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ARTIGO ORIGINAL

Prevalência e fatores relacionados a transtornos mentais comuns entre professores da rede municipal de ensino, Uberlândia, Minas Gerais, Brasil

Prevalence and factors associated to common mental disorders among municipal teachers in Uberlândia, Minas Gerais, Brazil

Luciana Cristina Machado; Jean Ezequiel Limongi

DOI: 10.5327/Z1679443520190424

RESUMO

INTRODUÇÃO: O estudo sobre a associação de transtornos mentais comuns (TMC) em docentes e as condições em que seu trabalho é realizado é necessário para melhor compreender as razões de adoecimento físico e mental dessa categoria.
OBJETIVO: Este estudo pretende estimar a prevalência de TMC em professores da rede pública de ensino fundamental de Uberlândia (MG) e associá-los a condições sociodemográficas, ambientais e laborais.
MÉTODOS: Uma amostra aleatória de 330 professores lotados em 36 escolas foi explorada neste estudo transversal. Foram utilizados dois instrumentos de coleta de dados: o General Health Questionnaire-12 (GHQ-12) e um questionário estruturado com questões relativas aos possíveis fatores de risco e proteção no desenvolvimento de TMC. Os dados foram analisados por meio de análise bivariada e, posteriormente, por regressão logística.
RESULTADOS: Foram indicados como fatores de risco associados ao desenvolvimento de TMC o sexo feminino, vínculo efetivo de trabalho, lotação em dois turnos, experiência com violência no ambiente escolar e uso de medicamentos para distúrbios do sono.
CONCLUSÃO: Os resultados apontam que a saúde mental do professor carece de cuidados e comprometimento nas ações, visto que a saúde desses profissionais afeta diretamente os ciclos de ensino-aprendizagem. A redução do absenteísmo, presenteísmo, rotatividade, aposentadorias precoces e licenças médicas diminuem os custos para o Estado e trazem benefícios que se estendem para toda a sociedade.

Palavras-chave: docentes; transtornos mentais; saúde do trabalhador; saúde mental.

ABSTRACT

BACKGROUND: Association analysis between common mental disorders (CMD) and working conditions is necessary to achieve a better understanding of the reasons for physical and mental illness among teachers.
OBJECTIVE: In the present cross-sectional study we sought to establish the prevalence of CMD among teachers in public municipal elementary schools in Uberlândia, Minas Gerais, Brazil, and its correlation with sociodemographic, environmental and occupational aspects. Methods: A random sample of 330 teachers from 36 schools responded the General Health Questionnaire-12 and a structured questionnaire designed to investigate risk and protective factors for CMD. The collected data were first subjected to bivariate, then to multiple logistic regression analysis.
RESULTS: The results indicate that the following characteristics were associated with CMD: female sex, permanent employment relationship, working double shifts, previous experience with school violence and use of sleep disorder drugs.
CONCLUSION: We conclude that the mental health of teachers does not receive the proper attention and care even though it has direct impact on the teaching-learning cycle. Decreasing the rates of absenteeism, presenteeism, turnover, early retirement and sick leave reduces the government's costs, while positive impacts extend to society at large.

Keywords: faculty; mental disorders; occupational health; mental health.

INTRODUÇÃO

As mudanças que acontecem no mundo do trabalho modificam o perfil epidemiológico dos trabalhadores por causa da reestruturação produtiva crescente e da globalização, afetando diretamente o cotidiano laboral e alterando substancialmente a prevalência de doenças relacionadas ao trabalho1. Doenças ocupacionais anteriormente causadas por lesões musculoesqueléticas e disfonias abrem espaço para os transtornos mentais relacionados ao desgaste, sobrecarga laboral, ritmo exaustivo e conflitos interpessoais no ambiente de trabalho2. Nesse sentido, a saúde mental do professor é um tema que vem adquirindo destaque, visto que é considerada umas das atividades mais estressantes3.

O transtorno mental é uma síndrome caracterizada por perturbação clinicamente significativa na cognição, na regulação emocional ou no comportamento de um indivíduo. Tal comportamento reflete uma disfunção nos processos psicológicos, biológicos ou de desenvolvimento subjacentes ao funcionamento mental. Os transtornos mentais estão frequentemente associados a sofrimento ou incapacidade significativos que afetam atividades sociais, profissionais ou outras consideradas importantes4.

O TMC é diagnosticado em indivíduos que apresentam sinais ou sintomas como irritação, ansiedade, depressão, insônia, fadiga, dificuldade de concentração, esquecimento, e acarreta desdobramentos de cunho biológico, cultural, social, político e econômico, apresentando alta prevalência na população mundial5. A síndrome pode alterar, ainda, o humor e os pensamentos, causando tristeza excessiva e angústia permanente, culminando em transtornos no âmbito pessoal, social, laboral e ocupacional6. Os TMCs apresentam baixo índice de mortalidade e letalidade, por esse motivo foram por muito tempo subestimados em saúde pública, sendo reconhecidos como grave problema apenas em 19966.

Entre professores, os TMCs são queixas frequentes. Lecionar é um ato que necessita preparo e dedicação do docente. Muitas vezes esses profissionais estão sobrecarregados e acabam por desenvolver doenças físicas ou psicológicas em decorrência disso. Ademais, baixos salários, falta de motivação, pouco investimento no sistema educacional, podem levar ao adoecimento dessa categoria de trabalhadores. Somado a isso, a violência nas escolas tornou-se um grave problema social, contribuindo para o desgaste e estresse, pois as instituições de ensino deixaram de ser locais seguros e protegidos, englobando as situações geradoras de conflitos no entorno dos locais onde estão instaladas7.

Os transtornos mentais são os principais causadores de afastamento por longos períodos, conferindo riscos para o bem-estar, afetando comportamento e emoções8. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a docência é considerada uma profissão de alto risco, ocupando o segundo lugar em categoria profissional no mundo a adquirir doenças ocupacionais9.

A condição mental do professor afeta diretamente a qualidade do ensino e a estrutura do sistema educacional. Além disso, pode levar a um problema social, já que interfere em custos organizacionais e de pessoal, por exemplo, com rotatividade, absenteísmo, produtividade, entre outros10. Estudo realizado no município de Uberlândia (MG) sobre aposentadorias precoces revelou situação agravante nos quadros de doenças crônicas, entre elas o transtorno mental entre professores da rede pública municipal11. Os autores desse estudo atribuem essa situação à falta de investimentos e ações mais efetivas em programas de promoção de saúde, saúde mental e reabilitação dos trabalhadores.

O estudo sobre o professor em seu contexto específico, analisando os fatores psicossociais individuais e os inerentes ao próprio ambiente laboral, correlacionando-os com o processo de adoecimento mental, é fundamental para maior compreensão e abordagem do trabalho docente. Este estudo teve como objetivo detectar a prevalência de TMCs entre docentes de ensino fundamental da rede pública municipal do município de Uberlândia (MG) e associá-la a características sociodemográficas, de saúde e ocupacionais dos indivíduos participantes.

 

MÉTODOS

Foi realizado um estudo transversal entre docentes de ensino fundamental das escolas municipais do município de Uberlândia (MG). O município tem população, estimada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no ano de 2017, de 676 mil habitantes. Possui 127 escolas localizadas nas zonas urbana e rural, sendo 69 de educação infantil, 56 de ensino fundamental, uma escola de cursos livres e um centro de estudos e projetos educacionais. Participaram da pesquisa as escolas da rede municipal de ensino fundamental com mais de 40 professores. No total, 36 escolas atenderam a esse critério. Foi considerado um erro máximo permitido de 5%, grau de confiança de 95% e prevalência de TMCs entre professores de 50% (valor utilizado para se obter um máximo de amostras). A amostra calculada foi de 330 docentes. Posteriormente foi realizada amostragem estratificada proporcional, baseando-se no número de professores por escola.

Foram utilizados dois instrumentos de estudo em forma de questionários estruturados. O primeiro continha questões referentes a condições sociodemográficas e de saúde (idade, gênero, estado civil, número de filhos, escolaridade, renda, tabagismo, atividade física, consumo de bebidas alcoólicas, uso de medicamentos para hipertensão, diabetes e distúrbios do sono e presença de doenças crônicas). Abordou-se, ainda, a inserção no trabalho e carga horária (trabalho em outra escola, readaptação funcional, outra função remunerada, meio de transporte utilizado para o trabalho, tempo de docência, carga horária semanal, número de turnos trabalhados e tipo de vínculo empregatício). Por fim, interrogou-se sobre a experiência com violência no ambiente escolar, por alunos, pais ou outros professores. Esse questionário foi uma adaptação do utilizado por Gasparini et al.7. Foram incluídas nessa versão as variáveis "presença de doenças crônicas", "tipo de vínculo com a escola" e "agressão externa". Nas variáveis sobre a violência, foram estratificadas tanto a violência física quanto a psicológica.

O segundo instrumento utilizado foi o GHQ-12, questionário validado, composto de 12 perguntas, que visa identificar a existência de transtornos mentais. O GHQ foi concebido como método de rastreamento de transtornos psíquicos no âmbito clínico da saúde geral. Em sua forma original, ele conta com sessenta itens respondidos em escala tipo Likert de quatro pontos. Sua ampla utilização permitiu criar versões reduzidas, tornando sua aplicação mais curta. Existem versões contendo 60, 30, 28 e 12 itens, e todas são validadas e adaptadas conforme o estudo, apresentando boa confiabilidade e consistência12.

Todos os itens possuem um sistema de pontuação que varia de acordo com as seguintes opções: "melhor/mais saudável que o normal", "o mesmo que de costume", "pior/mais do que o habitual", "muito pior/mais do que o habitual". A expressão exata depende da natureza particular do item. Existem quatro possíveis métodos de calcular os escores e neste trabalho escolhemos o recomendado pelo autor do método, no qual as duas primeiras respostas têm peso 0 e as duas últimas peso 1. Neste estudo, foi adotado um ponto de corte maior ou igual a 4 pontos, com o qual o indivíduo já é considerado alterado no que concerne a sua função psíquica habitual, com sintoma de algum transtorno psíquico.

Primeiramente, os pesquisadores contataram a Secretaria Municipal de Educação do município para obter autorização para realização da pesquisa nas escolas no município. Foi elaborado um termo assinado pela secretária de educação para ser apresentado nas abordagens aos diretores escolares. Os questionários foram entregues individualmente, para cada professor, e não pediam identificação para evitar constrangimento, exposição por causa das questões pessoais abordadas. Dessa forma, esperava-se obter maior adesão com vistas a atingir a veracidade dos dados.Os docentes foram orientados quanto aos objetivos e riscos da pesquisa por meio do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), o qual todos os participantes assinaram.

Os dados foram digitados em um banco de dados construído especificamente para este estudo por meio do programa computacional Epi Info versão 7.1.3. e analisados nesse mesmo programa. A análise procedeu-se da seguinte maneira:

• Distribuição da frequência das variáveis coletadas para a população pesquisada e consistência dos dados: primeiramente, foi verificada a consistência dos dados. Posteriormente, foi realizada a distribuição de frequências de todas as variáveis pesquisadas, caracterizando-se a população estudada segundo aspectos demográficos, socioeconômicos e fatores relacionados aos transtornos mentais;

• Análise bivariada: as variáveis pesquisadas foram listadas para investigar as possíveis relações entre os transtornos mentais e fatores demográficos e socioeconômicos dos participantes da pesquisa. Nas comparações para duas proporções, foi utilizado o teste exato de Fisher ou teste χ2 (α=5%). Para as variáveis contínuas, foram calculadas as medidas de dispersão e, para a comparação dessas variáveis, foram utilizados o teste não paramétrico Wilcoxon-Mann-Whitney (teste U) ou o teste t de Student, dependendo da normalidade dos dados (α=5%). Para quantificar a associação entre os possíveis fatores associados com os transtornos mentais, foi usada a odds ratio (OR). Em comparações de variáveis com mais de duas categorias, foi utilizada a regressão logística.

Foram realizadas análises multivariadas usando o modelo de regressão logística na sequência seguinte:

• seleção preliminar de variáveis da análise bivariada, incluindo aquelas em que p<0,20;

• construção de modelos logísticos intermediários usando diferentes subgrupos (variáveis demográficas e sociais, carreira de docência, hábitos de vida, condições de trabalho). Variáveis atingindo níveis de significância de p<0,15 foram mantidas nesses modelos;

• construção de um modelo final, mantendo apenas as variáveis que atingiram níveis significativos de p<0,05.

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Uberlândia, Minas Gerais, Brasil (Registro 1.776.717/2016).

 

RESULTADOS

A amostra foi representada por um total de 330 professores, predominantemente mulheres (88,2%). A idade variou entre 22 e 70 anos, com média de 43,5±9,73 anos. Com relação ao estado civil, a maior parte (64,6%) declarou ser casado ou ter uma união consensual, seguido de solteiros (18,6%), divorciados (15,2%) e viúvos (1,6%). O nível de escolaridade mais frequente foi a especialização, representando 68,7%, em seguida, ensino superior (23,1%), mestrado (7%), doutorado (0,9%) e ensino médio (0,3%). Na avaliação sobre os hábitos de vida, verificou-se que 58,5% praticam exercícios físicos, distribuídos da seguinte forma: até 2 vezes por semana (26,9%) e 3 ou mais vezes (31,6%). Entre os professores, 87% relataram não serem tabagistas, 6,1% afirmaram ser fumantes e 6,9% declararam-se como ex-tabagistas. Em relação ao consumo de bebidas alcoólicas, 79,6% responderam que não ingerem álcool. Ao serem interrogados sobre seus antecedentes patológicos, constatou-se 6% de diabéticos, 17,5% de hipertensos, 9% possuem alguma tireoidopatia e 2,4% algum tipo de neoplasia. O uso de medicamentos para diabetes foi relatado por 6% dos docentes, anti-hipertensivos por 19,6% e 15,3% relataram fazer uso de remédios para dormir. Sobre inserção e carga de trabalho, 38,1% relataram trabalhar em outra escola, 5,2% estão em readaptação funcional e 22% responderam exercer alguma outra atividade remunerada. A maioria dos interrogados trabalha durante dois turnos (66%), 32% disseram trabalhar por um turno e 2% laboram em três jornadas. O vínculo efetivo representou a maior parte da amostra, correspondendo ao total de 75,3%, enquanto os que exercem a função por contrato de trabalho corresponderam a 11,1% e ambos vínculos 13,5%. Em relação ao meio de transporte utilizado para deslocar-se para o trabalho, 77,6% utilizam meio próprio. A média de carga horária semanal foi de 30 horas e o tempo médio de docência de 16,2 anos. A experiência com violência física na escola, cometida por alunos, foi relatada por 30,6% dos professores, sendo que 16,7% disseram que aconteceu mais de uma vez. A agressão física por pais de alunos totalizou 11,2% dos casos, sendo 4,2% corresponde a mais de um episódio. Por fim, a violência na escola cometida por outros funcionários apareceu em 7,6% dos casos e 3,3% responderam que a ocorrência não foi única. No quesito violência psicológica, a violência por alunos, somou 42,2%, destes, 26,6% relatam ter havido mais de um episódio. A agressão psicológica por pais de alunos correspondeu a 32,8%, com 18,8% dos casos ocorrendo mais de uma vez, e, por parte de funcionários, 20% dos professores sofreram esse tipo de violência, 13,9% ocorrendo em mais de uma ocasião.

No que tange à percepção sobre o trabalho desenvolvido, a maioria considerou a margem de autonomia (41,6%) e a possibilidade de ser criativo (63,5%) grandes, enquanto 48,6 e 35,3%, respectivamente, as consideraram razoáveis. Uma minoria considerou pequenas a margem de autonomia (9,8%) e a possibilidade de ser criativo (1,2%). O tempo para correção dos trabalhos escolares e para preparação das aulas foi considerado razoável por 61 e 65,4% dos docentes, respectivamente, enquanto 26,5% consideraram pouco ou muito (12,5%) o tempo de correção dos trabalhos e ainda pouco ou muito tempo para preparação das aulas (17,3 e 17,3%). Sobre os recursos didáticos disponíveis, a maioria faz uso de TV e vídeo (86,1%), e respondeu que os alunos possuem acesso à internet (59%) embora 59,2% considerou que o número de computadores disponíveis não é suficiente para os alunos. Ao serem interrogados sobre o ambiente físico escolar, o ruído gerado na sala de aula, na escola e fora dela foi considerado desprezível a razoável pela maior parte (58,7, 87,1 e 56,7%) respectivamente, enquanto a outra parte considerou elevado a insuportável. Quanto à ventilação, 42,8% disse ser razoável, 33,3% satisfatória e 23,9% precária. Quanto à satisfação sobre a iluminação na sala de aula e as condições das paredes, a maior parte considerou razoáveis os itens iluminação (43,3%) e paredes (49,5%). O restante considerou satisfatória (42,1 e 31,3%) e precária (14,6 e 19,2%) os itens avaliados respectivamente sobre luminosidade e paredes.

No rastreamento dos TMCs, foi detectada prevalência de 43,9% na amostra de professores contatados (escore=4).

Na análise bivariada, foi encontrada a associação entre TMC e o sexo feminino, além da renda familiar entre R$ 3.001 e R$ 4.500, uso de medicamentos para distúrbios do sono e presença de tireoidopatias (Tabela 1). Na Tabela 2, o tempo de docência igual a 20 anos e o vínculo efetivo ou ambos (cargo efetivo + contrato de trabalho) apresentaram associação com os TMCs.

 

 

 

 

Observou-se que os TMCs foram mais frequentes entre professores que relataram violência psicológica/moral por alunos, uma vez ou mais, e violência por pais de alunos mais de uma vez e violência por funcionários, tanto uma como mais vezes (Tabela 2). A margem de autonomia considerada razoável, ruído dentro e fora da sala de aula elevado a insuportável, ventilação razoável a precária e iluminação razoável também foram identificados como fatores de risco nas variáveis analisadas na Tabela 3.

 

 

Na análise de regressão logística múltipla, realizada separadamente para cada conjunto de fatores previamente analisados, mantiveram-se associadas a presença de TMC no bloco de características demográficas - o sexo e a renda familiar entre R$ 3.001 e R$ 4.500. No bloco "Comportamento relacionado à saúde e relato de morbidade crônica", o uso de medicamentos para distúrbios do sono e presença de tireoidopatias permaneceram associadas, assim como no bloco "Inserção e carga de trabalho" permaneceram associadas as variáveis trabalho em dois turnos e vínculo concursado. Na análise sobre violência, apenas a agressão psicológica e moral por parte dos alunos mais de uma vez se manteve associada aos TMCs e nenhuma associação foi considerada significativa na análise sobre percepção, ambiente físico e recursos (Tabela 4).

 

 

Na análise final de regressão, na qual foram verificadas todas as variáveis e seus efeitos simultâneos, a prevalência dos TMCs apresentou associação significante com o sexo, e o feminino foi considerado fator de risco. No que concerne o comportamento relacionado à saúde e morbidade crônica relatada, apresentou significância apenas o uso de medicamentos para distúrbios do sono (fator de risco) (Tabela 5).

 

 

Sobre os resultados referentes à inserção e carga de trabalho, mostrou associação positiva o trabalho em dois turnos e o vínculo efetivo. No quesito violência na escola, os TMCs foram mais frequentes em professores que relataram agressão psicológica e moral dos alunos por mais de uma vez, sendo considerado fator de risco. Os TMCs não apresentaram significância estatística com nenhuma variável sobre a percepção sobre o trabalho, recursos pedagógicos disponíveis e ambiente físico escolar (Tabela 5).

 

DISCUSSÃO

A prevalência de TMC neste estudo foi inferior que a encontrada entre professores do ensino fundamental da rede municipal de ensino de Belo Horizonte (50,3%)7 e do Paraná (75%)13. Resultado semelhante (44%) foi encontrado em uma amostra de professores do ensino infantil municipal da rede pública e de escolas particulares em estudo realizado em Vitória da Conquista no estado da Bahia14.

A pesquisa mostrou alta prevalência de TMCs, com destaque para as professoras, que apresentaram risco de ter tais transtornos 2,6 vezes maior que os homens. Além disso, grande parte da amostra foi composta por mulheres. O fato de haver mais professoras pode ser explicado pelas modificações da educação brasileira a partir da segunda metade do século XX. Com a ampliação do acesso à educação, exigiu-se maior contingente de trabalhadores no ensino e, na época, a atividade de educar era considerada tipicamente feminina, assim com a enfermagem, pois envolvia o cuidado com o próximo, sendo também uma continuidade das tarefas domésticas como uma "mãe educadora"14. A prevalência maior de TMCs em mulheres pode ser explicada por causa da extensa jornada de trabalho (escola e lar), sentimento de culpa por não conseguirem tempo adequado para realizar atividades domésticas e profissionais, falta de tempo para lazer e descanso, além da desvalorização do seu trabalho e envolvimento pessoal com as demandas sociais dos alunos14.

Verificou-se que os TMCs foram mais prevalentes em indivíduos que utilizavam medicamentos para distúrbios do sono, efetivos, lotados em dois cargos e que tinham relatado experiência com violência no ambiente escolar por parte de alunos em mais de um episódio. Não houve associação dos TMCs com nenhuma das variáveis sobre percepção do trabalho, recursos pedagógicos disponíveis e ambiente físico escolar. As alterações do sono podem comumente ser um alerta inicial na sintomatologia dos transtornos mentais, em conjunto com outros sinais como estresse, ansiedade, esgotamento físico e mental, cansaço e irritabilidade7. Isso pode justificar a associação encontrada neste estudo entre os TMCs e o uso de medicamentos para distúrbios do sono. Outros estudos também demonstraram essa associação7,13,15. A estabilidade no trabalho por meio do vínculo efetivo, o que geralmente representa um aspecto positivo visto que proporciona certa seguridade financeira, pode contribuir para a ocorrência de TMCs de acordo com os resultados deste estudo. A efetivação no cargo pode funcionar como agente de estagnação no sentido profissional e a perda de interesse em procurar outra atividade que melhor satisfaça as suas necessidades pessoais e proporcione novos desafios, permanecendo o professor insatisfeito no ambiente que labora e trabalhando de forma aquém ao seu potencial10.

Em virtude dos baixos salários, pode surgir a necessidade de trabalhar em mais de um turno para complementar a renda mensal, obrigando os professores a uma sobrecarga laboral, muitas vezes em diversas escolas e redes de ensino diferentes (estadual ou particular). Ademais, dificulta a formação de vínculos entre os colegas de trabalho e desenvolvimento das relações interpessoais, que poderiam servir de fortalecimento e apoio16. Isso pode explicar o fato de os professores que trabalham em dois turnos apresentarem TMCs mais frequentemente. Além disso, a sobrecarga laboral sucessiva impede a realização de atividades físicas, o que também contribui para o surgimento de TMCs. Em um estudo realizado entre docentes do ensino superior, demonstrou-se que a prática de atividades físicas atua como fator de proteção contra esses transtornos2. Programas efetivos de promoção de saúde para docentes podem ter efeitos satisfatórios, desde que sejam realizados no ambiente escolar e em horários dedicados exclusivamente para tais fins.

A ameaça da violência nas escolas e o medo constante pode ser percebido nos professores como uma reação de estresse constante. A indisciplina dos alunos vai para além dos muros das escolas e se estende para a esfera policial e judicial, deixando marcas físicas e psicológicas nos docentes17. A violência no ambiente escolar reflete uma realidade social exterior a ela, trazendo situações cotidianas vivenciadas pelos próprios alunos18. Neste estudo, a violência psicológica/moral se manteve associada à presença de TMCs no modelo de regressão final, demonstrando que este tipo de violência, que muitas vezes é negligenciada em detrimento da violência física, possui papel importante na saúde mental desses profissionais. A presença de psicólogos nas escolas para trabalhar as questões sociais e emocionais que afetam o processo de ensino e aprendizagem, tema debatido na esfera pública há algum tempo, pode melhorar o convívio escolar. Os, resultados deste estudo, assim como outros pelo Brasil, demonstram que a presença desse profissional na educação tornou-se imperativo.

A grande maioria dos docentes possuía nível superior de escolaridade, o que pode ser explicado pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação, de 1996, instituída com a reforma educacional dos anos 1990, que exigiu nível de escolaridade superior para todos os docentes que ingressassem no trabalho após essa data19. Isso, de certa forma, contribuiu para melhor qualificação dos docentes e estímulo para ingresso no ensino superior.

Embora nenhuma variável sobre a percepção do ambiente físico escolar tenha sido estatisticamente significante na análise multivariada, a falta de ventilação, o ruído excessivo, as más condições das paredes da sala de aula e iluminação precária tornam o ambiente desconfortável e a realização do trabalho em condições adversas pode gerar prejuízos e perda da qualidade do ensino7. De forma geral, as escolas municipais em Uberlândia (MG) possuem boa infraestrutura, se comparadas com as escolas estaduais, o que pode ter contribuído para a não associação com os TMCs.

A margem de autonomia e a possibilidade de ser criativo no trabalho, estão relacionadas aos recursos cognitivos pessoais que são mobilizados para responder às exigências do trabalho, pois os indivíduos elaboram uma situação esquemática da situação real e decidem ações apropriadas e direcionadas para atingir o objetivo proposto presente no cotidiano20. Neste estudo, essas variáveis estiveram associadas aos TMCs na análise bivariada, porém sem associação na regressão logística. No entanto, entende-se que elas são importantes para a realização pessoal e o desenvolvimento da subjetividade do professor.

Como limitação deste estudo, deve-se ressaltar que não foram diagnosticados os TMCs. Como não era esse o objetivo, visou-se apenas sugerir sofrimento psíquico ou sinais de adoecimento mental por meio do GHQ-12. Também não se verificou afastamento do trabalho por licenças médicas ocorridas pelo distúrbio e o abandono da profissão de professor pela condição de sofrimento gerada pelos transtornos.

Tabela 1. Associação entre transtornos mentais comuns, variáveis sociodemográficas, de comportamento relacionado à saúde e relato de morbidade crônica entre professores da rede municipal de ensino, Uberlândia, Minas Gerais, 2017, (n=330).

OR: odds ratio; IC95%: intervalo de confiança de 95%.

Tabela 2. Associação entre transtornos mentais comuns, variáveis de carga de trabalho e de violência física e psicológica/moral entre professores da rede municipal de ensino, Uberlândia, Minas Gerais, 2017 (n=330).

Tabela 3. Associação entre transtornos mentais comuns e variáveis sobre percepção do trabalho, recursos disponíveis e ambiente escolar entre professores da rede municipal de ensino, Uberlândia, Minas Gerais, 2017 (n=330).

OR: odds ratio; IC95%: intervalo de confiança de 95%.

OR: odds ratio; IC95%: intervalo de confiança de 95%.

Tabela 4. Modelos de regressão logística intermediário realizados separadamente para cada conjunto de fatores previamente analisados (variáveis que permaneceram estatisticamente significantes), Uberlândia, Minas Gerais, 2017 (n=330).

*p<0,05; **p<0,01; OR: odds ratio; IC95%: intervalo de confiança de 95%.

Tabela 5. Modelo final de regressão logística realizado com as variáveis que permaneceram estatisticamente significantes nos modelos de regressão dos conjuntos de fatores individuais, Uberlândia, Minas Gerais, 2017 (n=330).

*p<0,05; **p<0,01; OR: odds ratio; IC95%: intervalo de confiança de 95%.

 

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Recebido em 5 de Abril de 2019.
Aceito em 5 de Setembro de 2019.

Fonte de financiamento: nenhuma


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