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ARTIGO ORIGINAL

Fatores psicossociais e o trabalho com o dependente químico na concepção da enfermagem

Nursing professionals' perception of psychosocial factors and work with substance-dependent patients

Márcia Astrês Fernandes; Denilma Carvalho Sousa; Thays Rezende Lima; Ana Lívia Castelo Branco de Olveira; Hellany Karolliny Pinho Ribeiro

DOI: 10.5327/Z1679443520180252

RESUMO

INTRODUÇÃO: Os fatores psicossociais se constituem, por um lado, em interações entre o conteúdo do trabalho e as condições ambientais e organizacionais e, por outro, nas competências e necessidades dos trabalhadores. Quando se trata da assistência ao usuário dependente químico ou com adoecimento mental, o serviço é maximizado pela necessidade de cuidado constante.
OBJETIVO: Analisar a concepção do trabalhador de enfermagem que atua na assistência aos usuários de álcool e outras drogas acerca dos fatores psicossociais que interferem na sua saúde mental.
MÉTODO: Trata-se de um estudo exploratório, descritivo, de abordagem qualitativa, no qual participaram 22 profissionais da saúde integrantes da equipe de enfermagem. Os dados foram obtidos por meio de entrevista, processados no software IRAMUTEQ e analisados pela Classificação Hierárquica Descendente (CHD).
RESULTADOS: Em geral, os participantes percebem os fatores psicossociais que influenciam seu trabalho e, sendo estes desagradáveis, representam riscos para a saúde e sobrecarga mental. As mulheres reportaram maiores exigências laborais e mais sintomas de estresse. Em relação à saúde física e à psicológica, a percepção dos fatores psicossociais aumenta ao longo dos anos na organização, e a maioria referiu a existência, principalmente, de estresse ocupacional decorrente de carga e ritmo de trabalho.
CONCLUSÃO: A exposição ocupacional a fatores psicossociais desfavoráveis no trabalho esteve presente no relato da maioria dos trabalhadores da enfermagem. Contudo, a correta avaliação desses fatores nas situações de trabalho apresenta dificuldades conceituais e, provavelmente, nem sempre há o seu reconhecimento.

Palavras-chave: enfermagem; saúde do trabalhador; saúde mental; drogas de abuso.

ABSTRACT

BACKGROUND: Psychosocial factors represent interactions between the content of work and environmental and organizational conditions, and reflect on the competencies and needs of workers. In the case of substance-dependent or mentally ill patients, the workload is maximized due to the need to provide constant care.
OBJECTIVE: To analyze the perception of nursing professionals who provide care to users of alcohol and other drugs in regard to the psychosocial factors which interfere with their mental health.
METHOD: Exploratory and descriptive study with qualitative approach conducted with 22 nursing professionals. Data were collected in interviews, processed with software IRAMUTEQ, and analyzed based on the descending hierarchical classification technique.
RESULTS: In general the participants were aware of the psychosocial factors which interfere with their work, and being unpleasant, they represent a risk to health and mental overload. The women reported more job demands and stress symptoms. The perceived influence of psychosocial factors on physical and mental health increased with the time in the job. Most participants complained of occupational stress derived from the workload and pace of work.
CONCLUSION: Most participants reported occupational exposure to unfavorable psychosocial factors at work. However, accurate analysis of such factors is hindered by conceptual aspects, in addition to the fact they are not always recognized.

Keywords: nursing; occupational health; mental health; street drugs.

INTRODUÇÃO

A saúde mental influencia a qualidade de vida e o bem-estar diário, bem como permite a regulação pessoal e interpessoal. Ademais, as perturbações psíquicas, ou a doença mental, parecem surgir sempre que as exigências do meio e do trabalho ultrapassam as capacidades de adaptação do sujeito. Existem, por isso, fatores que a influenciam. Ainda que um indivíduo manifeste manutenção da saúde mental, as diversas variáveis psicológicas e sociais do trabalho detêm um impacto significativo, podendo mesmo alterar comportamentos e respostas adequadas. Essas variáveis são designadas como fatores psicossociais, isto é, aspectos psicológicos e sociais que coexistem e interferem no ambiente, além de se relacionarem com a saúde e a doença mental1.

Os fatores psicossociais se constituem, por um lado, em interações entre o conteúdo do trabalho e as condições ambientais e organizacionais e, por outro, nas competências e necessidades dos trabalhadores. Nesse sentido, a globalização e o desenvolvimento tecnológico têm refletido em mudanças significativas no conteúdo e na natureza do trabalho, com exigências crescentes de qualificação e disponibilidade, o que repercute negativamente na conciliação entre vida social e profissional2.

Assim, tais fatores contribuem, principalmente, para o esgotamento dos profissionais de enfermagem e estão presentes nas diversas modalidades de atuação. O desgaste mental sofrido pelo profissional é potencializado pela exposição à carga psíquica não pelo convívio com o objeto de trabalho, mas pelas condições de trabalho em que estão inseridos. Quando se trata da assistência ao paciente dependente químico ou com adoecimento mental, o serviço é maximizado pela necessidade de cuidado constante, destacandose o suporte e a devida orientação para realizar a atividade, pois, como o trabalho é sobrecarregado, o cuidador, não raramente, também adoece3,4.

Diante disso, a sobrecarga psíquica está relacionada à imprevisibilidade do quadro clínico dos pacientes sob os cuidados da equipe, já que estes, apesar da aparente estabilidade, podem, a qualquer momento, apresentar um quadro de agitação psicomotora com potencial para evoluir para agressões. Torna-se indispensável o monitoramento da saúde do trabalhador para reconhecer e mudar a realidade da enfermagem em saúde mental, uma vez que esse acompanhamento possibilita a construção de indicadores que permitem a identificação das cargas de trabalho envolvidas no processo de adoecimento e a caracterização do perfil de morbidade do trabalhador5,6.

Ao conhecer as condições de trabalho oferecidas e os estímulos estressores ou causadores de desgaste (físico ou psíquico), é possível direcionar ações em saúde para o combate a eles, assim como a necessidade de mobilizar a equipe de enfermagem na identificação dos problemas em seu ambiente de trabalho e para aumentar as sugestões de como eles podem executar suas tarefas por meio das demandas geradas na prática laboral7.

Nessa perspectiva, o estudo apresenta como objetivo analisar a concepção do trabalhador de enfermagem que atua na assistência aos usuários de álcool e outras drogas acerca dos fatores psicossociais que interferem na sua saúde mental.

 

MÉTODO

Trata-se de estudo exploratório, descritivo, de abordagem qualitativa acerca da concepção do trabalhador de enfermagem que atua na assistência ao usuário de substâncias psicoativas sobre os fatores psicossociais que interferem na sua saúde mental. A pesquisa qualitativa, amplamente narrativa, firma-se, fundamentalmente, em dados baseados na linguagem e no comportamento — para esse tipo de pesquisa, cálculos numéricos e procedimentos estatísticos não têm relevância significativa8. Foi realizado no hospital de referência no atendimento a dependentes químicos que compreende um dos componentes da Rede de Atenção Psicossocial no estado do Piauí.

Participaram do estudo 22 profissionais da enfermagem (enfermeiros, técnicos e auxiliares) que atuam na assistência, excluindo-se aqueles que trabalhavam em outra função no hospital e que não prestavam atendimento direto aos usuários. A quantidade de participantes foi definida por saturação de dados após a avaliação das pesquisadoras, por meio da técnica de tratamento de dados9, e foram denominados E1, E2, E3, [...], E22, a fim de manter o anonimato.

A coleta de dados ocorreu no período de fevereiro a maio de 2016, mediante entrevista individual com os profissionais da equipe de enfermagem, conduzida por um roteiro constituído por quatro aspectos: características sociodemográficas do participante; variáveis comportamentais; características do trabalho, incluindo os aspectos psicológicos que o influenciam; e condições de saúde e trabalho do indivíduo. A entrevista foi realizada no hospital em momento e ambiente de escolha do entrevistado que fosse propício ao diálogo.

As entrevistas foram gravadas em um aparelho gravador de áudio e transcritas na íntegra. Para apoiar o exame dos dados desta pesquisa, foi utilizado o software Interface de R pour les Analyses Multidimensionnelles de Textes et de Questionnaires (IRAMUTEQ). Esse software viabiliza cinco tipos de análise: estatísticas textuais clássicas, pesquisa de especificidades de grupos, classificação hierárquica descendente, análises de similitude e nuvem de palavras. Assim, organiza a distribuição do vocabulário de forma facilmente compreensível e visualmente clara, tornando possível integrar níveis quantitativos e qualitativos na investigação, o que traz maior objetividade e avanços às interpretações dos dados10.

Ressalta-se que o uso do software não é um método de análise de dados, mas uma ferramenta para processá-los, portanto não conclui essa análise, já que a interpretação é essencial e de responsabilidade do pesquisador11. Assim, para o processamento de dados, utilizou-se a Classificação Hierárquica Descendente (CHD), ou seja, a relação entre as classes semânticas a partir dos depoimentos dos participantes. A inclusão dos elementos em classes tem como critério a frequência maior que o dobro da média de ocorrências no corpus e a associação com a classe determinada pelo valor de χ2 igual ou superior a 3,84 e significância 95%9. Cada entrevista caracterizou um texto, e o conjunto desses textos constituiu o corpus de análise desta pesquisa. O método ainda permite uma classificação definitiva, ilustrada por um dendograma.

Após a análise do software, procedeu-se com a identificação e análise dos domínios textuais e interpretação dos significados, nomeando-as com seus respectivos sentidos em categorias:

• ampliação da assistência multiprofissional como recurso para o tratamento de dependentes químicos;

• precariedade de recursos e condições de trabalho seguro;

• influência das condições de trabalho no exercício da assistência;

• necessidade de recursos e qualificação do trabalhador de enfermagem para a assistência especializada;

• dificuldades da equipe de enfermagem com a gestão e as condições de trabalho.

A pesquisa obedeceu aos critérios éticos e legais da Resolução nº 466/12 e teve aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Piauí, com o parecer de nº 1.132.021, em 30 de junho de 2015.

 

RESULTADOS

A totalidade de trabalhadores de enfermagem do serviço consistia em 30 profissionais, dos quais 22 aceitaram participar, sendo 7 (31,82%) enfermeiros, 14 (63,64%) técnicos de enfermagem e 1 (4,54%) auxiliar de enfermagem. A idade variou entre 27 e 63 anos. Quanto ao gênero, 19 (86,36%) entrevistados eram do sexo feminino, representando a maioria. Em relação à situação conjugal, a metade dos profissionais declarou-se casada (50%). Nenhum dos participantes da amostra fazia uso de tabaco, entretanto 6 (27,27%) referiram fazer uso de álcool de maneira social, menos de uma vez por semana. A prática de atividades fazia parte da rotina de 12 (54,54%) profissionais (Tabela 1).

 

 

A unidade hospitalar é composta de um pronto-socorro de pequena complexidade e de setor de internação. No perfil de atendimento está incluída a assistência ao indivíduo com transtorno relacionado ao uso de substâncias. Referente ao setor do trabalho realizado, 10 (45,45%) profissionais que compuseram a amostra do estudo atuam no posto de internação, 7 (31,82%) trabalham exclusivamente na urgência e 5 (22,73%), em ambos os setores (Tabela 2).

 

 

Em relação ao tempo de formação na área de enfermagem, boa parte (45,45%) dos profissionais tem formação entre 10 e 25 anos, o que resulta em uma média de formação de 18,64 anos. Quanto ao tempo de serviço da amostra na instituição de desenvolvimento do estudo, foram encontrados os seguintes resultados: 12 (54,54%) trabalham no hospital há menos de 10 anos, 7 (31,82%), entre 10 e 25 anos de serviço e 3 (13,64%), há mais de 25 anos, o que revela uma média de 11,09 anos. Além disso, a maioria (72,73%) dos integrantes da amostra tinha carga horária semanal de trabalho maior do que 30 horas.

Quando questionados sobre a existência de estresse ocupacional decorrente de carga e ritmo de trabalho, 12 (54,55%) participantes responderam positivamente, listando alguns fatores desencadeadores como: perfil do paciente, falta de capacitação, nível de recaída ao uso de substâncias, sobrecarga de trabalho, escassez de profissionais, ociosidade dos pacientes e seu descumprimento às normas. Outros 10 (45,45%) participantes afirmaram não existir fator estressor no ambiente de trabalho.

A avaliação das condições de trabalho e sua influência na prestação de cuidados, com base nos depoimentos dos profissionais a partir do que vivenciaram em relação à assistência a dependentes químicos, permitiu a identificação de cinco classes (Figura 1).

 


Figura 1. Dendograma das classes representadas nas falas dos trabalhadores de enfermagem que assistem a dependentes químicos, Teresina, 2016 (n=22).

 

A classe 1 diz respeito à ampliação da assistência multiprofissional como recurso para o tratamento de dependentes químicos, com 12 segmentos de texto, representando 16,7% do total de segmentos extraídos do corpus. A 2 está relacionada à precariedade de recursos e condições de trabalho seguro; foi constituída de 13 segmentos de texto (23,3% do corpus) retirados das falas dos sujeitos. Já a 3, referente a 9 segmentos (20%) tirados do corpus, relaciona-se às condições de trabalho como influenciadoras direta sobre a assistência prestada aos usuários. A 4 se refere à qualificação do trabalhador de enfermagem para a assistência especializada. E, por fim, destaca-se a 5, que condiz com as dificuldades da equipe de enfermagem com a gestão e as condições de trabalho — 6 segmentos de textos — e correspondeu a 23,3% do corpus do texto.

 

DISCUSSÃO

Em geral, os participantes percebem que seu cargo está associado a fatores psicossociais que representam riscos para a saúde e sobrecarga mental de trabalho. Esses tipos de fatores conduzem ao estresse no trabalho e a outros problemas ligados à saúde e segurança, compreendendo aspectos do posto de trabalho e de seu entorno, tais como clima ou cultura organizacional, funções laborais, relações interpessoais no trabalho e desenho e conteúdo das tarefas12.

Embora a saúde da população trabalhadora esteja diretamente relacionada às suas condições de emprego e trabalho, os fatores psicossociais ligados a elas não são os mesmos para todos os trabalhadores, mas são determinados por dimensões de natureza estrutural. As diferenças entre gêneros foram evidenciadas na percepção de sintomas de estresse. As mulheres reportaram maiores exigências laborais e níveis mais elevados de sintomas de estresse quando comparadas com os homens em funções e com tarefas análogas13.

Em relação à idade, trabalhadores mais jovens foram identificados como os mais propensos aos fatores psicossociais, no que se refere à exposição a comportamentos violentos relacionados com o trabalho. A idade influencia no desempenho de tarefas com cargas físicas mais pesadas e também no fator de resistência e resiliência aumentada em posto de trabalho em nível psicossocial14.

Quanto à situação conjugal, a maior parte dos trabalhadores da pesquisa é casada. Assim, pode-se configurar um aumento do número de tarefas e responsabilidades. É salutar que esses trabalhadores conciliem o trabalho e a família, de maneira que nenhuma das partes fique prejudicada. Dessa forma, essa situação gera demandas conflitantes entre o trabalho e a vida pessoal, muitas vezes com pouco apoio no lar e, portanto, a interface lar-trabalho configura mais um fator psicossocial presente entre a equipe de enfermagem.

Nenhum dos participantes da amostra fazia uso de tabaco, entretanto 6 (27,27%) referem fazer uso de álcool de maneira social, menos de 1 vez por semana. A prática de atividades fazia parte da rotina de 12 (54,54%) indivíduos. Em relação à saúde física e psicológica, a percepção dos fatores psicossociais aumenta ao longo dos anos na organização, ou seja, os trabalhadores com mais anos de função apresentam maior risco de sofrerem influência dos fatores psicossociais. Quanto à carga horária do período de trabalho semanal, é preciso considerar as necessidades de recuperação física e mental do organismo humano durante o dia, visto que a carga horária de trabalho é um fator psicossocial e pode estar relacionada a riscos psicossociais, como trabalho em turnos noturnos, horários de trabalho não flexíveis, horários imprevisíveis e longas jornadas de trabalho15.

Os profissionais de enfermagem, especialmente os que trabalham nos serviços de saúde mental, estão expostos a condições que provocam estresse, desgaste físico e psíquico que ocasionam, muitas vezes, um processo de adoecimento. O estresse é responsável pela diminuição da qualidade do desempenho profissional, pela diminuição da satisfação e do bem-estar do indivíduo, pela estagnação do desenvolvimento pessoal e pelo absentismo laboral16. Isso pode ser identificado em alguns dos depoimentos transcritos a seguir:

Precária, insegura e insalubre. Além disso, doenças como as psíquicas, porque a maioria dos pacientes termina desenvolvendo transtornos mentais, se associam à abstinência, nos deixando inseguras. Tudo isto me deixa fragilizada (E1).

Há atrito entre os pacientes e o nível de recaída é muito alto; a maioria dos pacientes que saem hoje, voltam em menos de um mês (E5).

O hospital não tem boa infraestrutura, não temos atividades para desenvolver com os internos. A gente tenta fazer o nosso trabalho da melhor forma possível, superando os desafios diários (E8).

Eu vou, mas é assustada, para realizar meus procedimentos. Para acrescentar, eu continuo focando na insegurança, porque nós, técnicos de enfermagem, ficamos lá dentro trancadas sozinhas com os pacientes, todo mundo fica aqui fora, até o segurança (E14).

Ao analisar os aspectos psicológicos que poderiam influenciar o trabalho no hospital, 15 (68,18%) participantes identificaram, entre esses, medo, insegurança, ansiedade, frustração, atrito entre os pacientes e recusa ao tratamento; 7 (31,82%) deles não relacionaram aspectos psicológicos ao trabalho de enfermagem:

Acredito que fatores negativos apareçam para quem não gosta ou não conhece a área, é um público diferenciado, então você tem que compreender, quando tem medo, isso se torna um problema (E14).

Medo. Não me aproximo muito dos pacientes, não me sinto segura de jeito nenhum (E9).

Ansiedade, o medo, ocasionado pelas situações que eu citei [...] os pacientes aqui não estão bem psicologicamente, alguns são criminosos (E11).

Como a internação é para desintoxicação, você não tem a certeza que ele vai melhorar [...] a gente começa um cuidado, que de certa forma é paliativo, você não tem um retorno que ele sai bem, não chega nem a ser redução de danos, o termo seria enxugando gelo (E21).

Para avaliar o nível de satisfação no hospital, foram questionados sobre como se sentiam trabalhando em um hospital de referência no tratamento de dependência química. A satisfação dos profissionais tem sido valorizada por estar relacionada à qualidade da assistência, às relações interpessoais e à maior adequação no uso do serviço17. Adjetivos positivos foram identificados na fala de 13 (59,09%) entrevistados, como gratificante, privilegiado, orgulhoso e educativo; para outros 7 (31,82%), a experiência de trabalho no hospital é qualificada negativamente, por meio de termos como inseguro, despreparado e insatisfeito. Dois (9,09%) participantes mostraram-se indiferentes ao questionamento.

Gratificante, por se tratar de um público diferenciado. Precisam de um profissional que saiba lidar com eles, que saiba ouvir e tratar de maneira individual (E7).

É um setor de risco e que merece muita segurança pra gente (E16).

Eu não me sinto satisfeita, falta muito para ser um hospital de referência [...] falta muito para os pacientes e, consequentemente, é a gente quem paga por isso (E19).

Com relação ao impacto da função sobre a saúde do trabalhador, foram questionados quanto à relação entre a sua saúde e o exercício profissional. Assim, 10 (45,45%) pessoas consideraram alterações de saúde decorrentes da atividade desenvolvida no hospital, 11 (50%) não consideram e 1 (4,55%) não soube responder. Entre os que responderam positivamente, os problemas recorrentes foram estresse, insônia, episódios depressivos, desgaste físico, pânico e ansiedade.

Cheguei a ter episódios depressivos associados ao trabalho, certa vez, fui ameaçada por uma interna com uma faca (E8).

Já tive problemas que necessitei ir para a fisioterapia por estresse, por situações que fugiram do controle (E1).

Acredito pelo fato do trabalho à noite, não pelo fato do trabalho específico aqui no hospital (E14).

As condições inadequadas para exercer o trabalho, a falta de organização e a dificuldade nas relações sociais impactam negativamente na qualidade de vida dos profissionais de enfermagem18. A privação do sono e sua dificuldade de recuperação são alguns dos principais fatores de desgaste físico e psíquico para os trabalhadores, mas apesar de ser associado, na maioria das vezes, a fatores negativos, os indivíduos trabalham nesse turno para atender suas necessidades pessoais e/ou profissionais19.

A questão da capacitação para o trabalho com o tipo da clientela atendida foi um fator de contradição encontrada nas falas dos profissionais: alguns relacionaram problemas de enfrentamento no trabalho, como a falta de habilitação para realizá-lo, entretanto outros citaram que foram capacitados com cursos e até pós-graduação concedida pela unidade de saúde.

Falta de investimento na nossa formação, falta de capacitação na área [...] porque foi um aprendizado em serviço, não tivemos curso de capacitação (E1).

É desagradável trabalhar com paciente AD, por não estar preparada para trabalhar com eles, mesmo o hospital oferecendo cursos de capacitação (E9).

O hospital me dá condições de fazer um bom trabalho, ofereceu capacitação aos profissionais (E14).

Fomos apresentados à proposta, abraçamos a causa [...] fomos capacitados, mas ainda assim estamos longe de um modelo ideal, já avançamos muito, mas estamos caminhando lentamente (E8).

Sobre a assistência multiprofissional como recurso para o tratamento de dependentes químicos (Classe 1), os discursos dos entrevistados apontam a necessidade de ampliação dessa assistência. Atualmente contam com a participação de médicos psiquiatras, equipe de enfermagem, psicólogos e serviço social. A atuação de uma equipe multiprofissional, além de envolver as relações interpessoais no trabalho, minimiza as vulnerabilidades advindas do uso de substâncias psicoativas. Dessa forma, a equipe necessita aliar intervenções específicas com metas para reduzir as manifestações diretas do uso e abuso das substâncias psicoativas, com ações voltadas a minimizar os prejuízos, bem como formular estratégias de prevenção à recaída20.

A precariedade de recursos e a falta de condições para um trabalho seguro (Classe 2) foi também motivo de preocupação dos trabalhadores de enfermagem. A escassez de recursos, como a falta de medicações e equipamentos, entretanto, aparece de maneira pontual quando relacionada ao tratamento dos internados. A maior menção quanto à precariedade está nas condições do pronto-socorro. A preocupação com condições seguras de trabalho se faz pelo relato dos profissionais quanto a insuficiente número de seguranças, recusa ao tratamento oferecido e associação dos internados à criminalidade.

As condições de trabalho no exercício da assistência (Classe 3) exercem influência direta sobre a assistência prestada ao dependente químico, segundo as informações colhidas em entrevista. A satisfação e o reconhecimento podem contribuir para melhorar a qualidade de vida do trabalhador e, consequentemente, repercutir na segurança do paciente. Dessa forma, torna-se essencial reconhecer as situações adversas e os fatores psicossociais associados que afetam a segurança no contexto hospitalar, interpretando a necessidade de empreender ações que respondam às lacunas do sistema de saúde atual21,22.

No que concerne à qualificação do trabalhador de enfermagem para a assistência especializada (Classe 4), a capacitação para o trabalho desenvolvido na unidade hospitalar foi mencionada por todos os entrevistados, porém não se deu de forma suficiente para o atendimento, segundo informações prestadas. Os sujeitos ainda consideram a importância de ações de educação continuada, entretanto não contam com o ensino permanente ofertado pela instituição.

Considerando as dificuldades da equipe de enfermagem com a gestão e as condições de trabalho (Classe 5) para a prestação de serviços, há, cada vez mais, exigências por produtividade e pressão pelo cumprimento de metas e, frequentemente, esta conta com precárias condições materiais, estruturais e de recursos humanos. Sendo assim, o contexto organizacional favorece o surgimento de sintomas relacionados ao sofrimento psíquico e traz riscos à saúde mental dos trabalhadores. As vivências de frustração e desmotivação têm sido destacadas por aqueles que relatam sofrimento psíquico e adoecimentos23.

 

CONCLUSÃO

O estudo revelou a concepção dos trabalhadores de enfermagem que assistem o dependente químico no âmbito hospitalar, os quais consideram estar expostos a situações desfavoráveis que afetam seu bem-estar e sua saúde e estão ligadas aos fatores psicossociais relacionados, principalmente, à carga e ao ritmo de trabalho, ao ambiente e à disponibilidade de equipamentos, à cultura organizacional e à função, às relações interpessoais, ao nível de satisfação e à interface lar-trabalho. A exposição ocupacional a fatores psicossociais desfavoráveis no trabalho esteve presente no relato da maioria dos profissionais da enfermagem. Contudo, a correta avaliação desses fatores nas situações de trabalho apresenta dificuldades conceituais e, provavelmente, nem sempre há o seu reconhecimento, ou pode ocorrer um subdimensionamento dos fatores de risco aos quais podem estar relacionados.

Apesar das limitações do estudo, decorrentes de reduzido número de participantes, único cenário de amostra e impossibilidade de generalizações para outros contextos laborais, ratifica-se a sua relevância ao identificar a influência dos fatores psicossociais do trabalho para a satisfação e a saúde dos profissionais da enfermagem. Ademais, ressalta-se a importância de as instituições hospitalares desenvolverem práticas de gestão que adotem a efetiva participação dos trabalhadores nos processos de trabalho, de forma que possibilite o bem-estar e a promoção da saúde psíquica.

 

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Recebido em 8 de Abril de 2018.
Aceito em 20 de Setembro de 2018.

Fonte de financiamento: nenhuma


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