Site Logo
ISSN (Impresso) 1679-4435 - ISSN Online 2447-0147
75
Visualizações
Acesso aberto Revisado por Pares
ARTIGO ORIGINAL

Fatores psicossociais e condições ambientais: sua influência na capacidade para o trabalho na área da assistência social

Psychosocial and environmental factors: influence on work ability among social assistance workers

Lívia Maria Roncoleta1; Iranise Moro Pereira Jorge2; Lígia Prado Maríngolo1; Mariana Ferreira Justino1; Fabiana Caetano Martins Silva-e-Dutra3

DOI: 10.5327/Z1679443520190408

RESUMO

INTRODUÇÃO: As condições de trabalho no serviço público podem levar a alterações na saúde e na capacidade para o trabalho quando realizadas em um ambiente com condições adversas.
OBJETIVO: Verificar a associação entre características ambientais e fatores psicossociais com capacidade para o trabalho em trabalhadores do Centro de Referência de Assistência Social de Uberaba, Minas Gerais. Método: Foram aplicados três questionários: levantamento de dados sociodemográficos; avaliação do ambiente de trabalho; e Índice de Capacidade para o Trabalho (ICT). Foram realizados análise descritiva e teste de Mann-Whitney-U.
RESULTADOS: Foram avaliados 41 trabalhadores com 40 anos de idade (DP=14,83) e maioria com ensino superior (82,9%). Foram observadas condições precárias de ventilação (75,6%), temperatura (78%) e equipamentos (75,6%). A maioria dos trabalhadores ficava sentada por muito tempo (65,9%) e trabalhava sem pausas (51,2%). Segurança pessoal ameaçada (31,7%), segurança dos pertences ameaçada (53,7%) e episódio de agressão pelo usuário (26,8%) ou pelo acompanhante/parente (19,5%) foram os fatores psicossociais mais frequentes. Média do ICT de 37,85 pontos, sendo 41,5% dos trabalhadores avaliados com capacidade para o trabalho ruim e moderada. O ICT apresentou associação com temperatura (p=0,015), recursos materiais (p=0,011), segurança pessoal ameaçada (p=0,005), episódios de violência entre funcionários (p=0,016) e episódio de violência do colega/chefia com usuário (p=0,035).
CONCLUSÃO: Os resultados confirmam a relação entre condições laborais e capacidade para o trabalho e mostram associação entre capacidade para o trabalho e presença de episódios de violência no trabalho.

Palavras-chave: avaliação da capacidade de trabalho; assistência social; saúde do trabalhador; condições de trabalho; riscos ocupacionais.

ABSTRACT

BACKGROUND: Poor working conditions might impair the health and work ability (WA) of public service workers.
OBJECTIVE: To investigate the association of work ability with environmental and psychosocial factors among workers at Social Assistance Reference Centers in Uberaba, Minas Gerais, Brazil. Methods: We administered three questionnaires: one to collect sociodemographic data, one for workplace evaluation and the Work Ability Index (WAI). The data were subjected to descriptive analysis and the Mann-Whitney U test.
RESULTS: The sample comprised 41 participants, with average age 40 years old (SD=14.83) most of whom had attended higher education (82.9%). The participants reported poor workplace ventilation (75.6%), temperature (78%) and equipment (75.6%). Most participants reported to spend long time sitting (65.9%) and absence of breaks (51.2%). Threats to personal safety (31.7%), personal belongings (53.7%) and aggression by service users (26.8%), escorts or relatives (19.5%) were the psychosocial factors most frequently reported. The average score on WAI was 37.85; 41.5% of participants were rated as with poor or moderate WA. WA was associated with workplace temperature (p=0.015), available material resources (p=0.011), threats to personal safety (p=0.005) and violence between coworkers (p=0.016) or between service users and workers and/or supervisors (p=0.035).
CONCLUSION: The results corroborate the existence of a relationship between working conditions and WA and evidenced association between WA and workplace violence.

Keywords: work capacity evaluation; social work; occupational health; working conditions; occupational risks.

INTRODUÇÃO

A organização da sociedade coloca o trabalho como principal atividade realizada na vida adulta, representando uma forma de afirmação da identidade e inserção social. A centralidade do trabalho está associada aos valores, habilidades e afinidades individuais, e é por meio do trabalho que a pessoa desempenha sua cidadania e participação social1. No Brasil, o setor público abrange um número significativo de trabalhadores, oferecendo diferentes serviços à população nas três esferas públicas: federal, estadual e municipal. De acordo com o Painel Estatístico de Pessoal, o número atual de servidores é de 1.276.275, registrando um aumento de 10% nos últimos 10 anos2. Os servidores públicos formam categorias heterogêneas de trabalhadores com características distintas, níveis educacionais diversos e variações de salários, assim como diferentes condições e demandas de trabalho3.

As condições de trabalho no serviço público podem contribuir tanto para a promoção da saúde em um ambiente de trabalho favorável, como oferecer condições adversas4. As demandas são analisadas por suas diferentes exigências físicas, como adoção de posturas inadequadas, ausência de pausas e permanência na mesma postura por longos períodos5. Além das demandas físicas, as condições de trabalho envolvem fatores psicossociais como controle sobre o trabalho, autonomia e autoridade para tomada de decisões, demanda psicológica, apoio social no trabalho, clima organizacional e episódios de violência relacionada ao trabalho6-10. Os aspectos psicossociais do trabalho apresentam natureza complexa, sendo definidos como riscos ou fatores psicossociais que resultam da interação entre aspectos organizacionais do trabalho e seus contextos sociais e ambientais6. Presentes no contexto de trabalho, as demandas físicas e psicossociais são consideradas fatores que impactam a saúde do trabalhador e interferem de forma relevante na produtividade, eficiência e capacidade para o trabalho5,8,10.

O termo capacidade para o trabalho (CT) foi desenvolvido na Finlândia com pressupostos fundamentados em um conceito holístico de saúde. A CT é avaliada a partir da autopercepção que o trabalhador tem de sua capacidade para realizar suas tarefas de acordo com os recursos físicos, mentais e sociais disponíveis11. A CT é influenciada por diversos fatores, como processo de envelhecimento, estilo de vida, aspectos sociodemográficos, organização e ambiente de trabalho, além das exigências físicas, mentais e sobrecargas de trabalho12,13. Assim, a CT é baseada no equilíbrio entre fatores relacionados ao trabalho, recursos individuais e o ambiente macrossocial do trabalhador14,15.

Diversos fatores ambientais e psicossociais se inter-relacionam e interferem na capacidade do trabalhador em diferentes atividades laborais. A análise da CT em diferentes categorias profissionais encontrou associações da CT com alta exigência física, levando à dor musculoesquelética e a distúrbios emocionais leves, além de associação com aspectos da qualidade de vida16-19. Além dessas evidências da relação entre CT e saúde, variáveis como características sociodemográficas e ocupacionais também foram desfechos relacionados à CT em trabalhadores de diversas áreas4,19. Essas investigações apontam os fatores que se associam à manutenção da CT de acordo com as condições do trabalho e suas principais exigências.

Na área da assistência social do setor público, os trabalhadores dos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) são responsáveis por efetivar a Política Nacional de Assistência Social (PNAS), oferecendo proteção básica e organizando a rede socioassistencial de um território para pessoas em situação de risco e vulnerabilidade social20. O contexto de atuação no CRAS associa demandas complexas trazidas pela população com uma estrutura precária e expõe o trabalhador a situações de desgaste21 que, relacionadas ao ambiente de trabalho, podem refletir em uma pior CT. Uma investigação qualitativa realizada em 2015 descreve as condições de trabalho dos trabalhadores dos CRAS como precárias e aponta para dificuldades no local de trabalho, como a operacionalização da PNAS, dificuldades em relação a espaço físico, falta de material e falta de pessoal para atender à demanda21.

No entanto, não são descritos estudos que avaliam as condições do ambiente de trabalho e suas características psicossociais entre trabalhadores da área de assistência social e que associam essas informações com a CT. Neste sentido, os objetivos deste estudo foram avaliar a CT e verificar a associação entre características ambientais e fatores psicossociais com a CT em trabalhadores dos CRAS de Uberaba, Minas Gerais. A hipótese deste estudo é que a presença de condições inadequadas no ambiente de trabalho e de riscos psicossociais irá influenciar de forma negativa a capacidade para o trabalho em trabalhadores dos CRAS.

 

MÉTODOS

DESENHO DO ESTUDO E PARTICIPANTES

Pesquisa de natureza quantitativa, do tipo observacional com delineamento transversal, aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) (CAAE 52647216.7.0000.5154, parecer nº 1.774.870). Os participantes eram trabalhadores dos oito CRAS do município de Uberaba, Minas Gerais, Brasil. De acordo com a Norma Operacional Básica (NOB) do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), Uberaba é considerado um município de grande porte e pode referenciar até 5 mil famílias para cada unidade do CRAS20. De forma geral, cada unidade compreende um espaço físico que contenha, no mínimo, recepção, uma ou mais salas para entrevistas e salão para reuniões, além das áreas de serviço ou atividades terapêuticas. A equipe mínima que compõe o CRAS conta com coordenador, assistente social, psicólogo, atendente administrativo e eventuais profissionais de outras áreas20.

Os dados dos trabalhadores dos CRAS foram fornecidos pela Secretaria de Desenvolvimento Social (SEDS) do município. A amostragem foi realizada por conveniência e todos os profissionais que preenchiam os critérios de elegibilidade foram convidados a participar da pesquisa, a saber: trabalhadores com idade superior a 18 anos, de ambos os sexos, exercendo qualquer função e que estivessem trabalhando há mais de 6 meses no mesmo CRAS. Trabalhadores com menos de seis meses de atuação no mesmo CRAS, que estavam afastados, de licença ou aposentados foram excluídos da amostra.

INSTRUMENTOS E PROCEDIMENTOS

Os participantes foram esclarecidos em relação aos objetivos e métodos do estudo e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). A coleta dos dados ocorreu entre os meses de novembro de 2016 e janeiro de 2017 em visitas a cada unidade do CRAS e compreendia três etapas, a saber: coleta de informações sociodemográficas, avaliação do ambiente de trabalho e da CT. Todos os participantes responderam às três etapas da pesquisa no próprio local de trabalho, de acordo com sua disponibilidade de tempo, em um único dia.

Na primeira etapa, os trabalhadores respondiam a um questionário com informações sociodemográficas sobre idade, sexo, escolaridade, número de filhos, renda mensal; hábitos de vida, como hábito de fumar e prática de atividade física; e informações ocupacionais que envolviam tempo de serviço, função, jornada de trabalho semanal e mensal e turnos de trabalho.

A segunda etapa avaliou o ambiente de trabalho utilizando o Protocolo de Avaliação do Ambiente de Trabalho, adaptado de Barbosa et al.22. Esse protocolo é composto de 25 questões organizadas em blocos de acordo com os seguintes temas: demanda física do trabalhador, ambiente físico do trabalho e clima organizacional. As perguntas relacionadas à demanda física do trabalhador e ao clima organizacional permitiam alternativas de respostas do tipo Likert em uma escala de quatro pontos. Já as perguntas sobre o ambiente físico do trabalho tinham como opção de respostas uma escala Likert de três pontos.

Na terceira etapa foi aplicado o Índice de Capacidade para o Trabalho (ICT) para a avaliação da CT. Esse foi desenvolvido pelo Instituto de Saúde Ocupacional de Helsinki, na Finlândia, traduzido e adaptado para o Brasil23. O ICT é uma autoavaliação do trabalhador acerca de sua capacidade de trabalho, constituído por dez questões que mensuram a percepção da CT, exigências físicas e mentais do trabalho, doenças diagnosticadas, incapacidade para o trabalho, absenteísmo, prognóstico próprio e recursos mentais11. O escore final do ICT varia de 7 a 49 pontos e a pontuação pode ser classificada em quatro diferentes categorias, sendo que: 7 a 27 pontos indicam baixa CT; 28 a 36 pontos classificam o trabalhador com capacidade moderada; 37 a 43 pontos indicam boa CT; e para 44 a 49 pontos, o trabalhador é avaliado com ótima CT23.

ANÁLISE DE DADOS

Os dados coletados foram analisados utilizando o software Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), IBM®, versão 20.0. A análise descritiva foi realizada por meio de frequência absoluta, porcentagem para variáveis categóricas e média e desvio padrão (DP) para as variáveis contínuas. Especificamente para esta pesquisa, as opções de resposta do Protocolo de Avaliação do Ambiente de Trabalho foram dicotomizadas em duas categorias (adequada e inadequada). A associação entre os fatores psicossociais e ambientais com a CT foi realizada pelo teste de Mann-Whitney-U, ponderando 5% de significância.

 

RESULTADOS

Foram avaliados 41 trabalhadores, a maioria mulheres (65,9%), com média de idade de 40,72 anos (DP=14,836). Do total, 58,5% vivem sem companheiro (solteiros, divorciados ou viúvos) e 51,2% têm filhos. Em relação à escolaridade, 82,9% tinham mais de 8 anos de estudo e 39% completaram o ensino superior. Considerando os fatores de risco relacionados aos hábitos de vida, 43,9% eram sedentários e 7,3%, fumantes. O tempo médio de trabalho na instituição foi de 48,7 meses (DP=59,55). Em anos, esses resultados equivalem a uma média de 4 anos de trabalho na mesma instituição (DP=4,96). A jornada diária foi de 6,90 horas de trabalho (DP=1,09) e a jornada semanal apresentou média de 33,61 horas (DP=9,07). A maioria desempenha funções de nível superior (56,2%), sendo 22% psicólogos, 22% assistentes sociais e 12,2% gerentes. Quanto ao turno, 63,2% dos participantes trabalhavam em um único turno (manhã ou tarde); 26,8% relataram trabalhar em turno noturno (às vezes ou sempre) e 19,5% tinham outro trabalho como complemento da renda mensal. A Tabela 1 apresenta as informações sociodemográficas, ocupacionais e de hábitos de vida de forma detalhada.

 

 

A análise das características do ambiente de trabalho apontou condições insatisfatórias para ventilação (75,6%), temperatura (78%), iluminação (48,8%), mobiliário (63,4%) e recursos e equipamentos (75,6%), o que indica uma percepção negativa das condições do ambiente de trabalho para a maioria dos participantes.

Em relação à análise das exigências físicas do trabalho, 65,9% ficam sentados a maior parte do tempo, 56,1% adotam posturas inadequadas e 34,1% ficam muito tempo em pé. Pouco mais da metade relata trabalhar sem pausas (51,2%), 34,1% relatam andar muito e 29,3% carregam peso excessivo com frequência.

Quanto aos fatores psicossociais relacionados ao trabalho, 97,6% dos trabalhadores não possuem sala para descanso, 58,5% não possuem armário para guardar pertences pessoais, 26,8% presenciaram agressão a um usuário, 19,5% presenciaram agressão ao acompanhante do usuário, 9,8% já presenciaram agressão entre chefes ou colegas e 7,3% presenciaram agressão de usuário a funcionários (chefes ou colegas). Quase metade dos trabalhadores (43,9%) sente a segurança de seus pertences e bens pessoais ameaçada no local de trabalho, 31,7% relatam sentir sua segurança pessoal ameaçada e 9,8% já pensaram em mudar seu local de trabalho por motivo de agressão. A Tabela 2 apresenta a descrição completa dos fatores ambientais e psicossociais dos trabalhadores.

 

 

O ICT apresentou média de 37,85 pontos (DP=8,14), variando de 17 a 49 pontos. De forma dicotomizada, 58,5% dos trabalhadores apresentaram CT adequada (31,7% boa e 26,8% ótima) e 41,5% apresentaram CT considerada inadequada (9,8% ruim e 31,7% moderada).

A associação entre CT e condições de trabalho foi estatisticamente significativa com temperatura (p=0,015), indicando que os trabalhadores inseridos em ambientes com temperatura inadequada tinham pior CT. Também houve associação significativa entre pior CT e recursos materiais insuficientes para realizar as tarefas (p=0,011). As demais características do ambiente de trabalho, como ventilação, iluminação, mobiliário e recursos e equipamentos não foram associadas com a CT (Tabela 3).

 

 

Na análise da CT em relação às exigências físicas das tarefas, a associação não foi significativa, indicando que as exigências físicas do trabalho não são fatores que influenciam na CT desse grupo avaliado (Tabela 4).

 

 

A Tabela 5 apresenta as associações entre os aspectos psicossociais e CT. Os trabalhadores com pior CT eram os que vivenciaram episódios de agressão entre funcionários e usuários (p=0,035), agressão entre funcionários (colegas e chefias) (p=0,016) e que sentiam sua segurança pessoal ameaçada no seu local de trabalho (p=0,005). Não houve associação significativa entre CT e os demais aspectos psicossociais avaliados.

 

 

DISCUSSÃO

Em relação ao perfil sociodemográfico dos trabalhadores, a amostra encontrada foi essencialmente feminina nas diversas funções nos CRAS, o que reforça a predominância de mulheres no trabalho relacionado à área da assistência social e também demonstra o aumento da ocupação feminina em funções públicas e em trabalhos com maior escolaridade24. Além disso, a amostra era composta em grande parte por assistentes sociais e psicólogos, que são profissões que, cultural e historicamente, concentram um grande percentual de mulheres como principais trabalhadoras24.

Da mesma forma, a alta escolaridade encontrada pode estar associada a essas funções que são centrais na PNAS, e têm o assistente social e o psicólogo como profissionais que compõem a equipe de referência básica para efetivação dos programas e serviços ofertados pelo CRAS20. Também existe a crescente demanda por trabalhadores mais qualificados, destacada pelo recrutamento de servidores para cargos de nível superior por meio de concursos públicos. Esse quadro acompanha o aumento na escolaridade geral dos funcionários nas diferentes esferas do setor público2. Em relação à idade, os trabalhadores dos CRAS são em sua maioria adultos jovens, o que corresponde à faixa etária produtiva com maior CT. Esse resultado também é encontrado no Censo SUAS 2017, realizado em relação aos trabalhadores dos CRAS de todo o território nacional25.

Já as características de hábito de vida dos trabalhadores apontam para um modelo de comportamento considerado saudável. Poucos participantes relataram hábito de fumar e a maioria pratica atividades físicas regularmente, que podem ser consideradas estratégias para lidar com as situações de alta demanda psicológica no trabalho. Na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), observou-se relação positiva entre a prática de atividades físicas e o nível de instrução da população, sendo maior o percentual de pessoas que praticavam atividade física entre adultos com mais escolaridade26. As atividades físicas são consideradas formas de se ajustar ao meio e contribuem para melhorar ou manter o estado geral de saúde, aumentando a motivação, a satisfação e a produtividade no trabalho27. Segundo Cordeiro e Araújo7, o estilo de vida dos trabalhadores é um marcador da CT, sendo que atividades de lazer, atividades físicas, o não uso de bebidas alcoólicas e do tabaco são preditores determinantes de uma CT adequada.

Em relação à carga horária, a jornada semanal e diária de trabalho encontrada na pesquisa também acompanha os resultados do Censo SUAS 2017, em que a maioria dos trabalhadores dos CRAS no Brasil trabalha em um único turno, indicando uma média de seis horas diárias de trabalho25. No presente estudo, os participantes que trabalhavam mais de seis horas diárias exerciam funções de gerente, agente social e serviços gerais, profissionais que ocupam funções com exigências distintas, podendo, assim, apresentar uma jornada de trabalho diferenciada.

Pesquisas atuais sobre CT apontam para o comprometimento de um importante percentual de trabalhadores, servidores públicos de diferentes categorias profissionais, como na saúde4,5,16,17, do judiciário19 e da educação18. Entre os participantes avaliados dos CRAS de Uberaba, mais de 40% apresentaram CT ruim ou moderada. Nesse contexto, ainda que a maioria dos trabalhadores apresente CT avaliada como adequada, o percentual de pessoas com capacidade baixa ou moderada é considerado alto. De acordo com Ilmarinen15, uma boa CT permite prolongar o tempo de participação e permanência na vida de trabalho, enquanto a CT comprometida pode originar um conjunto de consequências negativas, como afastamento do trabalho, acidentes e doenças físicas e mentais que afetam não apenas a atividade laboral, mas também o âmbito familiar, econômico e social do trabalhador.

Os resultados apresentados confirmam a relação entre as condições do ambiente laboral e CT em uma população de servidores públicos da área de assistência social e apontam para uma associação entre a CT e fatores psicossociais, em especial a insegurança e a presença de episódios de violência no ambiente de trabalho.

Observou-se alto percentual de condições inadequadas de ventilação, temperatura, equipamentos, mobiliário e recursos materiais. Em relação à iluminação, condições inadequadas podem causar dor de cabeça, consequências sobre a visão e tensão28. Temperatura e ventilação exercem efeito sobre o organismo, influenciando a sensação de calor, causando sonolência, diminuição da pressão arterial e da concentração27,28. Dessas condições, temperatura inadequada e falta de recursos materiais tiveram correlação com a CT. Esse resultado indica que trabalhadores com piores condições de temperatura e com escassez de materiais para realizar suas atividades apresentaram pior CT. Outros estudos analisam as condições de trabalho e sua relação com a CT, e sugerem que condições precárias prejudicam o desempenho laboral do trabalhador14, causam sofrimento3 e impactam negativamente sua saúde mental5, saúde física5,22 e a saúde como um todo4.

A associação da percepção negativa de temperatura como característica inadequada do ambiente de trabalho pode estar relacionada à disponibilidade de espaço físico para locação do CRAS. Dos oito CRAS em funcionamento no município de Uberaba, apenas dois foram construídos especificamente para essa finalidade e os demais funcionam em casas alugadas pela prefeitura para esse serviço. Essa realidade pode resultar em espaços insuficientes para a realização dos serviços e em condições que diminuem o rendimento no trabalho. Além das dificuldades relacionadas à temperatura no ambiente de trabalho, a falta de recursos materiais também apresentou resultados significativos e se associaram a uma pior CT. A redução de recursos financeiros destinados para as políticas sociais promove um sucateamento das instituições, que passam a trabalhar com equipamentos, materiais e recursos humanos insuficientes, comprometendo assim a efetivação de seu trabalho21.

A literatura indica associação positiva entre exigências físicas e a CT5,12,22, o que difere dos resultados encontrados neste estudo, em que não houve alterações da CT em profissionais que relataram alta demanda física. Em geral, maior exigência física está relacionada a desgaste muscular, posturas inadequadas, maior probabilidade de dor crônica musculoesquelética e agravos à saúde22. No entanto, as atividades desenvolvidas pelos trabalhadores dos CRAS são caracterizadas por tarefas com pouca exigência física e grande exigência mental, como tomada de decisão constante e resolução de problemas21. Esses são aspectos comuns no cotidiano de trabalho no CRAS que podem explicar a falta de associação entre CT e demandas físicas. Os resultados obtidos na análise das condições do ambiente e, principalmente, na análise dos fatores psicossociais do trabalho ajudam a confirmar essa hipótese.

A violência, como um fator psicossocial no local de trabalho, tem crescido nos últimos anos e constitui uma preocupação e um risco para a saúde dos trabalhadores. A associação encontrada neste estudo entre CT, falta de segurança e episódios de agressão no ambiente de trabalho confirma a relação entre clima organizacional e desempenho laboral. Os episódios de agressão e falta de segurança são descritos como situações de violência vividas pelo trabalhador, e violência no ambiente de trabalho é definida como atos violentos, incluindo agressões físicas ou verbais e ameaças de agressões direcionadas a pessoas no trabalho ou em serviço29. Entre os fatores com destaque no estudo de Fischer e Martinez9, abuso verbal no ambiente de trabalho por parte dos pacientes gerou tensão e medo entre os trabalhadores, influenciando o bem-estar e reduzindo a CT desses profissionais.

Outro estudo realizado com profissionais da saúde confirmou que situações de violência no local de trabalho podem deteriorar a saúde mental e física e levar à diminuição da autoestima, depressão, apatia, irritabilidade e distúrbios de memória30. Nesse sentido, é necessário observar o contexto em que os trabalhadores dos CRAS estão inseridos e sua real demanda de trabalho: em áreas periféricas; atendimento direto à população em situação de risco e vulnerabilidade; com serviços ofertados de porta aberta ao público, exposição a situações de risco psicossocial e violência, falta de recursos e materiais de trabalho, entre outros.

Nesse contexto, além da saúde física e da produtividade do trabalhador, o impacto da violência e insegurança no local de trabalho também influencia o desempenho e a oferta dos serviços no atendimento aos usuários do CRAS. A falta de segurança e os episódios de violência no trabalho são considerados aspectos psicossociais que resultam em tensão física e psicológica e geram mais violência entre os trabalhadores8. Gadegaard et al.10 analisaram a relação entre os efeitos de políticas e programas de prevenção de violência no trabalho em setores de alto risco e observaram que apoio do supervisor e de colegas de trabalho após um episódio de agressão auxilia na diminuição dos efeitos emocionais negativos relacionados à violência no trabalho. Esse apoio pode ser oferecido por meio de programas de prevenção que ofereçam treinamento para as equipes para reconhecer e administrar os comportamentos hostis entre clientes, usuários e funcionários, melhorando, assim, a resposta a incidentes de violência29.

O corte transversal se apresenta como ferramenta útil para descrever características da população, no entanto, produz uma representação que limita a análise de causualidade entre os fatores, retratando os resultados encontrados em um único espaço de tempo. Dessa forma, sugere-se o desenvolvimento de análises longitudinais que possam apontar quais fatores impactam na CT ao longo do tempo. Outra limitação encontrada é em relação ao tamanho da amostra, entretanto o percentual de indivíduos alcançados em relação à população total de trabalhadores dos CRAS de Uberaba foi de mais de 60%. Além disso, as características sociodemográficas e Dessa forma, sugere-se o desenvolvimento de análises longitudinais que possam apontar quais fatores impactam na CT ao longo do tempo. Outra limitação encontrada é em relação ao tamanho da amostra, entretanto o percentual de indivíduos alcançados em relação à população total de trabalhadores dos CRAS de Uberaba foi de mais de 60%. Além disso, as características sociodemográficas e ocupacionais dos trabalhadores deste estudo são semelhantes ao perfil profissional dos trabalhadores dos CRAS de outras cidades e de outras regiões25.

 

CONCLUSÃO

O presente estudo avança ao investigar trabalhadores da assistência social, suas condições de trabalho e a CT dessa população. Situações de violência e falta de segurança foram identificadas como potenciais fatores preditores da CT. Apesar de presente no ambiente de trabalho, em especial em locais que oferecem serviços públicos a populações de risco, apenas nos últimos anos a violência no trabalho tem sido uma preocupação, sendo considerada um risco à saúde ocupacional. A produção literária sobre esse assunto ainda é incipiente, tanto em relação ao estudo da violência no local de trabalho quanto ao fato de se considerar a percepção do trabalhador em relação ao seu ambiente de trabalho. A análise das condições do ambiente de trabalho e suas características psicossociais, associadas à CT, apresentaram resultados significativos e apontam episódios de agressão no ambiente de trabalho e falta de segurança como fatores de risco. Esses resultados mostram que diversas variáveis devem ser consideradas no planejamento e na implementação de ações e políticas que busquem manter ou melhorar a CT dos profissionais da assistência social. Em especial, destaca-se a necessidade de programas de prevenção de violência e de melhores condições de segurança no local de trabalho como forma de aumentar o desempenho dos trabalhadores na realização do trabalho e melhorar a qualidade dos serviços prestados.

 

AGRADECIMENTOS

Agradecemos à Secretaria de Desenvolvimento Social, a autorização para a realização da pesquisa; e aos trabalhadores dos CRAS, a participação voluntária neste estudo. O apoio financeiro foi concedido pelas agências governamentais Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) e Ministério da Educação (Proext MEX/Sesu).

 

 

REFERÊNCIAS

1. Kubo SH, Gouvêa MA. Análise de fatores associados ao significado do trabalho. Rev Adm. 2012;47(4):540-54. http://dx.doi.org/10.5700/rausp1057

2. Brasil. Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão. Painel Estatístico de Pessoal e Informações Organizacionais [Internet]. Brasil: Secretaria de Gestão de Pessoas e Relações do Trabalho no Serviço Público; 2018 [acessado em 23 out. 2018]. Disponível em: http://painel.pep.planejamento.gov.br/QvAJAXZfc/opendoc.htm?document=painelpep.qvw&lang=en-US&host=Local&anonymous=true.o

3. Tavares DS. O sofrimento no trabalho entre servidores públicos: uma análise psicossocial do contexto de trabalho em um tribunal judiciário federal [tese]. São Paulo: Universidade de São Paulo; 2003.

4. Alcântara MA, Sampaio RF, Assunção AÁ, Silva FCM. Work Ability: using structural equation modeling to assess the effects of aging, health and work on the population of Brazilian municipal employees. Work. 2014;49(3):465-72. https://doi.org/10.3233/WOR-131703

5. Alcântara MA, Assunção AA. Influência da organização do trabalho sobre a prevalência de transtornos mentais comuns dos agentes comunitários de saúde de Belo Horizonte. Rev Bras Saúde Ocup. 2016;41:e2. http://dx.doi.org/10.1590/2317-6369000106014

6. Alves MGM, Braga VM, Faerstein E, Lopes CS, Junger W. Modelo demanda-controle de estresse no trabalho: considerações sobre diferentes formas de operacionalizar a variável de exposição. Cad Saúde Pública. 2015;31(1):208-12. http://dx.doi.org/10.1590/0102-311X00080714

7. Cordeiro TMSC, Araújo TM. Capacidade para o trabalho entre trabalhadores do Brasil. Rev Bras Med Trab. 2016;14(3):262-74. http://dx.doi.org/10.5327/Z1679-443520165115

8. Aytaç S, Dursun S. The effect on employees of violence climate in the workplace. Work. 2012;41(Supl. 1):3026-31. https://doi.org/10.3233/WOR-2012-0559-3026

9. Fischer FM, Martinez MC. Individual features, working conditions and work injuries are associated with work ability among nursing professionals. Work. 2013;45(4):509-17. https://doi.org/10.3233/WOR-131637

10. Gadegaard CA, Andersen LP, Hogh A. Effects of violence prevention behavior on exposure to workplace violence and threats: a follow-up study. J Interpers Violence. 2018;33(7):1096-117. https://doi.org/10.1177/0886260515614558

11. Ilmarinen J, Tuomi K. Past, present and future of work ability. In: Proceedings of the 1st International Symposium on Work Ability; 2004. Helsinki: Finnish Institute of Occupational Health; 2004.

12. Godinho MR, Ferreira AP, Fayer VA, Bonfatti RJ, Greco RM. Capacidade para o trabalho e fatores associados em profissionais no Brasil. Rev Bras Med Trab. 2017;15(1):88-100. https://doi.org/10.5327/Z1679443520177012

13. Jacinto A, Tolfo SR. Riscos psicossociais no trabalho: conceitos, variáveis e instrumentos de pesquisa. Perspect Psicol. 2017;21(1):39-55. https://doi.org/10.14393/PPv21n1a2017-04

14. Martinez MC, Latorre MRDO, Fischer FM. Testando o Modelo da Casa da Capacidade para o Trabalho entre profissionais do setor hospitalar. Rev Bras Epidemiol. 2016;19(2):403-18. http://dx.doi.org/10.1590/1980-5497201600020016

15. Ilmarinen J. 30 years' of Work Ability and 20 years of Age Management. In: Nygård CH, Savinainen M, Kirsi T, Lumme-Sandt K, editores. Age Management during the Life Course. In: Proceedings of the 4th Symposium on Work Ability; 2011. Tampere: Tampere University Press; 2011.

16. Magnago TSBS, Beck CLC, Greco PBT, Tavares JP, Prochnow A, Silva RM. Avaliação da capacidade para o trabalho dos trabalhadores de enfermagem de pronto-socorro. Rev Eletr Enf. 2013;15(2):523-32. http://dx.doi.org/10.5216/ree.v15i2.15344

17. Paula IR, Marcacine PR, Castro SS, Walsh IAP. Capacidade para o trabalho, sintomas osteomusculares e qualidade de vida entre agentes comunitários de saúde em Uberaba, Minas Gerais. Saúde Soc. 2015;24(1):152-64. http://dx.doi.org/10.1590/S0104-12902015000100012

18. Amorim Santino T, Tomaz AF, Lucena NMG. Influência da Fadiga Ocupacional na Capacidade para o Trabalho de Professores Universitários. Ciênc Trab. 2017;19(59):86-90. http://dx.doi.org/10.4067/S0718-24492017000200086

19. Santos JF, Holanda ASS, Oliveira GSS, Mendonça CNG, Veras ACC, Leite FNTS. Relação entre qualidade de vida e capacidade para o trabalho em funcionários do poder judiciário. Rev Bras Med Trab. 2018;16(1):2-9. http://dx.doi.org/10.5327/Z1679443520180068

20. Brasil. Ministério de Desenvolvimento Social. Política Nacional de Assistência Social. Norma Operacional Básica - NOB/SUAS [Internet]. Brasil: Ministério de Desenvolvimento Social; 2004 [acessdao em 23 abr. 2018]. Disponível em: http://www.mds.gov.br/webarquivos/arquivo/assistencia_social/nob_suas.pdf

21. Vicente D. Desgaste mental de assistentes sociais: um estudo na área da habitação. Serv Soc Soc. 2015;(123):562-81. http://dx.doi.org/10.1590/0101-6628.037

22. Barbosa REC, Assunção AA, Araújo TM. Distúrbios musculoesqueléticos em trabalhadores do setor saúde de Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil. Cad Saúde Pública. 2012;28(8):1569-80. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2012000800015

23. Tuomi K, Ilmarinen J, Jahkola A, Katajarinne L, Tulkki A. Índice de capacidade para o trabalho. São Carlos: EdUFSCar; 2005.

24. Lima RL. Formação profissional em Serviço Social e gênero: algumas considerações. Serv Soc. 2014;(117):45-68. http://dx.doi.org/10.1590/S0101-66282014000100004

25. Brasil. Ministério do Desenvolvimento Social. Censo SUAS 2017 - Resultados Nacionais: Centros de Referência da Assistência Social, CRAS [Internet]. Brasil: Ministério do Desenvolvimento Social; 2018 [acessado em 23 out. 2018]. Disponível em: https://aplicacoes.mds.gov.br/sagirmps/portal-censo/

26. Brasil. Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios - PNAD. Práticas de esporte e atividade física: 2015 [Internet]. 2017 [acessado em 19 set. 2018]. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv100364.pdf

27. Almeida H, Brito-Costa S, Alberty A, Gomes A, Lima P, Castro FV. Modelos de stress ocupacional: sistematização, análise e descrição. Inter J Develop Educ Psychol. 2016;2(1):435-54. http://dx.doi.org/10.17060/ijodaep.2016.n1.v2.309

28. Santos PSF, Kitzberger J, Morais ACF, Lopes CT, Possamai DJ. Identificação de agentes estressores em trabalhadores de indústrias de Jaraguá do Sul. An Prod Acad Doc. 2008;12(2):185-200.

29. Occupational Safety and Health Act. Guidelines for preventing workplace violence for healthcare and social service workers. Washington, D.C.: Department of Labor Occupational Safety and Health Administration; 2016.

30. Scozzafave MCS, Camelo SHH, Soares MI, Rocha FLR, Gaioli CCLO, Leal LA. Violence as psychosocial risk in the work of psychiatric nurses and management strategies. Inter Arch Med. 2017;10(43):1-10. http://dx.doi.org/10.3823/2313

Recebido em 16 de Março de 2019.
Aceito em 19 de Julho de 2019.

Fonte de financiamento: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)


Indexadores

Todos os Direitos Reservados © Revista Brasileira de Medicina do Trabalho