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ARTIGO ORIGINAL

Pés de imersão em água morna entre trabalhadores de lavagem de automóveis

Warm-water immersion feet among car wash workers

Maria Laura Chacra Zani1; Rosana Lazzarini2; João Silvestre Silva-Junior1

DOI: 10.5327/Z1679443520170021

RESUMO

INTRODUÇÃO: O quadro clínico de pés de imersão em água morna (PIAM) está relacionado ao contato prolongado com água em temperaturas elevadas. Uma categoria profissional com possibilidade de exposição frequente à umidade é a dos prestadores de serviço de lavagem de automóveis (lava a jato). Não foram encontrados estudos científicos sobre doenças que acometam os trabalhadores dessa área.
OBJETIVO: Avaliar a frequência de quadros de PIAM entre trabalhadores de um lava a jato.
MÉTODOS: O estudo foi realizado em um lava a jato na cidade de Jundiaí (SP), em 2013. Um grupo de 30 trabalhadores foi submetido a anamnese e exame físico dermatológico. Foram realizados testes estatísticos para avaliar associação entre quadros de PIAM e variáveis independentes.
RESULTADOS: Todos os participantes eram do sexo masculino, com idade média de 23 anos, e a maioria (60%) trabalhava na empresa há mais de um ano. Sessenta por cento dos participantes apresentaram lesões compatíveis com PIAM. A faixa etária e o tempo de trabalho estiveram associados ao quadro. Havia exposição frequente e permanente à umidade durante o trabalho, sem uso de vestuário impermeável.
CONCLUSÃO: A maioria dos trabalhadores que fizeram parte da pesquisa tinha diagnóstico de PIAM; os com idade superior a 30 anos e que trabalhavam há menos de 1 ano na função tiveram maior probabilidade de apresentar o quadro clínico por exposição ocupacional à umidade.

Palavras-chave: pé de imersão; umidade; dermatose ocupacional.

ABSTRACT

INTRODUCTION: The diagnosis of warm-water immersion foot (WWIF) is related to prolonged contact with water at high temperatures. Car wash workers are exposed to humidity, but there are not studies about diseases that affect workers in this area.
OBJECTIVE: To evaluate the frequency of WWIF among car wash workers and associated factors.
METHODS: The study was carried out in a car wash service in the city of Jundiaí, in the state of São Paulo, Brazil, in 2013. A group of 30 workers was submitted to an interview and skin medical examination. Statistical tests were performed to evaluate the association between WWIF and independent variables.
RESULTS: All participants were males, average 23 years old, and the majority (60%) have worked in the company for over a year. Sixty percent of the participants presented injuries similar to WWIF. Age and working time were associated with the outcome. There was frequent and permanent exposure to humidity in the working hours, without the use of impermeable clothes.
CONCLUSION: Most of the participants had diagnosis of WWIF; those over 30 years old and who had been working less than 1 year were more likely to have the diagnosis due to occupational exposure to humidity.

Keywords: immersion foot; humidity; dermatitis, occupational.

INTRODUÇÃO

Dermatoses ocupacionais são alterações de mucosas, pele e seus anexos geradas, condicionadas, mantidas ou agravadas por agentes presentes na atividade profissional ou no ambiente de trabalho. As causas diretas de dermatoses ocupacionais são os agentes físicos, químicos e biológicos existentes no meio ambiente. A exposição a tais riscos age sobre o tegumento, desencadeando a dermatose ou mesmo agravando uma doença preexistente1,2.

O contato prolongado com a água é causa de diferentes dermatoses, entre elas os eczemas das mãos entre trabalhadores com atividades úmidas3. Nos membros inferiores, as dermatoses mais comumente relacionadas com essa condição são as micoses superficiais. Entretanto, o contato continuo e exagerado com a água também pode causar um quadro denominado pé de imersão ou pé de trincheira. Trata-se de dermatose resultante da exposição prolongada a agentes físicos como umidade e frio, descrito entre militares durante a 1a Guerra Mundial (1914-1918)4.

Durante a Guerra do Vietnã (1955-1975), foi descrita lesão semelhante, denominada pés de imersão tropical, quando os soldados apresentavam eritema, edema doloroso e aumento da sensibilidade na pele dos pés. O quadro estava relacionado ao contato prolongado com água (>72 horas) em temperaturas elevadas (22–32°C). O exame anatomopatológico demonstrava maceração do estrado córneo, inflamação crônica e vasculite na derme superior5.

Foi caracterizado como pés de imersão em água morna (PIAM), ou warm-water immersion foot (WWIF), o quadro clínico que cursa com dor nas regiões plantares, enrugamento e palidez, decorrentes da hiper-hidratação do estrato córneo5. Tais quadros apresentam no exame anatomopatológico a presença de maceração do estrado córneo, inflamação crônica e vasculite na derme superior5.

O PIAM é uma dermatose pouco descrita na literatura científica. Uma categoria profissional com possibilidade de exposição frequente à umidade é a dos prestadores de serviço de lavagem e tratamento automotivo. Entre 2001 e 2012 houve crescimento superior a 100% na frota de carros no Brasil6. Concomitantemente a esse processo, aumentou a demanda por serviços como o mencionado acima. Entretanto, não são encontrados estudos científicos sobre as doenças que acometem os trabalhadores que atuam nessa área e estão expostos a riscos ocupacionais.

Portanto, este estudo objetivou avaliar a presença e os fatores associados a quadros de PIAM entre trabalhadores de uma empresa de lavagem e tratamento automotivo.

 

MÉTODOS

O estudo analítico de corte transversal foi realizado com um grupo de 30 trabalhadores da área operacional de uma empresa de lavagem e tratamento automotivo na cidade de Jundiaí, no estado de São Paulo, em 2013. Durante a avaliação, os trabalhadores foram entrevistados para o levantamento de informações como idade e tempo de trabalho na função. Também foi realizado exame físico de inspeção da pele em toda a sua extensão, com descrição e localização de possíveis lesões dermatológicas. Não foram feitos exames complementares.

Para avaliar as condições de trabalho, descreveu-se qualitativamente a exposição dos funcionários à umidade e o estado das vestimentas e calçados durante a jornada de trabalho. A temperatura ambiental foi medida com um termo-higrômetro HT-208 digital e, para verificar a temperatura da água, utilizou-se um termômetro do tipo Oregon Scientific THWR800.

Foram calculados os testes estatísticos do χ2 e exato de Fisher para avaliar se entre os participantes que apresentavam lesões dermatológicas por exposição excessiva à umidade/ água havia diferença estatisticamente significante conforme a faixa etária e o tempo de trabalho na empresa. Considerou-se a significância estatística o valor p menor que 0,05.

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (CAEE 09166912.2.0000.5479/2012).

 

RESULTADOS

A empresa realizava serviços de lavagem, lubrificação e polimento de veículos automotores. Os trabalhadores do setor operacional tinham jornada semanal de 44 horas, distribuídas em 6 dias por semana, e havia dois turnos de trabalho, sendo o primeiro das 8h às 16h20 e o segundo das 10h às 18h20, com pausa de uma hora para o almoço. Frequentemente era necessária a realização de horas extras, sendo a média de atendimento de 35 carros por dia de segunda a sexta-feira, e de 60 carros por dia aos finais de semana.

Na rotina de trabalho, os funcionários iniciavam o ciclo com a aspiração do carro com uso de ar comprimido por meio de um equipamento aspirador profissional. Em seguida, procediam à lavagem, que podia ser simples (apenas externa) ou completa (interna e externa). A secagem subsequente era realizada utilizando apenas um pano limpo. Na etapa final de acabamento, o veículo recebia aplicação de massa de polir cremosa, xampu siliconado, desengraxante, cera automotiva, limpador instantâneo, revitalizador e hidratante para bancos de couro, silicone líquido aromatizado e desodorizante automotivo.

A empresa fornecia roupas/uniformes inadequados, uma vez que eram de tecido de algodão comum e não impermeáveis. Além disso, as vestimentas apresentavam estado de conservação e limpeza ruins; em sua maioria estavam sujas, rasgadas e constantemente molhadas. Os sapatos também não eram impermeáveis e estavam em péssimo estado de conservação. Muitas vezes ficavam encharcados de água, tanto que alguns funcionários preferiam usar o próprio tênis para trabalhar. Em virtude de tais condições, mesmo quando não estavam executando serviço de lavagem automotiva, os funcionários permaneciam expostos à umidade durante toda a jornada de trabalho, inclusive no intervalo para o almoço.

A lavagem possibilitava exposição frequente à umidade, variações de temperatura ambiente (trabalho a céu aberto) e radiação não ionizante solar. Foi realizada medição da temperatura efetiva ambiental e da água utilizada na lavagem dos carros, e o resultado para ambas foi de 25°C.

Todos os 30 funcionários que participaram da pesquisa eram do sexo masculino, com idade entre 17 e 53 anos, sendo a média de 23 (desvio-padrão+10,0). Do total, 40% trabalhavam na empresa há menos de 1 ano.

Em resultado ao exame físico, 18 trabalhadores (60%) apresentaram lesões em um ou nos dois pés, caracterizadas por edema, maceração, fissuras e palidez cutânea (Figuras 1 a 4). As alterações eram mais frequentes na região plantar (89%) do que na palmar (11%). Alguns trabalhadores relatavam dores, e era possível sentir odor fétido provindo da região, o que indicava sinais de infecção secundária.

 


Figura 1. Palidez, enrugamento e edema de pododáctilos em região plantar no paciente 1.

 

 


Figura 2. Edema com maceração e fissuras em região plantar no paciente 2.

 

 


Figura 3. Palidez, edema e enrugamento em borda medial do pé no paciente 3.

 

 


Figura 4. Palidez, maceração, fissuras e edema do primeiro pododáctilo no paciente 4.

 

A faixa etária e o tempo de trabalho foram as variáveis que apresentaram diferença estatisticamente significante, ou seja, os trabalhadores de faixa etária igual ou superior a 30 anos e os que estavam na função há menos de 1 ano registraram maior chance de serem portadores do quadro dermatológico (Tabela 1).

 

 

DISCUSSÃO

O trabalho com exposição à umidade é reconhecido como aquele que envolve a frequente imersão das mãos em água, a lavagem frequente ou intensa das mãos ou o uso frequente de luvas impermeáveis. Os profissionais submetidos a tais exposições são acometidos de eczema e dermatite de contato nas mãos3. Neste estudo, foram encontradas dermatoses em pés de trabalhadores expostos à umidade. Os quadros se caracterizavam por lesões e edemas de pés, enrugamento da face plantar e presença de fissuras locais, similares ao diagnóstico de pés de imersão, para os quais a umidade é um importante fator desencadeante2.

Há características da presença de edema e corrosão decorrentes de exposição prolongada do pé à água utilizada para a lavagem dos carros. Conforme critérios descritos por Allen e Taplin5, os pacientes estudados apresentaram características do trabalho que favorecem tal dermatose, como a exposição prolongada à água (44 horas semanais) em temperatura elevada (entre 22 e 32°C) e com os pés ocluídos pelo uso de calçados. As lesões localizadas nas regiões plantares e a falta de sintomas sistêmicos indicam o diagnóstico de PIAM5.

Constatamos que, apesar de aa literatura científica registrar somente relatos de lesões de pés de imersão causadas por exposição à água em baixa temperatura4,7, em nosso estudo foi registrada a ocorrência de lesões por exposição à água em temperatura ambiente. Um mecanismo comum para o desenvolvimento desse quadro é o uso contínuo de meias e/ou sapatos molhados7. A água em temperatura ambiente se acumulava nos calçados não impermeáveis dos trabalhadores durante toda a jornada, caracterizando uma exposição intensa, frequente e permanente. Além disso, os microtraumas causados pelo atrito dos pés ao caminhar aumentavam a possibilidade de piora das lesões, propiciando a ocorrência de infecções secundárias.

No grupo estudado, observou-se que a idade está associada ao quadro. A literatura sobre causas indiretas ou fatores predisponentes para dermatoses ocupacionais indica que tais lesões são mais comuns em trabalhadores jovens por serem menos experientes e pelo fato de a camada córnea ainda não estar espessada1. Se levarmos em consideração que também houve associação com o tempo de trabalho, é coerente relacionar que a exposição permanente e crônica à umidade se sobrepõe à questão da idade no mecanismo patogênico.

Os efeitos danosos pela imersão ou contato prolongado com a água têm sido motivo de vigilância entre diversas categorias profissionais3,8. Entretanto, a possível percepção de que as lesões compatíveis com mãos ou pés de imersão fazem parte do cotidiano de quem trabalha muitas horas em contato com a água pode minimizar as notificações e indicações de medidas de proteção. Portanto, é necessário investir em atividades educativas, a fim de divulgar os efeitos da exposição excessiva à umidade sobre a saúde dos trabalhadores.

Os casos relatados no presente estudo demonstram a negligência quanto às regulações legais do país. O anexo 10 da Norma Regulamentadora 15 do Ministério do Trabalho do Brasil indica que as atividades ou operações executadas com umidade excessiva, capazes de produzir danos à saúde dos trabalhadores, são consideradas insalubres9. Portanto, medidas de reconhecimento do risco, avaliação de exposição e indicativos de proteção devem ser implantados para minimizar o desenvolvimento de lesões dermatológicas entre os trabalhadores expostos.

Apesar dos resultados, este trabalho apresenta algumas limitações. Em relação à seleção, participaram todos os trabalhadores vinculados à empresa objeto de estudo. Tentou-se minimizar o viés de aferição com o estabelecimento de critérios objetivos para definir o seu desfecho, no caso o diagnóstico de dermatose ocupacional. Diversas variáveis de confusão ou mediadoras não foram avaliadas, o que limita a compreensão do processo de adoecimento. Todavia, a presença de casos no grupo e o possível nexo causal são achados importantes para considerar a necessidade de medidas preventivas nessa situação de trabalho.

 

CONCLUSÃO

Entre os trabalhadores dessa empresa de lavagem e tratamento automotivo foram verificados casos de dermatoses compatíveis com pés de imersão. Há associação estatística dos quadros dermatológicos com a idade e o tempo de atuação na função, e cabe considerar o nexo causal entre as lesões e a exposição crônica à umidade no ambiente ocupacional.

A difusão do conhecimento sobre essa dermatose pode contribuir para o seu melhor reconhecimento pelos médicos envolvidos, assim como para o estímulo à compreensão por parte dos trabalhadores de que se trata de uma doença ocupacional. Assim, ao se depararem com situações de risco para casos semelhantes, os profissionais de saúde e segurança devem prezar por medidas preventivas a fim de promover a qualidade de vida no trabalho.

 

REFERÊNCIAS

1. Alchorne AOA, Alchorne MMA, Silva MM. Dermatoses Ocupacionais. Anais Bras Dermatol. 2010;85(2):137-47. 2. Ali SA. Dermatoses Ocupacionais. São Paulo: Fundacentro; 2010.

3. Antonov D, Scliemann S, Elsner P, John SM. Wet work and occlusion. In: Rustemeyer T, Elsner P, John SM, Maibach HI. Kanerva's Occupational Dermatology. 2. edição. Berlim: Springer Berlin Heidelberg; 2012. p. 839-46.

4. Olson Z, Kman N. Immersion foot: a case report. J Emerg Med. 2015;49(2):e45-8.

5. Allen AM, Taplin D. Tropical immersion foot. The Lancet. 1973;24(7839):1185-9.

6. Observatório das Metrópoles. Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia. Evolução da frota de automóveis e motos no Brasil 2001-2012 (Relatório 2013). Rio de Janeiro: INCT Observatório das Metrópoles; 2013 [cited 2017 Jan 08]. Available from: http://www. observatoriodasmetropoles.net/download/auto_motos2013.pdf

7. Cappaert TA, Stone JA, Castellani JW, Krause BA, Smith D, Stephens BA. National Athletic Trainers' Association position statement: environmental cold injuries. J Athl Train. 2008 Oct-Dec;43(6):640-58.

8. Chow S, Westfried M, Lynfield Y. Immersion Foot: An Occupational Disease. Cutis. 1980;25(6):662.

9. Brasil. Ministério do Trabalho e Emprego. Anexo 10: Umidade. Norma Regulamentadora 15: Atividades e operações insalubres. Portaria MTE n.º 3.214, de 8 de junho de 1978. 1978 [cited 2017 Jan 08]. Available from: http://trabalho.gov.br/images/Documentos/ SST/NR/NR15/NR15-ANEXO10.pdf

Recebido em 18 de Abril de 2017.
Aceito em 29 de Junho de 2017.

Trabalho realizado no Curso de Especialização em Medicina do Trabalho da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo – São Paulo (SP), Brasil.

Fonte de financiamento: nenhuma


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