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ARTIGO ORIGINAL

Perfil dos acidentes de trabalho por animais peçonhentos no Distrito Federal no período de 2009 a 2019

Profile of work accidents caused by venomous animals in Brazil’s Federal District from 2009 to 2019

Caio Trentin Tibério1; Andrea Franco Amoras Magalhães1,2,3

DOI: 10.47626/1679-4435-2022-942

RESUMO

INTRODUÇÃO: O alto número de acidentes por animais peçonhentos em países tropicais, grande problema de saúde pública, fez com que a Organização Mundial da Saúde os enquadrasse na lista de doenças tropicais negligenciadas. O Sistema de Informação de Agravos de Notificação mostra que, a cada ano, os números de notificações de acidentes por animais peçonhentos têm aumentado. No Brasil, os acidentes por animais peçonhentos estão em primeiro lugar no número de intoxicações humanas. A importância dos acidentes para a saúde pública e para o trabalhador, por consequência, fica evidente a partir dos números: mais de 100 mil acidentes e próximo de 200 óbitos anualmente.
OBJETIVOS: Observar e analisar o perfil dos acidentes no Distrito Federal.
MÉTODOS: Estudo retrospectivo descritivo do tipo série de casos de quatro bases de dados sobre acidentes por animais peçonhentos. Além da análise de cada uma das bases, foi feita a comparação entre elas.
RESULTADOS: Foi encontrado um total de 11.376 acidentes por animais peçonhentos de 2009 a 2019, no Distrito Federal, sendo 363 acidentes de trabalho com zero óbitos no período. Houve discordâncias entre cada uma das bases pesquisadas.
CONCLUSÕES: As subnotificações e discordâncias poderão ser mais bem avaliadas e posteriormente solucionadas pelos órgãos gestores de cada base. A busca ativa de informações e melhores organizações dos órgãos competentes são algumas soluções para os problemas enfrentados no momento.

Palavras-chave: Animais venenosos; sistemas de informação em saúde; acidentes de trabalho; previdência social; notificação de acidentes de trabalho.

ABSTRACT

INTRODUCTION: The high numbers of accidents involving venomous animals in tropical countries is a major public health problem and has prompted the World Health Organization to place them on its list of neglected tropical diseases. The Notifiable Diseases Information System shows that the number of notifications of accidents involving venomous animals increases every year. In Brazil, accidents involving venomous animals are the number one cause of human intoxications. The public health importance of accidents and their consequential importance for workers is clearly illustrated by the more than 100,000 accidents and almost 200 deaths that occur annually.
OBJECTIVES: To observe and analyze the profile of accidents involving venomous animals in Brazil’s Federal District.
METHODS: A retrospective descriptive case series study of data from four databases containing information on accidents involving venomous animals. In addition to analyzing each one, they were also compared to each other.
RESULTS: A total of 11,376 accidents involving venomous animals from 2009 to 2019 were registered in the Federal District. There were 363 occupational accidents and zero deaths in the period. There were discrepancies between each of the databases analyzed.
CONCLUSIONS: Subnotification and discrepancies should be better evaluated and subsequently resolved by the managers of each database. Actively seeking information and better organization of the organs responsible for database management are possible solutions to the current problems.

Keywords: Poisonous animals; health information systems; occupational accidents; social security; occupational accidents registry.

INTRODUÇÃO

Os animais peçonhentos são aqueles que possuem algum aparato para injetar veneno, produzido ou modificado por eles, em presas ou predadores1,2. Já animais venenosos expõem seus predadores ao veneno, sem injetá-lo3. Os principais animais peçonhentos causadores de acidentes no Brasil são algumas espécies de serpentes, de escorpiões, de aranhas, de lepidópteros (mariposas e suas larvas) e outros2. O aparelho inoculador de veneno das serpentes são as presas, das aranhas são as quelíceras e dos escorpiões, o télson4. Uma dose suficiente de veneno na presa ou no predador causa efeitos deletérios locais e/ou sistêmicos5.

O alto número de acidentes por animais peçonhentos em países tropicais, grande problema de saúde pública, fez com que a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2009, os enquadrasse na lista de doenças tropicais negligenciadas. Essa lista reúne enfermidades que foram parcial ou totalmente erradicadas em países desenvolvidos, porém ainda são persistentes nos países em desenvolvimento6.

Considerando que a maioria da população atingida por esse problema tem pouca influência política, as doenças tropicais negligenciadas não têm tanta importância prioritária nas políticas públicas de saúde. Essa situação gera poucos investimentos em pesquisa e em prevenção e deixa os fluxos de informações epidemiológicas frágeis, intensificando a pobreza e as baixas condições de saúde6.

Além dos problemas de acesso à saúde e subnotificações, as necessidades globais de soros antivenenos não são supridas pelos 46 produtores no mundo7. Em relação aos soros antivenenos, vale ressaltar a contribuição brasileira nas pesquisas nesse tema. As pesquisas assinadas pelo cientista Vital Brazil são pioneiras na produção dos soros específicos para animais peçonhentos: serpentes, escorpiões e aranhas. Essas pesquisas quebraram paradigmas e contribuíram para a inovação de conceitos e práticas nas ciências médicas e biológicas. Não se tem outro método para neutralização de peçonha mais eficaz que o criado por ele em 18988.

O Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) mostra que, a cada ano, os números de notificações de acidentes por animais peçonhentos têm aumentado. No ano de 2010, ocorreram cerca de 124.000 acidentes por animais peçonhentos. Já em 2014, a ocorrência passou para mais de 170.000 acidentes – os escorpiões ocupam o primeiro lugar como causa dos acidentes (cerca de 88.000); na sequência, serpentes e aranhas (cerca de 27.000 acidentes cada). Embora, no Brasil, a quantidade de acidentes seja elevada, não se tem uma exata magnitude dos dados, visto que há muitas subnotificações e omissões de dados ao preencher fichas de investigação6.

Um estudo mostrou a letalidade dos acidentes causados pelos animais anteriormente citados no Brasil em 2012. Os resultados foram os seguintes: escorpiões com 63.619 acidentes e 97 mortes; serpentes com 28.080 acidentes e 127 mortes; e aranhas com 24.942 acidentes e 16 mortes9.

No Brasil, segundo dados do último boletim do Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (SINITOX) de 2017, os acidentes por animais peçonhentos estão em primeiro lugar no número de intoxicações humanas. Em segundo lugar, estão as intoxicações por medicamentos10.

O número de acidentes por animais peçonhentos cresce devido a problemas como desequilíbrio ecológico e crescimento urbano desordenado, que contribuem para sobreposição do espaço pelo homem e por esses animais, que buscam, nas cidades, alimento e abrigo. O perfil desses acidentes, que era quase totalmente rural, tem sido alterado por essa sobreposição6.

A importância dos acidentes para a saúde pública e para o trabalhador, por consequência, fica evidente com os mais de 100 mil acidentes e próximo de 200 óbitos anualmente. Os casos são predominantes em adultos jovens em atividades de trabalho, sendo, muitas vezes, informal ou não remunerado11.

No mundo, os seres vivos peçonhentos estão amplamente espalhados por todo o reino animal, com mais de 100.000 espécies em todos os principais filos12. No Brasil, as serpentes de interesse médico são dos seguintes gêneros: BothropsBothrocophias, Crotalus, Lachesis, Micrurus e Leptomicrurus. Os escorpiões são do gênero Tityus. As aranhas são dos gêneros Loxosceles, Phoneutria e Latrodectus. Já as lagartas do gênero Lonomia são as de maior importância para a saúde pública13.

Dada a importância desse agravo à saúde dos trabalhadores, em especial nos países subdesenvolvidos, como no Brasil, o presente estudo teve como objetivo observar e analisar o perfil dos acidentes no Distrito Federal envolvendo essa população específica.

 

MÉTODOS

O presente trabalho é um estudo retrospectivo descritivo do tipo série de casos de quatro banco de dados que fornecem informações a respeito de acidentes por animais peçonhentos, tomando como foco o Distrito Federal. Os acidentes com animais analisados foram aqueles envolvendo serpentes, aranhas, escorpiões e lagartas. Após aprovação do Comitê de Ética do Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal com o CAAE n.º 36272020.1.0000.8153, os dados foram coletados e posteriormente analisados pelo software Microsoft Office Excel 365.

O primeiro banco de dados analisado, de 2009 até 2019, foi o “Acidentes por Animais Peçonhentos” do SINAN. Para acidentes relacionados ao trabalho em todas as ocupações no Distrito Federal, as variáveis analisadas foram sexo, escolaridade, local da picada/mordedura, zona de ocorrência, número de acidentes por animais peçonhentos por ano na série analisada e gravidade dos acidentes relacionados ao tempo do acidente e seu atendimento.

O segundo banco de dados analisado para o mesmo período e para todas as ocupações foi o “Acidentes de Trabalho” do SINAN. Foram pesquisados os códigos da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID-10) que mencionam acidentes pelos animais citados anteriormente, sendo o local dos acidentes o Distrito Federal. Os CIDs foram W59, X20, X21, X22, X25, X27 e X29.

O terceiro banco de dados, também para o mesmo período, foi a base do Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox)/Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) do Distrito Federal, pesquisando-se circunstância ocupacional dos acidentes com ocorrência no Distrito Federal. Os agentes tóxicos foram os animais peçonhentos.

A última base de dados analisada foi a “Base de Dados Históricos de Acidentes de Trabalho” da Secretaria Especial de Previdência e Trabalho. Para o Distrito Federal, no período de 2008 até 2018, foi avaliado o número de emissões de Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT), o número de acidentes típicos, o número de acidentes de trajeto e o número de doenças do trabalho para os seguintes CIDs-10: T63, W59, X20, X21, X22, X25, X27 e X29.

 

RESULTADOS

Na base de dados “Acidentes por Animais Peçonhentos”, de um total de 11.376 acidentes por animais peçonhentos (serpente, aranha, escorpião e lagarta) de 2009 até 2019 no Distrito Federal, foram encontrados 363 acidentes de trabalho com zero óbitos no período.

A Figura 1A mostra a prevalência (em números absolutos) dos acidentes para os sexos em cada ano da série analisada. De 2009 para 2019, houve aumento de 17 vezes no número de mulheres acometidas e de 3,15 vezes no número de homens. Já a Figura 1B mostra o cálculo de projeção do Microsoft Excel, usando os dados existentes baseados em tempo e a versão AAA do algoritmo de suavização exponencial (ETS, do inglês exponential smoothing). Entre 2009 e 2019, foi constatado um total de 82 acidentes em mulheres e 281 acidentes em homens.

 


Figura 1. A. Animais peçonhentos, evolução em acidentes de trabalho por gênero. B. Animais peçonhentos, evolução em acidentes de trabalho por gênero, projeção até 2029.
Fonte: “Acidentes por Animais Peçonhentos” do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN).

 

Em relação à escolaridade dos acidentados, o maior número de casos ocorreu para a faixa de 5ª a 8ª série do ensino fundamental incompleto.

A Tabela 1 disponibiliza a prevalência dos locais das mordeduras/picadas.

 

 

A Figura 2A mostra a distribuição dos acidentes por zonas de ocorrência. Já a 2B mostra essa distribuição ao longo dos anos. A partir de 2017, há um expressivo aumento nos dados correspondentes a “urbano”, enquanto há um expressivo declínio nos dados correspondentes a “rural”.

 


Figura 2. A. Animais peçonhentos, acidente de trabalho, zona de ocorrência de 2009 até 2019. B. Animais peçonhentos, acidente de trabalho, zona de ocorrência.
Fonte: “Acidentes por Animais Peçonhentos” do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN).

 

O Informativo Epidemiológico de 2020 da Secretaria de Saúde do Distrito Federal mostrou que 72,2% dos acidentes ocorridos em moradores no Distrito Federal foram em área urbana, 12,1%, em área rural e 3,9%, em área periurbana. No campo da ficha de notificação, 9,8% ignoraram essa pergunta, e 2,1% estava sem preenchimento14.

Do total de acidentes do presente estudo, os acidentes por escorpião correspondem a 60,33% (219 casos); aqueles com serpentes correspondem a 34,99% do total (127 casos); aranhas representam 3,31% dos acidentes (12 casos); e as lagartas/lonomias correspondem a 1,38% do total de acidentes (5 casos). A Figura 3 mostra a distribuição em números absolutos dos animais peçonhentos para cada ano da série analisada.

 


Figura 3. Animais peçonhentos, acidentes por ano.
Fonte: “Acidentes por Animais Peçonhentos” do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN).

 

Um estudo que analisou, por meio do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS), as fichas do SINAN para animais peçonhentos no Distrito Federal, de 2010 a 2016, para a população geral em relação aos mesmos animais da presente pesquisa encontrou um total de 4.951 acidentes, com a mesma ordem de grandeza: escorpião com 71,01% dos acidentes, serpente com 15,99%, aranha com 9,71% e lagarta com 3,27%. Porém, em contraste com a presente pesquisa, esse estudo do Distrito Federal constatou seis óbitos pelo agravo no período15.

Segundo a Secretaria de Saúde do Distrito Federal, apenas em 2019, para a população geral, foram registrados 1.679 acidentes por escorpiões, serpentes, aranhas e lagartas. Os escorpiões foram responsáveis por 1.363 acidentes, as serpentes, por 121, as lagartas, por 112 e as aranhas, por 8316, com uma ordem de grandeza diferente do presente estudo.

O Informativo Epidemiológico de 2020 para animais peçonhentos mostrou que 2.402 acidentes ocorreram e foram atendidos no Distrito Federal. Os acidentes com escorpião contabilizaram 1.878, com aranhas, 131, com serpentes, 108 e com lagartas, 7414. Entretanto, a ordem de grandeza difere da registrada no ano de 2019 no SINAN, conforme a Figura 3. Esse informativo distribui a prevalência dos sexos para cada animal para moradores do Distrito Federal: escorpiões (47,9% homens e 52,1% mulheres) e aranhas (50% homens e 50% mulheres); serpentes e lagartas não tiveram as proporções registradas. Para todos os animais, 50,2% dos acidentes ocorreram com homens e 49,8%, com mulheres14. A Figura 4 mostra as seguintes proporções para homens e mulheres, respectivamente, na série histórica: escorpiões com 68,9% e 31,1% e aranhas com 75,0% e 25,0%.

 


Figura 4. Animais peçonhentos, distribuição dos gêneros de 2009 até 2019.
Fonte: “Acidentes por Animais Peçonhentos” do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN).

 

No Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde para acidentes de trabalho por animais peçonhentos entre trabalhadores do campo, florestas e águas, foi observado que, entre 2007 e 2017, foram notificados 95.205 acidentes de trabalho com animais peçonhentos. Nesse período, houve um aumento de 38,25% no número de registros, de 7.830 em 2007 para 10.825 em 2017 (ano que apresentou o maior número de casos). A maior parte dos acidentes ocorreu com serpentes (45.763), escorpiões (22.596) e aranhas (16.474), nessa ordem, não sendo apresentado o número de acidentes por lagartas17.

Quanto ao tempo do acidente e seu atendimento, a maioria ocorreu em até 3 horas, o mesmo achado de um estudo com a população geral15.

Em relação à base de dados “Acidente de Trabalho”, há um total de 5.968 acidentes de trabalho ocorridos no Distrito Federal de 2009 até 2019. Foram constatados três acidentes para os seguintes CIDs pesquisados: W59, X20, X21, X22, X25, X27 e X29. Um acidente W59 (mordedura ou esmagamento provocado por outros répteis), outro acidente X22 (contato com escorpiões) e um acidente X29 (contato com animais ou plantas venenosos, sem especificação).

Para o banco de dados CIATox/SAMU-DF, há um total de 1.791 acidentes no Distrito Federal entre 2009 e 2019, pelos seguintes animais: serpentes, aranhas, escorpiões, lonomias e outros. Porém, quando selecionamos circunstância ocupacional para esses acidentes, obtemos um número de 12 acidentes: dois por escorpião, quatro por serpente, quatro por aranha e dois do grupo Hymenoptera (formigas, abelhas e vespas).

A última base de dados do presente trabalho é a “Base de Dados Históricos de Acidentes de Trabalho” da Secretaria Especial de Previdência e Trabalho. Para o período de 2008 até 2018 (anos disponíveis para análise), constatamos um total de 57 acidentes, classificados como: típico com CAT, trajeto com CAT, doença do trabalho com CAT, sem CAT e não classificado.

Em relação à base da Secretaria Especial de Previdência e Trabalho, a Figura 5A mostra a distribuição dos tipos de acidentes para cada CID pesquisado, no período de 2008 a 2018. Já a 5B distribui os tipos de acidentes para cada ano de 2008 até 2018 para todos os CIDs.

 


Figura 5. A. Tipos de acidentes por CID para os anos de 2008 até 2018. B. Número dos tipos de acidentes para todos os CIDs por ano.
Fonte: Base de Dados Históricos de Acidentes de Trabalho (Secretaria Especial de Previdência e Trabalho). CAT = Comunicação de Acidente de Trabalho; CID = Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde.

 

DISCUSSÃO

Na base de dados principal desta pesquisa, “Acidentes por Animais Peçonhentos”, constatamos um aumento de 14, em 2009, para 58, em 2019, no número de acidentes por animais peçonhentos em trabalhadores, com um aumento considerável para o sexo feminino de um para 17 (1.600%), apesar de o sexo masculino ser predominante em todos os anos da série histórica pesquisada.

Com os cálculos e as projeções do Excel, as mulheres em 2027 ultrapassariam os homens em números absolutos na quantidade de acidentes. Na presente pesquisa, a partir de 2015 já foi possível observar esse aumento do sexo feminino. Tudo isso poderia ser explicado pela inserção das mulheres em mais atividades econômicas devido, por exemplo, à remuneração mais baixa das mulheres em relação aos homens no setor formal e nos setores formal e informal juntos18.

Outro estudo mostrou que as mulheres e homens não diferiram no tempo necessário para detectar um animal peçonhento, mas os homens cometeram menos erros que as mulheres na detecção de imagens que retratam animais peçonhentos19. Ou seja, esse estudo poderia explicar, juntamente com o crescimento de mulheres no mercado de trabalho, o aumento progressivo do número de mulheres acidentadas de 2015 até 2029.

Para a escolaridade dos acidentes, foi observado maior número de casos para a faixa de 5ª a 8ª série do ensino fundamental incompleto. Essa faixa escolar poderia associar-se a um baixo grau de instrução e informações acerca de acidentes por animais peçonhentos.

O local do corpo onde ocorre a maior parte dos acidentes é a mão. Esse fato poderia ser explicado por uso inadequado de equipamento de proteção individual (EPI), ausência de EPI e falta de atenção ao manusear ou pegar objetos. Em segundo lugar está o pé, o que também poderia ser explicado pelo uso inadequado ou não uso dos EPIs.

O aumento de 2016 até 2019 dos acidentes urbanos em relação às outras regiões de acidentes pode ser explicado pelo aumento do número de acidentes por escorpiões nesse período. Já a diminuição dos acidentes rurais a partir de 2017 poderia ser explicada pela diminuição dos acidentes por serpentes no período.

Dois pontos positivos dessa base de dados foram que a maioria dos acidentes teve um atendimento rápido (até 3 horas, mais especificamente de 0 a 1 hora) e não houve óbitos. Foi observado que, quanto mais tempo levam os atendimentos dos acidentes, há menos acidentes considerados leves. O tempo decorrido até o atendimento é de fundamental importância para o melhor prognóstico do paciente, pois, quanto mais precocemente for identificado o animal e iniciado o tratamento, menores são as chances de complicações que podem levar a sequelas irreversíveis, hospitalização prolongada (que expõe o paciente ao risco de desenvolvimento de comorbidades, como infecções hospitalares) e complicações que podem evoluir para óbito20.

É importante ressaltar que os acidentes podem gerar gastos importantes relacionados ao tratamento de sequelas graves, a internações prolongadas, à reabilitação e a aposentadorias por invalidez20 – gastos com trabalhadores e população em geral que são evitáveis.

Devido ao perfil da distribuição dos acidentes por aranhas na série pesquisada, não foi possível fazer as projeções do Microsoft Excel, como foi feito para os sexos. Houve distorção dos resultados pelos cálculos do aplicativo.

A enorme variedade de animais peçonhentos (serpentes, aranhas e escorpiões) já gera acidentes considerados graves, deixando milhares de indivíduos com sequelas, muitas delas incapacitantes, podendo evoluir para óbito6. A presente pesquisa não identificou óbitos nas duas bases do SINAN e na base do CIATox/SAMU-DF, apesar de ter dados classificados como “ignorado” nas bases do SINAN. Essa é uma limitação dos desfechos dos acidentes.

Para o banco de dados da Secretaria Especial de Previdência e Trabalho, é necessário considerar os trabalhadores autônomos, os trabalhadores informais e/ou as subnotificações para o baixo número de acidentes (57) no período de 11 anos (2008 até 2018). Vale lembrar que, para o ano de 2019, não estão disponíveis informações a respeito dos acidentes, como as citadas de 2008 até 2018.

O banco de dados da Secretaria Especial de Previdência e Trabalho menciona escorpiões no primeiro lugar de causa de acidentes, ao abordar animais peçonhentos. Isso está em concordância com a base “Acidentes por Animais Peçonhentos”.

Foi observada uma grande divergência de dados entre os bancos do SINAN. É esperado que esses dados sejam próximos em números, pois a base “Acidente de Trabalho” completa as informações do acidente de trabalho que constam na base “Acidentes por Animais Peçonhentos”. No Centro de Referência em Saúde do Trabalhador do Distrito Federal, por exemplo, é feita uma busca ativa, que pode estar comprometida, a partir dos registros dessa última base para completar a outra.

O banco de dados do CIATox/SAMU-DF apresentou elevado número de acidentes por animais peçonhentos. Entretanto, registrou poucas circunstâncias ocupacionais em comparação ao banco “Acidentes por Animais Peçonhentos”, do SINAN. A falta de informação mais detalhada nos atendimentos realizados pelo CIATox pode ser o motivo da divergência dos dados.

Em relação aos registros dos doze acidentes do CIATox/SAMU-DF, nenhum foi cadastrado no banco “Acidente de Trabalho”. Apenas um acidente (por escorpião) foi registrado no banco “Acidentes por Animais Peçonhentos” e classificado como acidente relacionado ao trabalho. Outros dois acidentes do CIATox (um por serpente e outro por aranha) foram cadastrados no banco “Acidentes por Animais Peçonhentos”, mas tiveram o campo relacionado ao trabalho preenchido como “ignorado”. Os demais (nove) não foram cadastrados.

Um estudo, de 2009 a 2013, já havia mostrado subnotificações de intoxicações exógenas do CIATox em comparação com o SINAN21, o que poderia ser extrapolado para o presente trabalho nos anos de 2009 até 2019 para animais peçonhentos utilizando as mesmas bases de dados.

Considerando que os centros de intoxicação (CIATox/SAMU-DF, no caso) e o SINAN têm objetivos e mecanismos de coleta de dados diferentes, um evento de intoxicação pode não estar relatado em ambos os sistemas22, como foi achado no presente estudo.

Os acidentes que envolvem animais peçonhentos, parte das chamadas doenças negligenciadas, fazem parte da notificação compulsória no Brasil. Eles recebem das políticas de saúde o enfoque à provisão do soro antiveneno23. Por isso, é muito importante o preenchimento de todos os campos das fichas de notificações, bem como de todas as bases de dados dos governos envolvendo esse agravo.

Para uma vigilância epidemiológica dos acidentes por animais peçonhentos, é necessária a existência de um sistema nacional de informação, universalmente distribuído pelo território nacional24 e integrado com outros sistemas. A intenção da vigilância desses acidentes é reduzir sua incidência25. A correta notificação dos acidentes é uma das formas de mostrar a distribuição dos animais pelo território nacional20, possibilitando o correto diagnóstico dos acidentes e a aplicação das medidas terapêuticas e preventivas.

As notificações por animais peçonhentos são importantes no Distrito Federal, visto que, nessa região, as intoxicações por animais peçonhentos, levando em conta a população geral, ficam atrás apenas das intoxicações medicamentosas, que estão em primeiro lugar26.

Uma das grandes contribuições do presente trabalho foi a interligação entre os bancos de dados, algo que não ocorre atualmente. As discordâncias entre eles dificultam melhores avaliações e detalhamentos dos acidentes de trabalho.

Essas subnotificações e discordâncias poderão ser mais bem avaliadas e posteriormente solucionadas pelos órgãos gestores de cada base. A busca ativa de informações e melhores organizações dos órgãos competentes são algumas soluções para os problemas enfrentados no momento. É importante, também, que os médicos e outros profissionais da saúde façam e incentivem outros a preencherem essas fichas de notificação com o maior número de informações possíveis.

Em princípio, todos os casos de acidentes do CIATox/SAMU-DF também deveriam ter sido notificados no SINAN. Essa falta de um banco de dados unificado e sólido limita a avaliação da real extensão do problema de envenenamento no Brasil.

Por fim, a real magnitude dos dados epidemiológicos ainda é inconsistente no Brasil, pois há subnotificações e omissões de dados no preenchimento de muitos campos da ficha de investigação6, como foi constatado no estudo.

Contribuições dos autores

CTT foi responsável pela concepção, análise formal dos dados, redação – esboço original e revisão & edição do texto. AFAM foi responsável pela concepção. CTT e AFAM participaram da investigação, da captação dos recursos e da redação – revisão & edição do texto. Todos os autores aprovaram a versão final submetida e assumem responsabilidade pública por todos os aspectos do trabalho.

 

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Recebido em 15 de Dezembro de 2021.
Aceito em 6 de Abril de 2022.

Fonte de financiamento: Nenhuma

Conflitos de interesse: Nenhum


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