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ARTIGO ORIGINAL

Prevalência e fatores associados a sintomas respiratórios em trabalhadores da construção civil: uma proposta de vigilância em saúde do trabalhador

Prevalence and factors associated with respiratory symptoms among civil construction workers: an occupational health surveillance proposal

Paulo Lima da-Silva-Filho1; Clóvis Botelho2; Hermano Albuquerque Castro3; Marcelo José Monteiro Ferreira4; Ageo Mário Cândido Silva2

DOI: 10.5327/Z1679443520190263

RESUMO

INTRODUÇÃO: O setor da construção civil é um dos que mais adoecem e matam trabalhadores no Brasil. Apesar da relevância epidemiológica, ainda são frágeis as ações de vigilância em saúde do trabalhador na Atenção Básica.
OBJETIVO: Analisar a prevalência e os fatores associados a sintomas respiratórios em trabalhadores da construção civil de Cuiabá, Mato Grosso. Métodos: Trata-se de um estudo transversal, analítico, realizado com 545 trabalhadores da construção civil, de modo a qualificar as ações de vigilância em saúde do trabalhador. A presença de sintomas respiratórios foi determinada através do instrumento British Medical Research Council. Realizou-se o teste do χ2 de Mantel Haenszel na análise bivariada e regressão de Poisson na análise multivariada. O nível de significância adotado foi de 5%.
RESULTADOS: A maioria dos participantes é de adultos jovens. Quase metade dos participantes foram classificados como sintomático-respiratórios. Trabalhadores expostos a substâncias químicas apresentaram maiores chances para a ocorrência de tosse (RP=1,70; IC95% 1,22–2,37) e expectoração (RP=1,63; IC95% 1,14–2,23). Trabalhadores que não realizaram os testes espirométricos nos exames admissionais obtiveram maiores chances de apresentar sibilos (RP=1,57; IC95% 1,17–2,10).
CONCLUSÃO: O monitoramento biológico dos trabalhadores da construção civil pode servir como uma importante ferramenta para a qualificação das ações de vigilância em saúde do trabalhador na Atenção Básica.

Palavras-chave: doenças profissionais; doenças respiratórias; vigilância em saúde do trabalhador; indústria da construção; saúde do trabalhador.

ABSTRACT

BACKGROUND: The civil construction industry is associated with the some of the highest morbidity and mortality rates in Brazil. Despite their epidemiological relevance, occupational health surveillance actions within the primary care setting still exhibit weaknesses.
OBJECTIVE: To analyze the prevalence of and factors associated with respiratory symptoms among civil construction workers in Cuiaba, Mato Grosso, Brazil.
METHODS: Cross-sectional analytic study conducted with 545 civil construction workers to analyze occupational health surveillance actions. Presence of respiratory symptoms was investigated by means of the British Medical Research Council questionnaire on respiratory symptoms. The Mantel-Haenszel χ2 test was used for bivariate analysis and Poisson regression for multivariate analysis. The significance level was set to 5%.
RESULTS: Most participants were young adults and almost half exhibited respiratory symptoms. The odds to develop cough were higher for the participants exposed to chemicals (PR=1.70; 95%CI 1.22–2.37). The odds to develop wheezing were higher for the participants who had not undergone pre-employment spirometry (PR=1.57; 95%CI 1.17–2.10).
CONCLUSION: Biological monitoring of civil construction workers might be useful to improve occupational health surveillance actions within the primary care setting.

Keywords: occupational diseases; respiratory tract diseases; surveillance of the workers health; construction industry; occupational health.

INTRODUÇÃO

O setor da construção é um dos segmentos que mais empregam pessoas em todo o mundo, sendo de fundamental importância para a economia global. Por outro lado, é também um dos mais perigosos. De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), anualmente morrem aproximadamente 108 mil trabalhadores nos canteiros de obra em todo o mundo. Isso representa cerca de 30% de todos os acidentes de trabalho fatais1,2.

Além dos acidentes, as doenças relacionadas ao trabalho no ramo da construção são problemas de grande relevância para a saúde pública. A exposição a diversos riscos ocupacionais, como poeiras e outros contaminantes, contribui para o surgimento de doenças em diferentes ocupações. Estima-se que cerca de 10 a 30% dos cânceres de pulmão no mundo são de origem ocupacional3.

No segmento da construção civil não é diferente. O processo de trabalho é dinâmico e complexo, envolvendo uma grande variabilidade de atividades e funções. É caracterizado pelo contato direto e indireto com numerosos agentes nocivos à saúde. Destacam-se as radiações não ionizantes, poeiras, vapores, gases e fumos metálicos. Somam-se ainda a baixa escolaridade dos trabalhadores, a exigência e pressão por produtividade e a alta rotatividade no emprego. Todos esses elementos contribuem para a ocorrência de distúrbios musculoesqueléticos, dermatites, doenças gastrointestinais e problemas no aparelho respiratório4.

No que tange às doenças do aparelho respiratório, diversos estudos evidenciaram significativo comprometimento da função pulmonar em trabalhadores da construção civil5-7. No Nepal, um estudo realizado com 800 trabalhadores de olarias demonstrou que 55% dos participantes apresentavam tosse, sibilos e produção contínua de escarro8. Uma pesquisa realizada em Gana demonstrou que trabalhadores em contato diário com cimento apresentavam uma prevalência significativamente maior de dores no peito e dispneia quando comparados a outros grupos ocupacionais não expostos9. Na Índia, um estudo realizado com 128 trabalhadores demonstrou que mais de 66% da amostra apresentou déficit da função respiratória, quando comparada a outros indivíduos da mesma idade, gênero e altura10.

A exposição ocupacional dos trabalhadores da construção civil à diversidade de agentes contaminantes, volume e tempo de exposição resulta em manifestações clínicas que podem ser classificadas em agudas ou crônicas. Entre as agudas, os quadros clínicos geralmente cursam com obstrução de vias aéreas superiores, tosse, sibilância e dispneia. Numa exposição crônica, a fisiopatologia pode evoluir para doenças pulmonares obstrutivas crônicas (DPOC), pneumonias, fibrose pulmonar, câncer de pulmão, entre outras11.

Como forma de tentar minimizar a ocorrência de doenças ocupacionais no trato respiratório, países desenvolvidos como na União Europeia e nos Estados Unidos possuem uma rígida legislação que controla os limites de exposição a poeiras e outras partículas inaláveis (occupational exposure limit — OEL). Apesar do limiar variar para cada país, a fiscalização e os procedimentos regulatórios possibilitam um bom controle da salubridade no ambiente de trabalho, sobretudo entre trabalhadores da construção civil11.

No Brasil, apesar da existência da Norma Regulamentadora 18 (NR-18), que trata das condições e meio ambiente de trabalho na indústria da construção12, ainda são frágeis os mecanismos de fiscalização e controle da saúde e segurança no trabalho por parte do Estado5. Além disso, existe uma deficiência dos profissionais de saúde em correlacionar precocemente os sinais e sintomas clínicos dos pacientes sintomático-respiratórios com sua exposição ocupacional atual ou pregressa13.

A lacuna dos profissionais de saúde em realizar o nexo causal é um espectro importante, que demonstra a fragilidade das ações de vigilância em saúde do trabalhador (VISAT), sobretudo no âmbito da Atenção Básica (AB). Nesse nível de atenção, as ações de VISAT, quando ocorrem, são pontuais, fragmentadas e muitas vezes desarticuladas da rede de atenção à saúde, bem como do próprio mapa produtivo e do perfil epidemiológico dos territórios em que atuam14.

Esse contexto repercute diretamente em subnotificações, imprecisão nos diagnósticos, equívoco no manejo clínico dos pacientes, dificuldades para acesso aos benefícios previdenciários (quando de direito) e diminuição da resolutividade da AB frente aos agravos à saúde relacionados ao trabalho15.

Recentemente, o estado de Mato Grosso gerou vários empregos nos setores da construção civil devido à escolha de sua capital, Cuiabá, como uma das sedes da Copa do Mundo de Futebol. Isso alavancou o desenvolvimento de diversas obras de infraestrutura viária, construção de arenas esportivas e mobilidade urbana. Por outro lado, ocorreu também o aumento da exposição a diversos contaminantes ambientais por parte desses trabalhadores16. Nesse contexto, cabe ao setor saúde de modo geral, e à VISAT em específico, o desafio de detectar precocemente sinais e sintomas clínicos preditores de futuros agravos no sistema respiratório em trabalhadores da construção civil, expostos ocupacionalmente a contaminantes ambientais7. O presente estudo objetivou analisar a prevalência e os fatores associados a sintomas respiratórios em trabalhadores da construção civil de Cuiabá, de modo a qualificar as ações de VISAT.

 

MÉTODOS

POPULAÇÃO DE ESTUDO E AMOSTRA

Trata-se de um estudo transversal, analítico, tendo como população os trabalhadores sindicalizados da construção civil do município de Cuiabá. A pesquisa foi desenvolvida no período de agosto a novembro de 2014.

As informações sobre o quantitativo de indivíduos e a identificação dos locais de trabalho para a seleção dos participantes do estudo foram fornecidas pelo Sindicato dos Trabalhadores da Indústria da Construção Civil de Cuiabá. Na determinação do tamanho da amostra, foram utilizados os procedimentos propostos para populações finitas17, partindo-se de um total de cinco mil trabalhadores cadastrados, com erro amostral de 5%, prevalência estimada de sintomas respiratórios de 50% e efeito de desenho de 1,5.

Obteve-se uma amostra necessária de 428 participantes. Esse número foi acrescido em 15%, no intuito de explorar associações entre variáveis independentes e as variáveis de desfecho, perfazendo uma amostra mínima de 492 trabalhadores. Além disso, aumentou-se em mais 10%, a fim de compensar eventuais perdas e recusas, perfazendo um total de 545 trabalhadores. Para a seleção dos canteiros de construção civil, após o cálculo da amostragem, foi realizada uma amostragem simples das 23 construtoras cadastradas, sendo selecionadas 5 delas que anuíram prontamente a participar da pesquisa. Os trabalhadores foram selecionados aleatoriamente conforme ordem de chegada na hora do início do turno de trabalho, sendo entrevistados no refeitório de cada canteiro de construção.

INSTRUMENTOS E VARIÁVEIS COLETADAS

Os dados foram coletados por meio de questionários semiestruturados. Os pesquisadores de campo aplicaram os instrumentos diretamente nos canteiros de obra. Todos os integrantes do grupo de pesquisadores de campo foram previamente treinados pelos coordenadores do estudo para a devida familiarização com os instrumentos de pesquisa.

Para a avaliação dos desfechos foi utilizado o questionário British Medical Research Council18. Esse instrumento contém blocos de perguntas referentes à presença de sintomas respiratórios, tendo sido adaptado transculturalmente e validado para a língua portuguesa no Brasil19. Inicialmente, os sintomas presença de tosse (sim/não), expectoração (sim/não) e chiado no peito (sim/não) foram avaliados separadamente e considerados como varáveis respostas exclusivas. Posteriormente, os participantes foram categorizados em portadores de sintomáticos respiratórios gerais (sim/não) se responderam positivamente a pelo menos um desses sintomas.

Como variáveis independentes foram avaliadas as informações sociodemográficas relacionadas a: faixa etária, sexo, estado civil, escolaridade, renda per capita e familiar. Também foram obtidas informações sobre tabagismo (fumante, não fumante e ex-fumante). Posteriormente foram reclassificados em fumantes (fumante e ex-fumante) e não fumantes. Características do ambiente de trabalho (tipo de ocupação, jornada de trabalho, tempo de exposição e vínculo de trabalho), realização de exames admissionais (espirometria e raio X de tórax) e exposição ambiental no trabalho (frio, calor, local úmido e poeira) também foram coletadas.

ANÁLISE DOS DADOS

Os questionários foram digitados utilizando o software Epi-Info®versão 7, com realização de dupla entrada para checagem da consistência interna dos dados. Para a análise, utilizou-se o Stata® versão 13.0.

Foram realizadas análises descritiva, bivariada e múltipla. Na análise bivariada verificou-se a existência da associação entre as variáveis independentes e as variáveis resposta através do teste do χ2 de Mantel-Hanzel ou teste exato de Fisher, quando necessário. Adotou-se a significância estatística de 0,05 (a=5%) para as associações.

A análise múltipla foi realizada através da regressão de Poisson, com ajuste para variáveis confundidoras, mantendo-se no modelo todas as que apresentaram nível de significância p<0,20. As variáveis categóricas foram incluídas na análise como ordinais quando o teste do χ2 para tendência linear foi significativo.

Com a finalidade de se verificar o efeito conjunto das ocupações de maior risco para doenças ocupacionais e baixa renda, optou-se por incluir um termo de interação entre essas duas variáveis nos modelos múltiplos de regressão de Poisson, após avaliação da homogeneidade dos estratos por meio da análise estratificada (não demonstrada nas tabelas do presente artigo).

ASPECTOS ÉTICOS

Esta pesquisa fez parte do projeto de avaliação dos riscos ocupacionais, morbidade referida e precarização de trabalho em trabalhadores da construção civil e pesada em Mato Grosso. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa sob o parecer nº 242.732, datado de 10 de abril de 2013. Todos os entrevistados leram e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

 

RESULTADOS

Dos 545 trabalhadores entrevistados, houve predomínio do sexo masculino (91,7%). A faixa etária com maior número de trabalhadores foi de 20 a 29 anos (média de 32±12,2 anos). Em relação ao nível de escolaridade, quase metade dos trabalhadores (45,1%) possuía apenas o ensino fundamental incompleto. Quanto à renda familiar per capita, 13,5% recebiam até meio salário mínimo. Os casados ou em união estável foram a maioria, correspondendo a 59,4% da amostra. Menos de um terço dos entrevistados (21,6%) declarou-se como tabagista (Tabela 1).

 

 

Sobre o perfil profissional, 49,9% das ocupações da construção civil correspondiam a serventes, pedreiros, gesseiros e eletricistas. Quase dois terços (70,2%) trabalhavam até 8 horas por dia, 71,2% trabalhavam havia menos de quatro anos na construção civil e quase três quartos eram trabalhadores com vínculo empregatício formal. Com relação à realização de exames admissionais direcionados ao aparelho respiratório, 46,2% realizaram espirometria e 54,5%, exame de raio X de tórax (Tabela 2).

 

 

A prevalência de sintomáticos respiratórios gerais foi 44,4%. A tosse foi referida por 24,2% dos trabalhadores, a expectoração por 22,5% e sibilos no peito por 25,5% (Tabela 2).

A Tabela 3 apresenta as prevalências e razões de prevalência (RP) dos sintomas respiratórios segundo características sociodemográficas e realização de exames admissionais. Em relação à presença de tosse, as variáveis associadas a esse intervalo de confiança de 95% (IC95%) 1,44–2,59; exposição ao frio (RP=1,82; IC95% 1,36–2,43), exposição a locais úmidos (RP=1,82; IC95% 1,33–2,48), exposição à fumaça (RP=1,65; IC95% 1,03–2,65) e exposição a outras substâncias químicas (RP=1,70; IC95% 1,22–2,37).

 

 

Quanto à expectoração, as variáveis com associações estatísticas foram: presença de tabagismo (RP=2,16; IC95% 1,59–2,92), exposição ao frio (RP=1,39; IC95% 1,02–1,91) e exposição a substâncias químicas (RP=1,63; IC95% 1,14–2,23). O sibilo associou-se apenas ao tabagismo (RP=1,41; IC95% 1,03–1,92) (Tabela 4).

 

 

No modelo final, as variáveis associadas à presença de tosse foram: realizar jornada de trabalho maior do que 8 horas diárias (RP=1,34; IC95% 1,01–1,79), exposição ao frio (RP=1,55; IC95% 1,15–2,08), exposição a lugares úmidos (RP=1,47; IC95% 1,07–2,01) e referência ao hábito tabágico (RP=1,76; IC95% 1,31–2,37). Em relação à presença de expectoração, apenas as variáveis exposição ao frio (RP=1,40; IC95% 1,17–1,69) e a interação entre ocupação e renda (RP=1,44; IC95% 1,17–1,77) permaneceram na análise múltipla. O tabagismo (RP=1,06; IC95% 1,01–1,12) e a realização de espirometria admissional (RP=1,06; IC95% 1,01–1,11) foram as variáveis que permaneceram com associações estatisticamente significativas. No modelo final sobre a presença de sintomáticos respiratórios gerais, as variáveis associadas foram: tabagismo (RP=1,52; IC95% 1,26–1,84), exposição à fumaça (RP=1,41; IC95% 1,26–1,84), não pertencer à faixa etária de 30 anos ou mais (RP=0,78; IC95% 0,65–0,94) e a interação entre ocupação e renda (RP=1,79; IC95% 1,07–3,01) (Tabela 5).

 

 

DISCUSSÃO

Quase metade dos participantes deste estudo foram classificados como sintomático-respiratórios. Esse resultado ganha ainda mais relevância por se tratar principalmente de trabalhadores jovens, com maior frequência na faixa etária dos 20 aos 29 anos.

Achados semelhantes podem ser identificados em estudo realizado com trabalhadores da construção de estradas na Índia. Cerca de 70% dos participantes apresentaram algum tipo de sinal ou sintoma respiratório em decorrência da exposição ocupacional e a quase totalidade da amostra (92%) tinha menos de 30 anos. Os quadros clínicos variaram entre agudos e crônicos10.

Outro aspecto que merece destaque no nosso estudo se refere à baixa escolaridade dos participantes. Quase metade da amostra possui apenas o ensino fundamental incompleto. A baixa escolaridade dos trabalhadores os torna ainda mais vulneráveis a condições precárias de trabalho, com poucas oportunidades de participação em capacitações sobre saúde e segurança no trabalho, além de dificultar o seu acesso aos serviços de saúde. Como consequência, são mais propensos a desenvolver problemas de saúde20.

Os sintomas autorreferidos mais prevalentes no nosso estudo foram tosse e sibilos. Nossos achados corroboram os demonstrados em estudo realizado com 572 profissionais da construção civil nos Estados Unidos. Mais da metade dos trabalhadores norte-americanos apresentaram tosse (53,8%), dispneia (60,6%) e sibilos (50,2%)4.

Os trabalhadores da construção civil estão frequentemente expostos a um ambiente laboral com a presença de diversos riscos ocupacionais, resultando em múltiplas exposições a vários agentes nocivos. Produtos químicos como tintas e solventes à base de hidrocarbonetos podem contribuir para o surgimento de tosse e expectoração, tendo em vista sua comprovada capacidade de irritar as vias aéreas superiores21.

Nossa pesquisa evidenciou que os trabalhadores expostos a substâncias químicas apresentaram 70% a mais de chances (RP=1,70; IC95% 1,22–2,37) para a ocorrência de tosse e 63% (RP=1,63; IC95% 1,14–2,23) para expectoração. Esses dados foram semelhantes aos identificados por Rafeemanesh et al.6, que observou que a tosse e a expectoração foram os sintomas mais prevalentes no estudo realizado com trabalhadores nas fábricas de cimento do Iran. Nesse mesmo estudo, os autores afirmaram que, ajustados os fatores de confusão, os expostos a poeiras e outros agentes químicos possuem 7,6 vezes mais chances de desenvolver doenças respiratórias quando comparados a outras categorias profissionais que não têm contato com essas substâncias6.

No Brasil, as queixas relacionadas a problemas respiratórios entre trabalhadores estão presentes também em outras ocupações. Uma pesquisa realizada com 183 trabalhadores das indústrias de cerâmicas dos municípios de Cuiabá e Várzea Grande, em Mato Grosso, demonstrou que quase metade da amostra referiu presença de sintomas respiratórios. Desses, um terço apresentou tosse, expectoração, dispneia e sibilância. Entre as prováveis explicações, a exposição a diferentes produtos químicos e a temperaturas extremas pode justificar as ocorrências em trabalhadores desse setor produtivo. Além disso, o ambiente de trabalho na construção civil geralmente é marcado por um alto grau de insalubridade e periculosidade, contribuindo para o surgimento de diversas doenças, sobretudo no trato respiratório20,22.

No nosso estudo, as principais variáveis associadas a tosse, sibilos e sintomas gerais encontradas foram o hábito tabágico (RP=1,52; IC95% 1,26–1,84) e a exposição a fumaças (RP=1,41; IC95% 1,26–1,84). A literatura científica reconhece o fumo como um importante fator de risco para o surgimento de diversas doenças pulmonares como DPOC, asma e bronquite crônica5,23. Contudo, uma revisão sistemática evidenciou que 15 a 20% dos casos com diagnóstico comprovado de DPOC estavam associados à exposição ocupacional11. Outro estudo norte-americano estima que 20 a 30% dos casos de DPOC sejam decorrentes de exposições ocupacionais4.

A exposição ao frio (RP=1,55; IC95% 1,15–2,08) e a lugares úmidos (RP=1,47; IC95% 1,07–2,01) foi associada à presença de tosse e expectoração. Inquérito realizado em quatro países da Europa identificou aumento na prevalência de sibilos, tosse e asma nos participantes expostos a ambientes com umidade excessiva24. A umidade elevada torna o ambiente propício para a proliferação de fungos, o que pode desencadear diversos processos alérgicos25. Outra provável hipótese explicativa decorre de parte do processo de trabalho na construção civil acontecer em locais abertos, onde os trabalhadores estão vulneráveis às alterações climáticas e ambientais. Por outro lado, ambientes fechados e climatizados, acrescidos de baixa umidade do ar e de poeiras e outras substâncias presentes nos canteiros de obra também podem potencializar a ocorrência de sintomas respiratórios nesses trabalhadores26. Contudo, no Brasil ainda são raros os trabalhos que correlacionam os efeitos da umidade à ocorrência de sintomas respiratórios em trabalhadores da construção civil27.

Nossa pesquisa demonstrou que os trabalhadores expostos à fumaça no ambiente laboral apresentaram maiores prevalências de tosse do que os demais trabalhadores. A qualidade precária do ar em ambientes internos dos edifícios junto à fumaça originária da combustão de motores a diesel aumenta a ocorrência de tosse e outros sintomas respiratórios28.

O aumento da jornada de trabalho esteve associado à ocorrência de tosse entre os indivíduos investigados. Extensas jornadas de trabalho podem trazer implicações negativas para a saúde do trabalhador, levando a uma maior ocorrência de doenças ocupacionais e absenteísmo23. Além disso, proporciona um maior contato com as substâncias nocivas presentes no ambiente de trabalho, aumentando sua exposição aos riscos ocupacionais29,30.

Com relação aos exames admissionais, os trabalhadores que não realizaram os testes espirométricos obtiveram 57% a mais de chances de apresentar sibilos, quando comparados aos que realizaram o exame (RP=1,57; IC95% 1,17–2,10). A espirometria tem por finalidade avaliar a função respiratória dos pacientes, sendo utilizado no diagnóstico de doenças pulmonares30. Recomenda-se ainda a aplicação das medidas seriadas de Peack Flow quando da suspeita de asma relacionada ao trabalho ou na presença de sintomas respiratórios31. O comprometimento da capacidade ventilatória em trabalhadores da construção civil pode funcionar como um bom marcador biológico para ações de VISAT, sugerindo o início precoce das alterações funcionais nesses pacientes, sobretudo em doenças pulmonares obstrutivas crônicas, ainda prevalentes nesses trabalhadores, que apesar de não terem cura, são perfeitamente evitáveis32.

Apesar disso, ainda persistem nos serviços de saúde de modo geral, e na AB em específico, uma dificuldade dos profissionais para realizar o nexo causal entre pacientes sintomático-respiratórios e suas ocupações. Isso repercute em uma grande perda de oportunidade para o desenvolvimento de ações de VISAT.

O acompanhamento da capacidade respiratória de trabalhadores expostos ocupacionalmente a contaminantes que promovem o comprometimento da função respiratória pode ser incorporado pela AB. É um componente importante da VISAT que precisa ser introduzido na rotina de práticas dos profissionais de saúde de modo geral, sobretudo nesse nível de atenção.

Dessa forma, o monitoramento biológico dos trabalhadores apresenta potencial para a qualificação da VISAT na AB, muitas vezes reduzidas a atividades pontuais e genéricas de educação em saúde ou mesmo de mapeamento de processos produtivos nos territórios. Apesar de serem importantes instrumentos de VISAT, devem ser entendidos como ponto de partida para ações mais qualificadas, capazes de levar em conta as características dos processos produtivos e seus riscos ocupacionais, as possíveis interações fisiopatológicas dos riscos com o organismo dos trabalhadores, bem como com o perfil de morbimortalidade da população assistida.

Avança-se para uma atuação efetivamente preventiva, alinhada aos riscos ocupacionais presentes nos ambientes de trabalho da construção civil no país. Busca-se, com isso, um maior envolvimento da rede de serviços do Sistema Único de Saúde, que vão desde a solicitação de exames laboratoriais até a visita in loco com outros órgãos e setores que dialogam com a saúde do trabalhador. Esse cenário potencializa o reconhecimento mais amplo dos principais fatores de risco envolvidos nas diferentes ocupações, e de suas repercussões para a saúde dos trabalhadores. Desse modo, proporciona aos profissionais de saúde um melhor direcionamento quanto à sua investigação clínica, de modo a considerar o conjunto dessas variáveis na elaboração das hipóteses diagnósticas. Ainda, desafia os profissionais de saúde a (re)pensarem sua prática no desenvolvimento de outras atividades de vigilância em saúde, elaboradas com base na complexidade e no reconhecimento dos riscos ocupacionais presentes em cada processo produtivo.

A VISAT, sobretudo na AB, ainda tem muito a avançar. Uma VISAT mais resolutiva, planejada e executada em consonância com as particularidades dos processos produtivos nos territórios implica na diminuição das subnotificações das doenças relacionadas ao trabalho. Essa, aliás, é uma grande lacuna dos serviços de saúde que ainda não conseguimos superar.

Algumas limitações devem ser consideradas nesta pesquisa. O desenho metodológico do tipo transversal não possibilita inferir o nexo causal entre a exposição e os desfechos de interesse. Dessa maneira, podemos nos reportar aos achados deste estudo apenas como fatores probabilísticos, sem realizar inferência ou nexo de causalidade33 . Outra fragilidade refere-se à caracterização das variáveis dependentes, já que as mesmas foram autorreferidas, e não mediante processo avaliativo de anamnese feita por profissional médico capaz de classificar os sintomático-respiratórios. A possibilidade da ocorrência de viés de memória entre os trabalhadores sintomático-respiratórios também deve ser considerada.

 

CONCLUSÃO

O reconhecimento dos processos produtivos nos territórios deve ser entendido pelos profissionais da AB como ponto de partida para as ações de VISAT, não podendo limitar suas ações apenas a esse procedimento. É preciso avançar em direção à qualificação dessas ações, buscando correlacionar as características dos processos produtivos, seus riscos ocupacionais e possíveis interações fisiopatológicas com o perfil de morbimortalidade da população atendida.

Nesse sentido, o monitoramento biológico dos trabalhadores pode servir como uma importante ferramenta para o planejamento das ações de VISAT. Além disso, apresenta potencial para o desenvolvimento de medidas de promoção da saúde e prevenção de doenças mais eficazes, tendo em vista a identificação precoce de sinais e sintomas preditivos para a ocorrência de agravos.

Dessa forma, auxilia no diagnóstico precoce, no tratamento e mesmo na redução dos fatores de risco para a ocorrência de doenças ocupacionais em diferentes categorias profissionais, sobretudo na construção civil. Contribui para a elaboração de planos terapêuticos mais eficazes, na medida em que se reconhece a influência dos riscos ocupacionais na ocorrência das doenças. Abre ainda um leque de opções para o desenvolvimento de atividades intersetoriais entre os diversos atores que compõem os campos da saúde e segurança no trabalho.

 

AGRADECIMENTOS

Agradecemos especialmente a todos os trabalhadores que participaram ativamente da pesquisa, aos sindicatos, à Universidade Federal de Mato Grosso e ao Centro de Referência em Saúde do Trabalhador do Mato Grosso (CEREST-MT), o apoio ao desenvolvimento da pesquisa; e também ao Ministério Público do Trabalho, o financiamento desta pesquisa.

 

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Recebido em 26 de Abril de 2018.
Aceito em 25 de Março de 2019.

Fonte de financiamento: nenhuma


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