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ARTIGO ORIGINAL

Liga Acadêmica de Medicina do Trabalho: a experiência da Universidade Federal do Paraná

Academic League for Occupational Medicine: the experience at Universidade Federal do Paraná

Edevar Daniel; Paulo Roberto Zétola; Caroline Akemi Sue; Celso Schmitt Amorim

DOI: 10.5327/Z1679443520180087

RESUMO

CONTEXTO: As ligas acadêmicas exercem papel fundamental nas universidades com atividades extracurriculares que expandem o conhecimento dos alunos, além de promover o convívio com profissionais que atuam rotineiramente na área abordada, proporcionando o aprendizado e experiências importantes para a consolidação profissional.
OBJETIVOS: Descrever as atividades desenvolvidas pela Liga Acadêmica de Medicina do Trabalho da Universidade Federal do Paraná no ano de 2016.
MÉTODOS: Trata-se de um estudo retrospectivo, tipo relato de experiência vivenciada pelos membros da liga no ano de 2016.
RESULTADOS: A liga desenvolveu, durante 2016, reuniões semanais, com um encontro mensal onde era convidado um palestrante para discutir um tema pré-agendado, com participação dos alunos no Movimento Abril Verde e na Feira e Seminário de Saúde, Segurança do Trabalho e Emergência (PREVENSUL), apresentação de trabalhos científicos em eventos de extensão, seminários e congressos.
CONCLUSÕES: As atividades proporcionaram aos alunos aprendizados teóricos e práticos sobre a medicina do trabalho, demonstrando sua relevância social e acadêmica, pactuação com a formação médica e compromisso com a essência da extensão universitária.

Palavras-chave: ensino; educação médica; medicina do trabalho.

ABSTRACT

BACKGROUND: Academic leagues play an essential role at universities. They include extracurricular activities that broaden the scope of the students’ knowledge and favor their contact with professionals active in the target field, thus affording opportunities for learning and activities relevant for professional consolidation.
Objectives: To describe the activities developed by the Academic League for Occupational Medicine, Federal University of Paraná, in 2016.
METHODS: The present was a retrospective, experience-report study on the experiences of League members in 2016.
RESULTS: During 2016, the League held weekly meetings, and also one monthly meeting with a guest lecturer to discuss a predefined subject. The students participated in the Green April Movement and the Health and Safety at Work and Emergency Fair and Seminar (PREVENSUL) and presented scientific papers at outreach events, seminars and conferences.
CONCLUSIONS: The activities afforded the students opportunities for theoretical and practical learning on occupational medicine, which evidenced its social and academic relevance, agreement with medical education and commitment to the essence of university outreach.

Keywords: teaching; education, medical; occupational medicine.

INTRODUÇÃO

Na sociedade atual, o trabalho é um fator de integração social e relevante na vida das pessoas. O trabalho, assim como as condições em que é realizado, pode ser considerado um fator de realização pessoal, mas também fonte de adoecimento1,2. Assim, a saúde e a segurança do trabalho são quesitos indispensáveis quando se tem como objetivo um ambiente de trabalho saudável e produtivo. Em um mundo em que a cada dia são crescentes as descobertas e inovações tecnológicas, a disseminação de informações sobre a prevenção de acidentes e doenças do trabalho se torna decisiva para a qualidade de vida no trabalho.

A medicina do trabalho surgiu na Inglaterra na primeira metade do século XIX, com a Revolução Industrial. A experiência expandiu-se para outros países e, em 1959, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) aprovou a Recomendação nº 112, com o nome Serviços de Medicina do Trabalho nos lugares de emprego3. Do conceito de serviço de medicina do trabalho formulado pela OIT podem ser extraídas algumas características:

• constitui fundamentalmente uma atividade médica e é praticada no local de trabalho;

• cuida da adaptação física e mental dos trabalhadores, contribuindo para a sua colocação em lugares e tarefas correspondentes às suas aptidões, além de adequar o trabalho ao trabalhador através de seleções de candidatos ao emprego e atividades educativas;

• contribui para o estabelecimento e a manutenção do nível mais elevado possível de bem-estar físico e mental dos trabalhadores.

A formação dos profissionais da saúde deve visar à aquisição de conhecimentos, atitudes e práticas de modo a capacitar o futuro profissional a promover a saúde, prevenir doenças e lidar com as condições mais prevalentes no seu meio. A Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Medicina de 20144 recomendam a integração entre o ensino, a pesquisa e a extensão para atingir esses objetivos. As atividades didáticas devem estimular a criatividade, assim como a iniciativa para a autoaprendizagem e o espírito crítico e preparar o profissional para as constantes transformações e avanços do conhecimento no mundo moderno.

As ligas acadêmicas são entidades constituídas por estudantes, com a participação de profissionais já graduados, tanto em Medicina como em outras áreas do conhecimento, em que se busca aprofundar temas em uma determinada área da Medicina. Para tanto, as atividades das ligas acadêmicas se orientam segundo os princípios do tripé universitário de ensino, pesquisa e extensão. Esse modelo de ação social e complementação acadêmica nasceu no Brasil, em 1918, com a criação da Liga de Combate à Sífilis da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, na qual os estudantes, utilizando os conhecimentos aprendidos ao longo do curso, montavam postos de profilaxia e tratamento gratuitos à população5.

As ligas têm trazido importante crescimento e amadurecimento acadêmico, sendo supervisionadas por preceptores, professores ou profissionais que estão vinculados a instituições de ensino superior ou a hospitais de ensino6,7. Participando de projetos de extensão, o aluno identifica e entende o elo ensino-pesquisa-extensão, o que contribui para compreender sua vida profissional, visto que o envolvimento colabora para o exercício futuro da profissão.

O aprimoramento do ensino médico e sua adequação às necessidades da sociedade constituem um desafio permanente para as escolas médicas. Desse modo, a Liga Acadêmica de Medicina do Trabalho (LIAMT) da Universidade Federal do Paraná (UFPR) foi criada em 2016 com o objetivo aprofundar o conhecimento obtido na graduação, configurar espaços em que o aluno possa atuar junto à comunidade como agente de promoção à saúde e transformação social, ampliando o objeto da prática médica, reconhecendo as pessoas em seu todo como atores do processo saúde-doença, permitindo ao aluno não só o desenvolvimento científico, mas também o exercício da cidadania.

O presente estudo teve como objetivo descrever as atividades desenvolvidas pelos alunos do curso de Medicina da UFPR, através da LIAMT no ano de 2016.

 

MÉTODOS

Trata-se de um estudo prospectivo, tipo relato de experiência, referente às experiências vivenciadas pelos membros da LIAMT/UFPR, no ano de 2016, na cidade de Curitiba, Paraná, organizada pelos estudantes do curso de Medicina da UFPR.

Em 2015, os alunos monitores da disciplina de saúde e trabalho iniciaram uma discussão sobre o papel da medicina do trabalho na formação dos médicos generalistas e a importância da criação de uma liga acadêmica em medicina do trabalho para aprofundar os conhecimentos e ampliar o contato da especialidade com os estudantes. Em seguida, iniciaram-se reuniões para discussão de qual seria o objetivo da liga, o público-alvo, a metodologia e como seriam tais atividades. O grupo que participava das reuniões era composto por dois orientadores (docentes da UFPR) e 4 discentes, que posteriormente constituíram a diretoria da LIAMT (nas funções de presidente, vice-presidente, secretário-geral e diretor científico/extensão). Os cargos foram preenchidos de forma democrática por meio de votação direta entre todos os fundadores, não havendo diferença entre peso dos discentes e docentes. A elaboração do estatuto foi baseada em outros estatutos de ligas acadêmicas, adaptando para os objetivos da liga. A LIAMT manteve seu regimento com base nas diretrizes da Associação Brasileira de Ligas Acadêmicas de Medicina (ABLAM) para, além de estar apta a associar-se, ter um modelo de normatização de uma liga acadêmica, evitando assim que a LIAMT fosse apenas um grupo de estudantes sem supervisão, com demandas pessoais afins que se especializavam em medicina do trabalho5.

Na época, após busca ativa na internet, foram encontradas apenas duas ligas em atividade no Brasil, uma no Amazonas (Liga Amazonense de Medicina do Trabalho e Perícias Médicas — LAMT) e outra em São Paulo (Liga Acadêmica de Medicina do Trabalho da Faculdade de Medicina da UNINOVE — LIMT).

Quanto aos aspectos éticos, por se tratar de dados secundários e de domínio público, não houve necessidade de submissão ao Comitê de Ética e Pesquisa, com dispensa de apreciação segundo os padrões éticos da Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde e das diretrizes éticas internacionais.

 

RESULTADOS

As atividades da liga iniciaram no primeiro semestre de 2016, através de reuniões no Departamento de Saúde Comunitária do Setor de Saúde da UFPR. As aulas são abertas a docentes e alunos independentemente do período da graduação, bem como de outras faculdades de Medicina da capital do Paraná. A programação definida foi a de reuniões semanais com a diretoria da liga e um encontro mensal com os alunos participantes. Os temas referentes à saúde do trabalhador e o planejamento de como os conhecimentos poderiam ser empregados em forma de ações na comunidade foram determinados como o objetivo da liga. As atividades ocorriam através de palestras, aulas ou debates para discussão de um tema pré-agendado por um palestrante convidado.

A aula inaugural da LIAMT ocorreu no dia 04 de abril de 2016 e contou com a participação, inicialmente, de mais de 25 alunos. O tema abordado foi “Campo de atuação da Medicina do Trabalho”, trazendo a discussão do que é ser médico do trabalho, como se obtém o título e qual o domínio de ação e as competências do profissional da área. As aulas seguintes da liga possibilitaram a abordagem de diversos temas em que os alunos puderam complementar o conhecimento da graduação e, para aqueles graduandos mais novos, um primeiro contato com a área. As aulas eram ministradas por médicos do trabalho convidados e professores da universidade. Durante as oito aulas ministradas no ano de 2016 foram abordados diversos temas, como a residência em medicina do trabalho, a importância do médico do trabalho na sociedade atual e a saúde mental dos trabalhadores, tendo sempre como enfoque a saúde do trabalhador. Outro tema de grande relevância e com um feedback positivo dos alunos foram os acidentes de trabalho e o preenchimento correto da Ficha de Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT), assunto abordado através de atividade teórico-prática com casos clínicos. Os aprendizados dessas aulas foram analisados e debatidos de forma a planejar como os conhecimentos poderiam ser empregados na comunidade.

Com o apoio da Associação Paranaense de Medicina do Trabalho (APAMT), os alunos participaram do Movimento Abril Verde, que ocorreu no dia 30 de abril na Praça Santos Andrade, em frente ao Prédio Histórico da UFPR. Foi realizada uma caminhada pelo calçadão da Rua XV de Novembro até a Boca Maldita, em Curitiba, utilizando faixas, cartazes, folders e cartilhas, além de pequenas palestras à população, chamando a atenção do público para a necessidade de se evitar os fatores de risco no ambiente de trabalho e alertar para a importância de práticas que reduzam o número de mortes, acidentes e doenças ocupacionais. Houve contato direto com a comunidade, possibilitando a troca de informações e de experiência da realidade dos trabalhadores, bem como a oportunidade de aplicação dos conhecimentos adquiridos na liga e na graduação à comunidade.

Sobre a participação dos alunos na 19ª PREVENSUL (Feira e Seminário de Saúde, Segurança do Trabalho e Emergência), o evento foi realizado em Curitiba, Paraná, na Expo Unimed, entre os dias 10 e 12 de agosto. Em seus três dias de evento houve uma extensa programação de cursos, seminários e workshops voltados para a capacitação técnica e profissional do setor. A apresentação do projeto de extensão “A Prevenção e Promoção da Saúde e Segurança do Trabalho, uma Ação Transformadora” ocorreu na 8ª Semana Integrada de Ensino, Pesquisa e Extensão da UFPR, em outubro de 2016. 

Também houve participação na XXXI Jornada Paranaense de Saúde Ocupacional, no IV Congresso Paranaense de Medicina do Trabalho e no II Encontro Ibero-americano da Saúde do Trabalhador, ocorrido de 24 a 26 novembro de 2016 em Curitiba, com apresentação de três trabalhos em formato de pôster: “Liga Acadêmica de Medicina do Trabalho (LIAMT) da Universidade Federal do Paraná: Um Projeto De Extensão Universitário”,“Absenteísmo: Causas, Consequências e Medidas Preventivas” e “A Prevenção e Promoção da Saúde e Segurança do Trabalho, uma Ação Transformadora”.

 

DISCUSSÃO

A liga acadêmica tem como objetivo criar um espaço para discussão, reflexão, análise crítica e capacitação dos estudantes de Medicina sobre a importância da medicina do trabalho. Além disso, busca complementar o aprendizado dos acadêmicos de Medicina, bem como ampliar a participação dos estudantes junto à sociedade em eventos de prevenção e promoção da saúde.

A LIAMT proporcionou aos seus membros várias atividades na área de medicina do trabalho, como aulas expositivas, reuniões, apresentação de trabalhos em simpósios e congressos. Fica claro que a participação na liga contribui para o processo de aprendizado, além da convivência com profissionais que atuam rotineiramente na área, o que proporciona aprendizado e experiências importantes para a consolidação profissional.

Nesse sentido, então, as aulas ministradas nas atividades das ligas acadêmicas e seus conteúdos não devem ser encarados como corretivos para as eventuais falhas do currículo formal, no entanto, devem complementar as atividades desenvolvidas dentro da universidade, servindo de ponto de partida para a constante rediscussão e readequação do currículo devido à necessidade de atualização8-10.

A relevância da liga está agregada ao fato de promover a aproximação dos estudantes à concepção base de uma universidade: ensino, pesquisa e extensão. Principalmente a extensão, área com a qual os alunos geralmente possuem pouco contato. A liga proporcionou o convívio direto dos alunos com a comunidade, através de palestras e eventos, nos quais os alunos puderam colocar em prática os conhecimentos adquiridos na liga e na graduação, bem como tiveram a oportunidade de trocar informações com os trabalhadores.

As atividades da liga proporcionam aos alunos o contato com temas de seu interesse, em um ambiente construído e conduzido por eles próprios. Isso torna possível uma grande aquisição de aprendizado e experiência, desenvolvimento de raciocínio clínico-científico, ampliação do conhecimento sobre a medicina do trabalho, ao mesmo tempo em que se promove uma maior interação com a comunidade.

 

CONCLUSÃO

A liga, nesse período, conseguiu inserir o estudante na temática da medicina do trabalho, proporcionando maior conhecimento e interesse por essa área de atuação, por meio do aprendizado e aquisição de experiência sob diversos aspectos, com destaque para atividades de extensão. 

Representa, portanto, uma oportunidade singular para o desenvolvimento de atividades extracurriculares, direcionadas para o conhecimento de seus membros, pesquisa científica e promoção de saúde junto à comunidade, que quando corretamente direcionada colabora positivamente na formação de seus participantes.

Por fim, as ligas acadêmicas indiscutivelmente são benéficas tanto para o aluno quanto para a sociedade em geral, pois potencializam a prevalência da disseminação do conhecimento adquirido pelo acadêmico durante sua vida profissional, proporcionam aprendizados teóricos e práticos, demonstrando sua relevância social e acadêmica, pactuação com a formação médica e compromisso com a essência da extensão universitária.

 

REFERÊNCIAS

1. De Lucca SR, Campos CR. A Medicina do Trabalho no mundo contemporâneo: o perfil dos médicos do trabalho, desafios e competências. Rev Bras Med Trab. 2011;9(1):45-7.

2. Silva JHS, Chiochetta GL, Oliveira LFT, Sousa VO. Implantação de uma Liga Acadêmica de Anatomia: Desafios e Conquistas. Rev Bras Educ Med. 2015;39(2):310-5. http://dx.doi.org/10.1590/1981-52712015v39n2e03012014

3. Organização Internacional do Trabalho. Recomendación sobre los servidos de Medicina del Trabajo en los lugares de empleo (Reconiendación nº 112 de la OIT adaptada en 24 de junio de 1959). Convênios y recomendationes (1919-1966). Genebra: OIT; 1966. p.1054-8.

4. Brasil. Resolução CNE/CES nº 3, de 20 de junho 2014. Institui Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Medicina [Internet]. Brasil, 2014 [citado em 20 abr. 2017]. Disponível em: http://www.fmb.unesp.br/Home/Graduacao/resolucao-dcn-2014.pdf

5. Associação Brasileira de Ligas Acadêmicas de Medicina. Diretrizes nacionais em ligas acadêmicas de medicina. São Paulo; 2011.

6. Monteiro LLF, Cunha MS, Oliveira WL, Bandeira NG, Menezes JV. Ligas acadêmicas: o que há de positivo? Experiência de implantação da Liga Baiana de Cirurgia Plástica. Rev Bras Cir Plást. 2008;23(3):158-61.

7. Rocha LAC. Projetos interdisciplinares de extensão universitária: ações transformadoras. Mogi das Cruzes: Universidade Braz Cubas; 2007.

8. Pêgo-Fernandes PM, Mariani AW. O ensino médico além da graduação: ligas acadêmicas. Diagn Tratamento. 2011;16(2):50-1.

9. Ferreira DAV, Aranha RN, Souza MHFO. Ligas Acadêmicas: uma proposta discente para ensino, pesquisa e extensão. Interagir: pensando a extensão. 2011;(16):47-51.

10. Hamamoto Filho PT, Villa-Bôas PJF, Corrêa FG, Muñoz GOC, Zaba M, Venditti VC, et al. Normatização da abertura de ligas acadêmicas: a experiência da Faculdade de Medicina de Botucatu. Rev Bras Educ Med. 2010;34(1):160-7. http://dx.doi.org/10.1590/S0100-55022010000100019

Recebido em 5 de Setembro de 2017.
Aceito em 15 de Março de 2018.

Fonte de financiamento: nenhuma


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