saúde. Ainda, atividades de alongamento deveriam fazer parte da rotina de trabalho desses profissionais, o que poderia reduzir a incidência de problemas ortopédicos como as lombalgias.

A hipertensão arterial dos participantes apresentou valores próximos aos observados por outros estudos com a mesma categoria laboral16,30. A prevalência encontrada em nosso estudo é inferior à descrita para população brasileira do sexo masculino (35,80%)9, o que é um fator comparativo positivo, mas que não deve ser negligenciado pelos envolvidos, uma vez que a hipertensão arterial é um dos principais fatores de risco coronariano.

Na verificação do risco de desenvolver o diabetes melito tipo 2 por meio do FINDRISC, foram identificados escores próximos ou superiores quando comparados a outras populações avaliadas pelo mesmo instrumento31. A prevalência de risco moderado a alto (32,50%) identificada no presente estudo mediante a avaliação do FINDRISC evidencia a necessidade de ações educativas em saúde direcionadas a essa classe laboral.

Na avaliação do risco coronariano adotando a tabela proposta pela MHA5, verificou-se escores elevados. A maioria dos motoristas estudados (51,20%) foi classificada em escores de risco moderado a muito alto. Esses resultados de certa forma não surpreendem em virtude do levantamento do perfil de saúde dos profissionais estudados. O risco coronariano é estimado a partir da relação entre alguns fatores de risco, sendo eles a idade, a hereditariedade, o peso, o tabagismo, a prática de exercícios, o sexo, o percentual de colesterol e a pressão arterial sistólica5. Analisando os resultados obtidos no presente estudo e em outros trabalhos em que foi estudada a mesma população, se observa prevalências que expõem esses indivíduos a complicações em seu estado de saúde quando consideradas as variáveis acima citadas3,12. Dessa forma, intervenções em saúde são recomendadas a fim de reverter essa realidade.

O aumento do risco coronariano no presente estudo esteve relacionado ao aumento do tempo de profissão (p < 0,05), o que evidencia a necessidade de elaboração e manutenção de uma rotina mais saudável por parte desses profissionais, sobretudo aqueles que possuem um maior tempo de atuação laboral.

Destacamos que o presente estudo possui limitações, como ter sido desenvolvido em apenas duas cidades do interior de Minas Gerais, não podendo extrapolar os dados para toda a categoria profissional. Outra limitação é a pressão arterial que, por conta das características da atividade, pôde ser mensurada apenas em um único momento, devendo ser visto com ressalvas a prevalência de hipertensão encontrada.

O presente estudo demonstra a necessidade de um maior cuidado com os motoristas profissionais de transportes de carga. Suas classificações e escores relacionados aos fatores de risco para desenvolvimento de DCNT apresentaram valores preocupantes e devem ser controlados com ações imediatas nos propósitos de recuperação, prevenção e promoção da saúde. O impacto econômico promovido por essa classe de trabalhadores é essencial para a economia do Brasil, mas a saúde desses profissionais é o parâmetro primordial a ser observado e cuidado durante o tempo de atuação dos motoristas.

 

CONCLUSÕES

A categoria laboral estudada apresenta elevado risco para agravos a saúde no âmbito das DCNT devido às características peculiares de sua profissão, que exercem influência negativa em seus hábitos de vida.

O risco coronariano, avaliado através da proposta da MHA5, foi considerado elevado, o que sugere uma necessidade de implementação de mudanças relacionadas aos hábitos de vida nesse grupo de profissionais. Atitudes como a adoção de um estilo de vida mais saudável por meio da prática regular de atividades físicas e de uma dieta balanceada devem se tornar hábitos. Ações como o controle do peso corporal, a diminuição da ingestão de bebidas alcoólicas e a abstinência do tabagismo também devem ser priorizadas. A soma desses comportamentos proporcionará aos trabalhadores dessa classe laboral melhorias em sua qualidade de vida e, consequentemente, modificações dos comportamentos de risco aos quais estão submetidos.

Contribuições dos autores

BBB foi responsável pela concepção do estudo, tratamento de dados, análise formal, investigação, metodologia, software e redação – esboço original. FGF foi responsável pelo tratamento dos dados, análise formal, metodologia, supervisão, apresentação e redação – revisão & edição. HHTR foi responsável pela supervisão, validação, apresentação e redação – revisão & edição, e JCBM foi responsável pela concepção do estudo, metodologia, administração do projeto, recursos/materiais, software, supervisão, validação, redação – esboço original e redação – revisão & edição. Todos os autores aprovaram a versão final submetida e assumem responsabilidade pública por todos os aspectos do trabalho.

 

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Recebido em 5 de Outubro de 2020.
Aceito em 17 de Março de 2021.

Fonte de financiamento: Nenhuma

Conflitos de interesse: Nenhum


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