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ARTIGO ORIGINAL

Adaptação transcultural para o português do Brasil do Dimensions of Corporate Well-Being Scorecard

Cross-cultural adaptation of Dimensions of Corporate Well-Being Scorecard to the Brazilian Portuguese language

João Massuda Junior1; Liliana Andolpho Magalhães Guimarães1; Rodrigo Bornhausen Demarch2; Fernando Faleiros de Oliveira1; Alfredo Almeida Pina-Oliveira3; Marcia Cristina das Dores Bandini4; Angela Cristina Yano4; Alberto José Niituma Ogata4

DOI: 10.5327/Z1679443520180310

RESUMO

INTRODUÇÃO: A integração de ações de gerenciamento de riscos ocupacionais e medidas para a promoção da saúde e do bem-estar no local de trabalho representa um desafio crescente para organizações de diversos setores produtivos.
OBJETIVO: Adaptar transculturalmente o instrumento intitulado Dimensions of Corporate Well-Being Scorecard (DCWS) para o contexto brasileiro.
MÉTODO: O processo de adaptação transcultural para o português do Brasil do instrumento DCWS foi estruturado em seis etapas distintas: tradução, reconciliação das traduções, retrotradução do instrumento para o idioma de origem, revisão da versão em português pela Equipe Interna de Especialistas, pré-teste do instrumento por meio de sua aplicação a um Comitê de Experts e revisão final dele.
RESULTADOS: O rigor metodológico produziu um instrumento satisfatório e adequado para investigar programas com foco na saúde, na segurança e no bem-estar dos trabalhadores de organizações no território nacional.
CONCLUSÃO: A versão do DCWS em português do Brasil, agora intitulado Questionário sobre as Dimensões do Bem-Estar Corporativo (QDBC), avança na avaliação da efetividade na integração de ações com foco na promoção da saúde e do bem-estar dos trabalhadores em diferentes contextos de trabalho.

Palavras-chave: tradução; saúde do trabalhador; segurança; promoção da saúde; inquéritos e questionários.

ABSTRACT

BACKGROUND: The integration of occupational risk management initiatives and health promotion and well-being in the workplace poses a challenge to organizations from different sectors.
OBJECTIVE: Cross-cultural adaptation of the Dimensions of Corporate Well-Being Scorecard (DCWS) to the Brazilian Portuguese language.
METHOD: The process of cross-cultural adaptation of the Dimensions of Corporate Well-Being Scorecard to the Brazilian Portuguese language evolved along six steps: translation, reconciliation, back-translation, revision by internal expert committee, revision by expert panel (pretest) and final revision.
RESULTS: The stringent protocols adopted in the present study resulted in a satisfactory and adequate instrument to analyze programs which target workers' health, safety and well-being at organizations operating in Brazil.
CONCLUSION: The Brazilian version of DCWS, entitled Questionário sobre as Dimensões do Bem-Estar Corporativo (QDBC) represents an advance in the evaluation of the effectiveness of integrated actions for health promotion and workers' well-being in different work environments.

Keywords: translation; occupational health; safety; health promotion; surveys and questionnaires.

INTRODUÇÃO

A preocupação com a saúde dos trabalhadores tem se tornado crescente em organizações de diferentes setores1. Estas têm reconhecido os impactos dos ambientes e contextos de trabalho para a saúde e o bem-estar dos trabalhadores, por vezes contribuindo para o seu adoecimento físico e mental e impactando negativamente a produtividade das organizações2-4.

Para eliminar ou controlar os riscos presentes no ambiente organizacional, essas instituições têm buscado desenvolver e implantar ações voltadas para a melhoria da saúde e segurança ocupacional e promoção do bem-estar dos trabalhadores.

No entanto, para alcançarem resultados consistentes, é importante que elas substituam a adoção de medidas dispersas e fragmentadas, que buscam apenas mitigar efeitos negativos, por políticas, programas e práticas articuladas que integrem a eliminação ou o controle dos riscos ocupacionais existentes com medidas para a promoção da saúde no local de trabalho e do bem-estar dos trabalhadores5.

Para contribuir com esse processo de integração, centros de pesquisa nacionais e internacionais têm buscado desenvolver instrumentos que possam auxiliar as organizações a avaliar o desempenho de seus programas, assim como seu grau de sucesso em integrar essas medidas, antes implementadas de forma isolada, a um amplo programa voltado para a saúde, a segurança e o bem-estar dos trabalhadores6,7.

Nesse âmbito, a Harvard T.H. Chan School of Public Health Center for Work, Health and Well-being demonstra protagonismo no desenvolvimento de instrumentos destinados a apoiar a implantação de abordagens focadas na redução ou eliminação de riscos ocupacionais e promoção da saúde no trabalho de forma integrada.

Contando com o apoio da Health Partners, a instituição supracitada desenvolveu um portfólio composto de três instrumentos direcionados para a avaliação de diferentes variáveis relacionadas à saúde, à segurança e ao bem-estar dos trabalhadores de forma articulada, reunindo-os em um documento intitulado Dimensions of Corporate Integration (DCI) Measurement Tool8.

Com o intuito de oferecê-los às organizações brasileiras, profissionais de saúde e, em especial, aos médicos do trabalho que lidam com a gestão integrada de saúde e segurança no trabalho, a Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT) tem conduzido o processo de tradução e adaptação transcultural do conjunto de instrumentos componentes do DCI, a saber: Dimensions of Corporate Safety Scorecard (DCSS), Dimensions of Corporate Well-Being Scorecard (DCWS) e The Indicators of Integration Scorecard (em andamento).

O primeiro instrumento, originalmente intitulado Dimensions of Corporate Safety Scorecard (DCSS), já está disponível para utilização no Brasil e passou a ser identificado como Questionário sobre as Dimensões de Segurança Corporativa (QDSC)7.

O Dimensions of Corporate Well-Being Scorecard (DCWS) te ve seu processo de tradução e adaptação transcultural concluído recentemente e corresponde ao enfoque do presente trabalho, que visa apresentar o processo percorrido pela equipe de pesquisadores responsáveis pelo projeto para disponibilizar a versão adaptada dele para aplicação no contexto brasileiro.

O DCWS é formado por cinco seções, sendo elas: Organizational Culture and Leadership, Program Design, Program Implementation and Resources, Program Evaluation e Scoring Summary. Os itens do instrumento são pontuados por meio de uma escala de Likert que varia de não se aplica de forma alguma (0) a aplica-se totalmente (5) — seu escore total pode oscilar de 0 a 100 pontos.

As quatro primeiras seções foram construídas com base no documento The Essential Elements of Effective Workplace Programs and Policies for Improving Worker Health and Well-being, proposto pelo Instituto Nacional para Segurança e Saúde Ocupacional dos Estados Unidos (NIOSH), cujas formulações foram adaptadas para serem utilizadas como um instrumento para avaliação8.

Internacionalmente, o DCWS foi validado em uma amostra de trabalhadores de pequenas e médias empresas, em conjunto com outros dois instrumentos desenvolvidos pela Harvard T.H. Chan School of Public Health Center for Work, Health and Well-being, obtendo uma adequada consistência interna (α=0,94) e correlação item total (0,17~0,19) durante o processo de validação de constructo. Outros estudos também foram desenvolvidos com trabalhadores de empresas pertencentes aos setores de construção, indústria e saúde, possibilitando melhor compreender o comportamento desse instrumento em diferentes contextos de trabalho5,6,9,10.

 

MÉTODO

O processo de adaptação transcultural para o português do Brasil do DCWS foi estruturado em seis etapas distintas, conforme recomendações internacionalmente aceitas para adaptações transculturais de instrumentos, sendo elas: tradução, reconciliação das traduções, retrotradução do instrumento para o idioma de origem, revisão da versão em português pela Equipe Interna de Especialistas, pré-teste do instrumento por meio de sua aplicação a um Comitê de Experts e revisão final11-13.

Inicialmente, a Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT) firmou uma parceria com a Harvard T.H. Chan School of Public Health and Well-being e obteve a autorização formal para iniciar o processo de tradução e adaptação do instrumento original11.

Após a autorização, dois tradutores independentes procederam à tradução do DCWS para o português do Brasil. Ambos os tradutores eram nativos e fluentes no idioma para o qual o instrumento seria traduzido e receberam orientações acerca dos objetivos do presente estudo, de forma que pudessem realizar uma tradução conceitual do instrumento, assegurando a equivalência semântica, idiomática, experiencial e conceitual da versão em questão. Ao término dessa etapa, foram geradas as versões 01 e 02 do DCWS em português.

Posteriormente, essas versões foram encaminhadas para a análise da coordenadora científica do projeto com o intuito de realizar a reconciliação de ambas as traduções em uma versão única, buscando eliminar os possíveis vieses identificados no trabalho desenvolvido, dando origem à terceira versão do instrumento em português14.

Essa versão foi encaminhada a dois tradutores independentes e bilíngues para que realizassem sua retrotradução para o idioma de origem do instrumento. Ambos os tradutores eram fluentes em inglês (uma enfermeira escocesa com conhecimento na área de saúde mental e um psicólogo brasileiro com comprovada proficiência na língua inglesa), não participaram das etapas iniciais da pesquisa e foram instruídos a realizar uma tradução literal da versão que lhes havia sido entregue13.

Tal procedimento procurou garantir a qualidade da versão adaptada do instrumento, uma vez que possibilitou a identificação de inconsistências no processo inicial de tradução de seu idioma de origem para o português brasileiro, ressaltando ambiguidades e falhas na compreensão de expressões idiomáticas que não eram comuns em determinados contextos.

Após essa etapa, as duas retrotraduções e as versões 01, 02 e 03 em português do DCWS foram encaminhadas à Equipe Interna de Especialistas, formada para o desenvolvimento deste projeto. A equipe em questão foi composta de cinco profissionais integrantes do Laboratório de Saúde Mental e Qualidade de Vida no Trabalho (LSMQVT) da Universidade Católica Dom Bosco (UCDB) oriundos das áreas de psicologia, serviço social e administração e com reconhecida experiência em pesquisas nos campos da psicologia da saúde ocupacional, saúde do trabalhador e validação de instrumentos.

Com o auxílio dos profissionais que realizaram a retrotradução, a equipe averiguou a compatibilidade das versões frente ao instrumento original e propôs ajustes na versão em português quando necessário, buscando sempre manter a equivalência e a adequação das formulações ao público-alvo ao qual o instrumento será direcionado. Este procedimento deu origem à quarta versão do instrumento DCWS em português.

A avaliação dessa versão ocorreu por meio de sua aplicação (pré-teste) a um Comitê de Experts formado por 20 profissionais de diferentes áreas ligadas à saúde, à segurança e ao bem-estar do trabalhador, a saber: desembargador do trabalho, advogado(a), administrador(a), psicólogo(a), enfermeiro(a) do trabalho, assistente social, profissionais da área de gestão de pessoas, médico do trabalho e psiquiatra e docentes universitários das áreas de enfermagem e psicologia.

Esse comitê recebeu orientações da coordenadora científica do projeto quanto aos objetivos do trabalho realizado e à metodologia aplicada à pesquisa. Os participantes foram informados sobre o procedimento a ser adotado durante a realização do pré-teste e instruídos a identificar os itens ou as formulações que apresentassem problemas em sua construção, fossem de difícil compreensão ou que, de alguma forma, estivessem em desacordo com a legislação vigente no Brasil.

As recomendações sugeridas pelo Comitê de Experts foram encaminhadas à Equipe Interna de Especialistas para que fossem analisadas e, quando aceitas, congregadas ao instrumento. Por meio da incorporação das sugestões consideradas válidas, foi possível ajustar as proposições de difícil compreensão ou que apresentassem qualquer tipo de problema em sua construção, sem que houvesse alterações em seu sentido semântico.

Uma revisão final, abrangendo aspectos tipográficos e gramaticais, foi conduzida pela equipe responsável pela pesquisa de forma que fosse assegurada a inexistência de falhas na versão final do DCWS em português. Esse procedimento deu origem à quinta versão do referido instrumento, agora denominado no Brasil como Questionário sobre as Dimensões do Bem-Estar Corporativo (QDBC) — esta é a versão adaptada e semanticamente adequada para aplicação.

 

RESULTADOS

CONSTRUÇÃO DA VERSÃO PARA APLICAÇÃO AO COMITÊ DE EXPERTS

Para assegurar a equivalência semântica, idiomática, empírica e conceitual da versão em português do Brasil do DCWS15, a equipe responsável por este projeto conduziu um processo sistemático de tradução e adaptação transcultural seguindo padrões internacionalmente reconhecidos11-13.

As duas primeiras versões em português do DCWS foram obtidas após a tradução do instrumento original por dois tradutores independentes. Apesar de pequenas diferenças na tradução de alguns termos, ambas as versões foram consideradas semelhantes quanto à estrutura de suas formulações.

Destaca-se que as variações encontradas na tradução de termos utilizados nas versões supramencionadas (e.g., traduzir "effective program" como "programas efetivos" ou "programas eficazes", "encourage" como "encorajam" ou "incentivam", "commitment" como "compromisso" ou "comprometimento", entre outros) não modificaram o sentido das proposições existentes no instrumento original.

Para a construção da versão sintética a ser aplicada ao Comitê de Experts, a coordenadora científica do projeto conduziu a reconciliação das duas traduções em uma versão única. Não se pode dizer que essa versão sintetizada possui características oriundas de uma única tradução devido à similitude existente entre ambas. Destaca-se que, ao serem identificadas divergências nas traduções, o critério para a escolha do termo a ser adotado foi sua adequação ao linguajar do público-alvo do instrumento. Tal procedimento relatado produziu a terceira versão do DCWS em português.

Com a intenção de assegurar a qualidade do processo de tradução e adaptação transcultural, a Equipe Interna de Especialistas analisou as duas retrotraduções elaboradas, tendo como base a terceira versão em português do DCWS, e as comparou com o instrumento original. A identificação de inconsistências levou à revisão de alguns itens no intuito de manter a equivalência entre ambas.

A primeira seção, por exemplo, intitulada "1.Organizational Culture and Leadership" foi proposta na reconciliação como "Cultura e Liderança Organizacional" e, após a revisão realizada pela Equipe Interna de Especialistas, recebeu o nome de "Cultura Organizacional e Liderança".

No item "1.2 Demonstrate leadership", o trecho explicativo "In some notable examples, corporate Boards of Directors have recognized the value of workforce health and well-being" concebido na reconciliação como "Em alguns exemplos emblemáticos, os Conselhos Administrativos Corporativos reconheceram o valor da saúde e bem-estar da força de trabalho" foi reescrito pela Equipe Interna de Especialistas como "Em alguns exemplos notórios, os Conselhos de Administração Corporativos reconheceram o valor da saúde e bem-estar da força de trabalho".

Já no item "2.2. Integrate relevant systems", foram realizados ajustes na tradução proposta para a descrição "Integrate separately managed programs into a comprehensive health-focused system and coordinate them with an overall health and safety management system". Na reconciliação, o trecho foi traduzido como "Devem-se integrar e coordenar separadamente os programas gerenciados em um sistema abrangente centrado na saúde com um sistema geral de gerenciamento de saúde e segurança". Após a revisão pela Equipe Interna de Especialistas, a versão aplicada ao Comitê de Experts assumiu o seguinte formato "Deve-se integrar os programas, gerenciados separadamente, em um amplo sistema centrado na saúde e coordená-los com um sistema geral de gerenciamento de saúde e segurança".

Modificações semelhantes às descritas anteriormente foram realizadas nas seções "3. Program Design", "4. Program Implementation and Resources" e "5. Program Evaluation", a fim de garantir não somente a equivalência entre as versões, mas também facilitar o entendimento dos itens por meio da reescrita de formulações consideradas de difícil compreensão pela Equipe Interna de Especialistas.

A revisão conduzida pela Equipe Interna de Especialistas gerou a quarta versão do DCWS em português. A equivalência dos itens dessa versão frente ao instrumento original pode ser visualizada na Tabela 1, na qual foram sintetizados os passos percorridos durante o processo de tradução e adaptação transcultural do DCWS para se chegar à versão de aplicação ao Comitê de Experts.

 

 

APLICAÇÃO AO COMITÊ DE EXPERTS

A avaliação da adequação da quarta versão do DCWS em português ao público-alvo foi realizada por meio da aplicação do instrumento a um Comitê de Experts (pré-teste) formado por 20 profissionais das seguintes profissões/ áreas: assistentes de recursos humanos (15%), psicólogos organizacionais e da saúde ocupacional (15%), docentes universitários das áreas de enfermagem e psicologia (10%), assistentes sociais (10%), diretor de empresa (5%), coordenador de desenvolvimento humano (5%), analista de recursos humanos (5%), auxiliar de departamento pessoal (5%), supervisor administrativo (5%), advogado (5%), enfermeiro do trabalho (5%), fisioterapeuta (5%), desembargador do trabalho (5%) e médico do trabalho e psiquiatra (5%).

Os participantes desse comitê representaram instituições dos seguintes setores: educação (50%); atividades administrativas e serviços complementares (15%); saúde humana e serviços sociais (15%); atividades profissionais, administração pública, defesa e seguridade social (10%); atividades profissionais, cientificas e técnicas (5%); e outras atividades de serviços (5%).

O grupo de experts foi formado, em sua maioria, por indivíduos do sexo feminino (65%), de cor branca (90%) e pós-graduados (80%). Em relação às suas atividades laborais, 90% dos participantes informaram trabalhar em regime de tempo integral, em organizações com fins lucrativos (45%) e de grande porte (70%).

O preenchimento e a avaliação do DCWS em português por parte dos membros do Comitê de Experts teve sua conclusão após aproximadamente 35 minutos do início de sua aplicação. Diante da indicação de que todos haviam finalizado seus apontamentos, a coordenadora científica do projeto conduziu a análise de cada um dos 20 itens existentes no instrumento em questão, solicitando que os participantes apontassem se tinham observado qualquer tipo de problema na construção do item analisado ou identificado alguma falha que pudesse prejudicar a sua correta compreensão.

Inicialmente, muitos dos participantes do Comitê de Experts (65%) expressaram ter experienciado dificuldades para compreender a forma de preenchimento do instrumento. Estes indicaram que a redação dos itens aparentava ser uma recomendação às organizações acerca de práticas que potencialmente poderiam melhorar o bem-estar dos trabalhadores no ambiente de trabalho, no entanto não deixava claro o que deveria ser avaliado por parte dos indivíduos que o responderiam.

O principal questionamento dos experts frente a esse ponto era se a avaliação seria acerca da existência dessas boas práticas, muitas vezes ideais, ou quanto à presença de iniciativas ou programas que poderiam ser compatíveis com o item descrito na coluna "Elemento Principal a ser Avaliado".

Frente aos questionamentos, a coordenadora científica deste estudo esclareceu aos participantes que a avaliação deveria ser direcionada ao item descrito na coluna "Principal Elemento a ser Avaliado". Também foi explicitado que a possível dificuldade de compreensão poderia estar relacionada à forma como o instrumento foi originalmente construído, uma vez que foi elaborado a partir de uma adaptação do documento "Principais Elementos dos Programas e das Políticas Efetivas no Ambiente de Trabalho para a Melhoria da Saúde e do Bem-Estar dos Trabalhadores", elaborado pelo NIOSH8.

Para facilitar a compreensão dos itens descritos no instrumento, o Comitê de Experts sugeriu que os nomes das quatro primeiras seções e de seus 20 itens fossem reescritos de forma que tornasse evidente o que, de fato, deveria ser avaliado.

Essa proposta fez com que as seções "1. Organizational Culture and Leadership", "2. Program Design", "3. Program Implementation"e"4. Program Evaluation" fossem traduzidas e culturalmente adaptadas para: "1. Quanto à Cultura Organizacional e Liderança", "2. Quanto à Elaboração do Programa", "3. Quanto à Implementação do Programa e aos Recursos" e "4. Quanto à Avaliação do Programa", na 5ª versão do DCWS em português.

As modificações propostas pelo Comitê de Experts para a adequação das descrições dos itens presentes na seção "1. Organizational Culture and Leadership" podem ser observadas na Tabela 2. As alterações realizadas nos itens da seção "2. Program Design" estão descritas na Tabela 3. A Tabela 4 sintetiza as sugestões incorporadas aos itens presentes na seção "3. Program Implementation". Por fim, a Tabela 5 apresenta as adaptações propostas pelos experts e aceitas pela equipe responsável pelo projeto para os itens pertencentes à seção "4. Program Evaluation".

 

 

 

 

 

 

 

 

A proposição "1. [...] Effective programs thrive in organizations with policies and programs that promote respect throughout the organization and encourage active worker participation, input, and involvement", traduzida originalmente para "1. [...] Programas efetivos prosperam em organizações com políticas e programas que promovem o respeito em toda a organização e incentivam a participação ativa, a colaboração e o envolvimento dos trabalhadores", foi modificada para "1. [...] Programas efetivos prosperam em organizações que promovem o respeito, incentivam a participação ativa, a colaboração e o envolvimento dos trabalhadores em suas políticas e programas" [grifo nosso] (Tabela 2).

Ainda na seção "Organizational Culture and Leadership", o termo "workforce", traduzido originalmente como "força de trabalho", foi modificado para "trabalhadores", e a expressão "mid level supervisors", inicialmente concebida como "supervisores de nível médio", foi alterada para "supervisores de nível intermediário". Essas adaptações buscaram aproximar o linguajar adotado no instrumento do jargão comumente utilizado pelos profissionais que farão uso do instrumento (Tabela 2).

Na seção "Program Design" (Tabela 3), a descrição "Programs should reflect a comprehensive view of health: behavioral health/ mental health/physical health are all part of total health. No single vendor or provider offers programs that fully address all of these dimensions of health. Integrate separately managed programs into a comprehensive health-focused system and coordinate them with an overall health and safety management system" foi traduzida inicialmente para "Os programas devem refletir uma visão abrangente da saúde: saúde comportamental/saúde mental/ saúde física são todas partes da saúde geral. Nenhum vendedor ou fornecedor oferece programas que abordam completamente todas essas dimensões da saúde. Deve-se integrar os programas, gerenciados separadamente, em um amplo sistema centrado na saúde e coordená-los com um sistema geral de gerenciamento de saúde e segurança" [grifos nossos].

No intuito de facilitar o entendimento da proposição anteriormente descrita, os experts sugeriram a alteração de sua redação com vistas à sua simplificação — ela ficou da seguinte forma: "Os programas devem refletir uma visão abrangente da saúde: saúde comportamental, mental e física são parte da saúde geral. Nenhuma oferta de programa aborda completamente todas essas dimensões da saúde. Deve-se integrá-los em um amplo sistema centrado na saúde (não os gerenciando separadamente) e coordená-los com um sistema geral de gerenciamento de saúde e segurança no trabalho" (grifos nossos) (Tabela 3).

Ainda na seção "Program Design" (Tabela 3), foi sugerida a reescrita da formulação "Design programs with a long-term outlook to assure sustainability". Concebido inicialmente como "Elabore programas com perspectiva de longo prazo para assegurar sua sustentabilidade" (grifo nosso), este item teve sua redação final alterada para "Programas com perspectiva de longo prazo devem ser elaborados para assegurar sua sustentabilidade" (grifo nosso), novamente buscando facilitar a compreensão e leitura do instrumento sem alterar o sentido da proposição.

Outras alterações pontuais, visando padronizar, adequar os termos utilizados ao público que fará uso desse instrumento e atualizar os dispositivos legais às normas vigentes no Brasil (e.g., Código de Ética Médica) foram propostas pelo Comitê de Experts e incorporadas ao instrumento, sendo apresentadas nas Tabelas 2, 3, 4 e 5.

Para a tradução e adaptação transcultural das instruções de preenchimento do instrumento e de sua escala de avaliação, foi adotado procedimento semelhante aos descritos anteriormente, garantindo sempre a equivalência semântica, idiomática, experiencial e conceitual das formulações.

Após o término do processo de tradução e adaptação transcultural, o instrumento DCWS passou a ser identificado como QDBC — esta é a versão adaptada e semanticamente adequada para utilização no idioma português brasileiro.

 

DISCUSSÃO

A adaptação de instrumentos para utilização em diferentes países e culturas é uma tarefa complexa e que demanda o cumprimento de protocolos internacionalmente aceitos para que se possa assegurar a qualidade do trabalho desenvolvido e alcançar a equidade de avaliação e comparabilidade entre os escores das versões original e adaptada de um instrumento16-18.

Nesse sentido, os procedimentos aqui adotados (tradução, reconciliação, retrotradução, revisão pela Equipe Interna de Especialistas, avaliação pelo Comitê de Experts e revisão final pela equipe responsável pelo projeto) foram conduzidos com vistas a assegurar a qualidade da versão final em português do DCWS, seguindo orientações internacionalmente reconhecidas para a tradução e adaptação transcultural de instrumentos.

As etapas de tradução e reconciliação possibilitaram a apresentação das primeiras versões em português do instrumento foco deste estudo. A retrotradução identificou diferenças semânticas ou conceituais que poderiam reduzir a equivalência da versão em português quando comparada ao instrumento original. A revisão realizada pela Equipe Interna de Especialistas buscou corrigir essas discrepâncias e apresentar a versão que seria aplicada ao pré-teste realizado com o Comitê de Experts.

As recomendações feitas pelo referido comitê, formado por profissionais de reconhecida experiência na área de saúde, segurança e bem-estar no trabalho, possibilitaram o ajustamento do instrumento à realidade brasileira sem comprometer as equivalências semântica, idiomática, experiencial e conceitual.

Uma das importantes contribuições feitas por esse comitê, aceita e incorporada pela Equipe Interna de Especialistas e pela equipe responsável pelo projeto, foi a sugestão de reescrever as descrições dos 20 itens a serem avaliados nas 4 primeiras seções do instrumento, fazendo com que estas evidenciassem o que deveria ser considerado pelo respondente ao decidir o valor que seria pontuado no referido item.

O procedimento acima adotado fez com que as formulações fossem mais facilmente compreendidas pelo Comitê de Experts sem comprometer a equivalência entre elas e as proposições originais.

Apesar de modificar a descrição dos itens originais do instrumento, tal alteração foi necessária para que a versão em português do DCWS fosse ajustada à linguagem do público-alvo desse instrumento, pois, diferentemente da mera tradução, o processo de adaptação transcultural requer, com frequência, a modificação no formato do instrumento ou a adequação dos exemplos e das formulações apresentados, para que se possa garantir não apenas a equivalência semântica e idiomática, mas também as equivalências experiencial e conceitual da versão em construção14.

Destaca-se a contribuição desta pesquisa para a ampliação do portfólio de instrumentos disponíveis e validados para a avaliação da saúde, da segurança e do bem-estar de trabalhadores inseridos em diferentes contextos de trabalho.

Nesse sentido, a adaptação do DCWS para o português brasileiro se soma ao trabalho já realizado para a tradução do DCSS para o português7 e à futura tradução do The Indicators of Integration Scorecard, no intuito de disponibilizar, no Brasil, o conjunto de três instrumentos componentes do Dimensions of Corporate Integration, criado pela Harvard T.H. Chan School of Public Health — Center for Work, Health and Well-being8.

Tal iniciativa enriquece o arcabouço de instrumentos disponíveis para a realização de diagnósticos mais apurados e também possibilita o aprimoramento das práticas existentes com foco na criação de ambientes de trabalho mais seguros e saudáveis nas organizações brasileiras7,17,19.

O tipo de amostragem aplicado a este estudo deve ser considerado como uma limitação dele, pois não representa a diversidade existente no Brasil. No entanto, salienta-se que a formação qualitativa e quantitativa do Comitê de Experts, constituído para a realização do pré-teste da versão aqui adaptada, seguiu as recomendações existentes na literatura quanto à composição (quantitativo e diversidade profissional) de grupos de juízes para a avaliação da qualidade de adaptações de instrumentos20.

Embora as equivalências semântica, idiomática, experiencial e conceitual tenham sido asseguradas, é importante frisar que, para garantir a qualidade da versão em português do DCWS, serão necessários novos estudos direcionados a mensurar a validade e as características psicométricas deste em sua versão brasileira, seguindo a metodologia aqui adotada para validação de instrumentos em diferentes culturas e contextos21.

 

CONCLUSÕES

A versão em português do Brasil do DCWS, obtida neste estudo, apresenta-se como um importante avanço no campo da saúde ocupacional.

Sua adaptação transcultural para o Brasil amplia a oferta de instrumentos para a avaliação da efetividade das ações e dos programas com foco na promoção da saúde e do bem-estar dos trabalhadores em diferentes contextos de trabalho.

Entende-se ainda que o desenvolvimento de estudos quantitativos será necessário para avaliar a validade e as características psicométricas do instrumento neste projeto traduzido e culturalmente adaptado frente à sua versão original.

Esse procedimento permitirá melhor compreender o desempenho do agora intitulado QDBC quando aplicado à realidade brasileira e possibilitará a criação de repositórios de benchmarks para a consulta das mais diversas organizações interessadas em construir ambientes de trabalho cada vez mais saudáveis e produtivos.

 

AGRADECIMENTOS

À Harvard T.H. Chan School of Public Health Center for Work, Health, and Well-Being; à ANAMT; à Mantris — Gestão em Saúde Corporativa; e ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia e ao Laboratório de Saúde Mental e Qualidade de Vida no Trabalho (registrado no diretório de grupos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico — CNPq) da UCDB.

 

CONFLITO DE INTERESSES

Este trabalho foi financiado pela Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), organização mantenedora da Revista Brasileira de Medicina do Trabalho (RBMT).

 

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Recebido em 29 de Agosto de 2018.
Aceito em 16 de Outubro de 2018.

Fonte de financiamento: Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT)


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