Site Logo
ISSN (Impresso) 1679-4435 - ISSN Online 2447-0147
16
Visualizações
Acesso aberto Revisado por Pares
ARTIGO ORIGINAL

Transtornos depressivos como causa de absenteísmo entre profissionais da saúde pública no período entre 2009 e 2017 em Sergipe

Depressive disorders as a cause of absenteeism among public health professionals from 2009 to 2017 in Sergipe

Beatriz Rayane Oliveira Santana1; Amanda Oliveira Barros1; Roberta Machado Pimentel Rebello de Matos1; Deborah Pimentel1,2

DOI: 10.5327/Z1679443520190438

RESUMO

INTRODUÇÃO: Os profissionais da saúde dispõem-se a zelar pela saúde dos seus pacientes, entretanto a escassez de preocupação com sua vida, além da forma organizacional do trabalho e as difíceis relações interpessoais, os torna susceptíveis ao adoecimento físico e/ou mental.
OBJETIVOS: Descrever o perfil do servidor público estadual das áreas da saúde com afastamento do trabalho por depressão em Sergipe, bem como avaliar o índice de reincidência e as características do afastamento.
MÉTODOS: Estudo descritivo, de corte transversal, com coleta dos dados secundários do arquivo eletrônico da Secretaria de Estado do Planejamento, Orçamento e Gestão (Seplag) dos anos 2009 a 2017.
RESULTADOS: No período entre 2009 e 2017, afastaram-se 63 profissionais da saúde, com o total de 290 atendimentos. O perfil do profissional absenteísta correspondeu ao sexo feminino (90,5%), casado (54,0%) e com mestrado (33,3%). A categoria que mais se afastou foi o técnico de enfermagem (34,9%). A Classificação Internacional de Doenças mais prevalente do total de atendimentos foi F32 (episódios depressivos), em 26,5% dos casos. Entre os que apresentaram recidivas, a média foi de 3,6.
CONCLUSÃO: Os resultados mostraram que a depressão em profissionais da saúde tem alta prevalência, com uma realidade preocupante e que necessita de intervenções.

Palavras-chave: profissionais da saúde; absenteísmo; depressão.

ABSTRACT

BACKGROUND: Health care workers are available to provide care to patients, but lack of concern with their lives, work organization and difficult interpersonal relationships make them susceptible to physical or mental diseases.
OBJECTIVE: To establish the profile of health care workers in the public sector in Sergipe, Brazil, granted sick leave due to depression, frequency of relapse and characteristics of absenteeism. Methods: Cross-sectional and descriptive study in which we analyzed secondary data for the period from 2009 2017 available in the State Secretariat of Planning, Budget and Management electronic records.
RESULTS: Sixty-three workers required sick leave, representing a total of 290 medical legal examinations. Workers who required sick leave were mostly female (90.5%), married (54.0%), had a master's degree (33.3%) and were nursing technicians (34.9%). The most frequent diagnosis as per the International Classification of Diseases (ICD-10) was single major depressive disorder (F32), 26.5%. The average number of recurrent spells was 3.6 per worker.
CONCLUSION: The prevalence of depression among the analyzed health care workers was high and thus represents a cause of concern requiring intervention.

Keywords: health personnel; absenteeism; depression.

INTRODUÇÃO

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 13% do total de todas as doenças são transtornos mentais e comportamentais (TMC) e acometem cerca de 700 milhões de pessoas no mundo1. Há aumento no índice de acometimento de TMC, e, no topo desses transtornos, encontra-se a depressão2.

Depressão é um transtorno de humor caracterizado por cinco ou mais sintomas durante pelo menos duas semanas, e o humor deprimido sem motivo justificável e/ou a perda de prazer são dois deles3. Os outros sintomas são fadiga, variação no apetite e/ou peso, mudança no sono e na produção de atividades, pensamentos suicidas, alterações cognitivas e de memória e sentimento de culpa4,5. O transtorno associa-se com uma disfunção pessoal que pode recorrer em ciclos ou em períodos6.

A depressão possui uma terminologia na décima Classificação Internacional de Doenças (CID-10) que compreende o episódio depressivo (F32) e o episódio depressivo recorrente (F33). Já para a décima primeira edição (CID-11), a depressão é dividida em transtorno depressivo único (6A70) e transtorno depressivo recorrente (6A71) e foi apresentada para a adoção dos estados membros em maio de 2019 e deve entrar em vigor dia 1º de janeiro de 20227.

No século XVIII, o trabalho duro era considerado o melhor remédio para os deprimidos, já que a tristeza, o desânimo e o pensamento suicida eram apontados como resultados do corpo parado. No entanto, atualmente, essa realidade é considerada ultrapassada, pois se nota que o ambiente de trabalho pode influenciar negativamente a vida dos indivíduos2,8. O transtorno depressivo está associado à diminuição da produtividade, podendo ocasionar o afastamento do trabalho, quando o indivíduo é considerado incapacitado, seja por motivos de acidente, seja por doenças físicas ou psíquicas6,9.

No ranking da OMS, o Brasil é considerado o terceiro país do mundo em que há mais depressão - 5,8% da sua população1. Pressupõe-se ainda que, em 2020, a depressão será a principal causa de incapacitações no mundo10,11. No Brasil, transtornos mentais e comportamentais são a terceira causa de incapacidade para o trabalho, correspondendo a 9% da concessão de auxílio-doença e aposentadoria por invalidez12.

A depressão, já conhecida como mal do século, atinge todas as profissões, entretanto acomete com maior frequência os que interagem com pessoas que precisam de sua ajuda, ou seja, a equipe da saúde4. A graduação desses profissionais visa torná-los mecânicos e objetivos, esquecendo-se de oferecer o apoio psíquico e profissional tão importante para a humanização e o preparo psicológico para o ambiente hospitalar, evitando o seu adoecimento6,13.

Os trabalhadores e o ambiente hospitalar estão estruturados de forma diferente das demais organizações13. Existe a particularidade de necessitar de atendimento ágil e direcionado a cada paciente14. Essas condições podem gerar repercussão na vida desses profissionais. A enfermidade causa impacto nos pacientes, em seus familiares e também nos profissionais da saúde6. A rotina hospitalar diária ocasiona estresse e demanda psíquica e emocional dos profissionais da saúde, proporcionando o surgimento de doenças psíquicas6,13.

Dessa forma, podemos deduzir a existência de uma balança que, de um lado, pesa os objetivos e a infraestrutura de uma instituição e, de outro, a integralidade profissional. Assim, quando desequilibrada, pode desencadear o estresse. Ao mantê-la sem equilíbrio, o ambiente de trabalho poderá tornar os profissionais ansiosos ou até mesmo deprimidos. Os profissionais da saúde têm um ofício que os expõe a esse desequilíbrio diariamente. Eles estão sujeitos a um trabalho em horário rotativo, dividido em três turnos, com repercussões severas no âmbito biopsicossocial, afetando a sua qualidade de vida13. Além disso, lidam com a responsabilidade decorrente do cuidado humano, os constrangimentos resultantes dos conflitos com os pacientes, os relacionamentos interpessoais (com a chefia e os colegas de trabalho) e os riscos de contaminação presente no ambiente hospitalar6,10,13,14. É comum que as exigências desse tipo de trabalho acarretem o desequilíbrio da referida balança.

Diante disso, o presente estudo teve como objetivo identificar o perfil do servidor público estadual das áreas da saúde que foram afastados do trabalho por depressão em Sergipe entre 2009 e 2017, bem como avaliar o índice de reincidência e as características do afastamento.

 

MÉTODOS

Trata-se de um estudo descritivo e de corte transversal no período entre 2009 e 2017 em Sergipe. Foi realizado com base nos dados secundários de arquivo eletrônico da Secretaria de Estado do Planejamento, Orçamento e Gestão (Seplag) referente aos prontuários dos servidores que se submeteram à perícia médica para afastamento laboral.

Este artigo é subprojeto do estudo Perfil do servidor público estadual das áreas da saúde e educação com afastamento do trabalho por depressão, no período entre 2009 e 2017 em Sergipe, aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Tiradentes, sob parecer nº 3.048.551.

A amostra do estudo foi composta de 63 profissionais vinculados à Secretaria de Estado da Saúde, englobando as seguintes profissões: técnico de enfermagem, auxiliar em enfermagem, agente de serviços da saúde, médico, enfermeiro, biomédico, laboratorista da saúde, orientador social, psicólogo, auxiliar de laboratório da saúde e técnico em laboratório. Todos os profissionais totalizaram 290 registros de afastamento do trabalho, que foram cadastrados na Seplag nos anos entre 2009 e 2017.

As variáveis coletadas para a identificação do trabalhador da saúde foram idade, sexo, estado civil, escolaridade e cargo, além das características referentes ao afastamento, de acordo com a CID-10.

Além disso, as características compreenderam a gravidade, o número de dias de afastamento, o desfecho da ocorrência (licença ou adaptação provisória ou definitiva), o tempo de serviço. Encontraram-se diagnósticos referentes à depressão nas categorias F32 (episódios depressivos) e F33 (transtorno depressivo recorrente) da CID-10 e problemas relacionados à saúde. Lembrando que as variáveis usadas no estudo foram determinadas pelas identificadas no banco de dados da Seplag.

A pesquisa foi elaborada por meio de documentos. Não foi necessária a utilização do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e não houve exposição dos profissionais da saúde, de acordo com todos os critérios da Resolução nº 466/2012.

O estudo incluiu todos os profissionais da saúde que passaram pelo serviço de perícia médica da Seplag e foram afastados por depressão, no período de nove anos (2009 a 2017), o que condiz com uma amostra de 63 indivíduos. Não existiram critérios de exclusão. A análise deu-se a partir do ano de 2009, quando se iniciaram os prontuários eletrônicos na instituição.

Os dados foram analisados por intermédio dos relatórios virtuais disponibilizados pela Seplag, digitalizados e processados no programa Microsoft Excel 2013, utilizando procedimentos de análise estatística pelo software R Core Team 2018. Os dados foram descritos mediante a frequência simples e percentual quando categóricos e por média, soma, desvio padrão, mediana, mínimo e máximo quando contínuos.

 

RESULTADOS

A caracterização do universo foi de 13.578 profissionais da saúde, servidores públicos de Sergipe, ativos em 2018. Entre eles, 189 profissionais tiveram a sua primeira ocorrência de afastamento de trabalho por qualquer doença e, portanto, não necessariamente por transtornos psiquiátricos. Desses últimos, 63 (33,3%) afastaram-se por depressão.

A nossa amostra, por conseguinte, foi composta de 63 profissionais da saúde e tem as seguintes características: 57 indivíduos (90,5%) são do sexo feminino, com maior prevalência na faixa etária entre 40 e 49 anos, com média de idade de 50 anos - mínima de 35; e máxima de 70 anos. Podemos observar que pouco mais da metade dos pacientes (54,0%) é casada, e duas categorias de escolaridade, com 33,3% cada uma, tiveram a maior prevalência: o mestrado e o ensino superior completo (Tabela 1).

 

 

Na nossa amostra, foram encontrados dois profissionais da saúde com dois vínculos empregatícios diferentes. Dessa forma, obteve-se o total de 65 vínculos, em vez de 63 (Tabela 1). Com relação aos médicos, de seis, três tinham especialidade médica (um intensivista, um perito e um radioterapeuta), e os demais não a especificaram.

O tempo de serviço desses servidores no Estado foi em média 20,5 anos, sendo o máximo 38 anos e o mínimo um ano.

A renda média dos profissionais da saúde ativos foi calculada por meio do site do governo do estado de Sergipe, disponibilizada no portal de transparência do estado. Esse cálculo foi feito com base na fonte Sistema Integrado de Pessoal do Estado de Sergipe (Sipes)/Seplag (Tabela 2). Diante dos dados, pudemos observar que a maior média de salário é dos médicos, e a menor média, dos auxiliares de laboratório da saúde15.

 

 

Verificamos que 910 atendimentos na perícia médica do estado de Sergipe eram referentes a algum tipo de transtorno psíquico no período pesquisado. Destes, 290 (31,8%) atendimentos foram das CID F32 e F33, correspondendo aos episódios depressivos e episódios depressivos recorrentes, respectivamente. Foram seguidos em ordem decrescente pelos transtornos ansiosos, transtornos bipolares, transtorno misto (ansiosos e depressivos), entre outros.

Sobre as características do afastamento, constataram-se 290 registros de afastamento do trabalho por depressão naqueles 63 profissionais da saúde. Observou-se que os anos em que houve o maior registro de casos de afastamento por depressão foram 2010 (56), 2013 (45) e 2011 (44). Nos demais, a distribuição revelou-se da seguinte forma: 2009 (29), 2012 (32), 2014 (26), 2015 (28), 2016 (16) e 2017 (14). Atingiu-se a média de 32 afastamentos por ano decorrentes de depressão (Gráfico 1).

 


Gráfico 1. Total dos atendimentos e dos profissionais atendidos que se afastaram por depressão em Sergipe entre 2009 e 2017 (n=63).

 

Em relação ao índice de reincidência, constatou-se o número de 227 atendimentos, com média de 3,6 atendimentos por profissional da saúde. Notou-se também que, dos 63 profissionais, 48 (76,2%) foram os que recidivaram e 15 (23,8%) não tiveram recidivas. Vale ressaltar que o perfil do profissional da saúde mais recidivante é: sexo feminino, 45 (93,8%); auxiliar de enfermagem, 18 (37,5%); casado, 25 (52,1%); F32 (episódios depressivos) como CID-10 mais prevalente, 77 (58%); apresentar como desfecho a licença para tratamento da própria saúde por mais de 15 dias (56%).

Além disso, viu-se que, para cada afastamento por depressão, houve um desfecho. Dessa forma, notamos que a licença para tratamento da própria saúde (maior que 15 dias) foi o mais prevalente, com mais de 75% da conclusão do atendimento (Tabela 3).

 

 

A CID-10 mais prevalente no primeiro afastamento do profissional da saúde foi a F32 (episódios depressivos), tanto naqueles que recidivaram quanto nos que não tiveram recidivas (Tabela 4).

 

 

A CID-10 mais prevalente, de acordo com a quantidade de atendimentos prestados aos profissionais da saúde, foi o F32 (episódios depressivos) (26,5%), seguido pelo F32.1 (episódio depressivo moderado) (18,6%) (Tabela 5). O total de dias de afastamento do trabalho por depressão nas 290 perícias realizadas nos 63 profissionais da saúde foi de 12.928. Constatou-se que a média de dias de afastamento foi de 205,2 dias, sendo o máximo de 771 dias e o mínimo de cinco.

 

 

DISCUSSÃO

A maior prevalência do sexo feminino (90,5%) no afastamento do trabalho por depressão entre os profissionais da saúde em nosso estudo coincidiu com o que foi encontrado na literatura10,16. Em alguns desses estudos, debateu-se sobre certas possíveis razões para a maior prevalência nas mulheres. A equipe de enfermagem, maior contingente absenteísta em nossa pesquisa, está relacionada à maior quantidade de profissionais da saúde do gênero feminino em todo o território brasileiro16.

Outra explicação para o absenteísmo nesse gênero associa-se à conjuntura familiar, a qual pode promover desdobramentos no ambiente de trabalho10. Um exemplo disso são os filhos, pois o cuidado familiar e as obrigações inerentes à maternidade e até mesmo à impossibilidade de conciliar as férias dos filhos com as férias do servidor podem causar conflitos e preocupação sobre seus papéis10,17.

Além disso, existe a questão de diferenças hormonais entre os sexos. A tensão pré-menstrual é uma dessas diferenças, que torna as mulheres, em um período do mês, mais tensas e com alterações de humor, variando entre extremos, envolvendo irritabilidade ou até mesmo depressão. Por conseguinte, essas alterações mudam também os possíveis estressores para desencadear o sofrimento psíquico nos diferentes gêneros17.

A média de idade de 50 anos e a faixa etária entre 40 e 49 anos dos profissionais da saúde afastados por depressão no presente estudo foram diferentes da maioria dos trabalhos encontrados na literatura10,16,18. Por outro lado, observamos que, no estudo de Lemos et al., realizado em importantes hospitais do Distrito Federal, a faixa etária entre 41 a 50 anos (30,2%) é o dado mais próximo da nossa pesquisa17.

A faixa etária dos servidores do estado de Sergipe que se afastaram por depressão é mais alta do que a de outros estudos, e nessa faixa as pessoas têm mais maturidade, mais escolaridade e mais tempo de serviço (20,5 anos). Essa última variável é fator primordial para propiciar o desenvolvimento da depressão nos profissionais da saúde. Notou-se que, quanto maior o tempo de serviço, mais os profissionais da saúde se afastam18.

Ainda é relevante que, provavelmente, os servidores com mais tempo de serviço são os que acumulam jornada dupla de trabalho no que tange ao próprio ofício e à criação de filhos (54% são casados). Dessa forma, podemos inferir que esses profissionais estão mais cansados e estressados do que os mais jovens. A maioria dos estudos encontrados teve seus resultados similares aos de nossa pesquisa, com o estado civil casado em maior prevalência17-19. Entretanto, no estudo de Alves et al., demonstrou-se que o desenvolvimento de transtornos de humor e afetivos nos divorciados e separados foi o mais prevalente16.

Outrossim, em diferentes estudos, a média de idade de profissionais com absenteísmo variou entre 21 e 39 anos10,16,18. Esse fenômeno foi explicado por uma pesquisa irlandesa que ponderou que os profissionais mais jovens e com menor experiência mostraram ter mais chance de desenvolver mais transtornos de humor do que os trabalhadores mais velhos e com mais experiência, dado que estes últimos conseguem enfrentar as emoções e executar suas funções conforme a sobrecarga de trabalho10,19.

A equipe de enfermagem em nosso estudo compôs o grupo que mais se afastou por depressão, representando 83% dos profissionais da saúde. Essa equipe é a força maior de trabalho nos hospitais17,20. É formada por três categorias: enfermeiro, técnico e auxiliar. Os dois últimos têm o trabalho mais mecânico do que mental, e 75% deles, no nosso estudo, afastaram-se por depressão. Por conseguinte, vale ressaltar que a diferença entre essas duas categorias de profissionais e os demais do curso superior se encontra no grau de complexidade das tarefas executadas para os pacientes. Os técnicos estão habilitados a atuar com pacientes de média e alta complexidade. Os auxiliares lidam mais com pacientes ambulatoriais com o nível de complexidade baixa21.

Dessa forma, podemos concluir, com os resultados da nossa pesquisa, que o aumento de complexidade do ambiente de trabalho e a maior sobrecarga que esses setores exigem podem ser fatores geradores de absenteísmo. Afinal, estudos comprovam que o fator mais estressante para o profissional de enfermagem foi a sobrecarga de trabalho, assim como nas demais categorias de profissionais da saúde19,22,23.

A escolaridade dos profissionais que mais se afastam por depressão nesta pesquisa não coincidiu com o que a literatura expõe. O estudo do artigo de Furlan e Stancato com a equipe de enfermagem de dois hospitais (público e privado) afirma que o ensino médio atrelado com o ofício e o trabalho exercido exige, geralmente, mais labor físico. Por conseguinte, o seu nível de carga emocional é maior e a depressão nesses profissionais tem maior prevalência17,18.

Entretanto, observamos em nossa pesquisa que o ensino superior completo e o mestrado somaram mais de 65% de casos de depressão, sendo os mais prevalentes. Provavelmente, isso explica-se pela maior responsabilidade dos profissionais de nível superior sobre os demais, o que requer grande esforço intelectual, que também promove estresse e transtornos psíquicos24.

O absenteísmo dos auxiliares e técnicos de enfermagem é seis vezes maior do que o dos profissionais de nível superior2,18. O nosso estudo tem proporção aproximadamente três vezes maior, sendo metade do que Furlan e Stancato concluíram.

Da mesma maneira que a literatura disponível, também concluímos que os trabalhadores da saúde mais predispostos a desenvolver transtornos mentais são os de enfermagem, e a depressão é uma das três doenças mais referidas nessa equipe profissional19,22.

Na literatura, há o consenso de que os profissionais da área médica, equipe de enfermagem e agentes comunitários da saúde compõem grupos expostos ao sofrimento mental16,23. A alta prevalência de distúrbios psíquicos nos trabalhadores, muitas vezes, deixa de ser diagnosticada na avaliação clínica, seja porque o paciente subestima seus sintomas, seja porque o avaliador não tem o conhecimento adequado, ou, ainda, esses distúrbios podem estar mascarados apenas em sintomas físicos. Diante da nossa pesquisa, também pudemos chegar a essa conclusão.

Vale ressaltar que qualquer indivíduo e, principalmente, o profissional da saúde, ao adoecer, acha que perdeu em maior ou menor grau parte de sua completude ilusória. Isto é, tem ferido seu sentimento de onipotência23. Esse pensamento pode ser observado, principalmente, entre os médicos, que resistem mais a aceitar seus limites e não procuram ajuda necessária quando em sofrimento mental24.

O estudante, o residente de Medicina e o médico especializado apresentam importantes índices de sintomas depressivos, o que pode prejudicar, desde cedo, o atendimento ao paciente e também a qualidade de vida do profissional, perdurando da faculdade para toda a vida. O médico, a todo o momento, é pressionado, tornando-se cada vez mais susceptível ao adoecimento mental25. A prevalência de sintomas depressivos entre os médicos, em pesquisas pregressas, oscilou de 10 a 15% nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha, na Noruega e no Japão26 - resultado próximo ao que chegamos em nosso estudo. Cerca de 10% dos profissionais da saúde absenteístas eram médicos.

Em nossos dados, observamos que um dos médicos afastados pertencia à unidade de terapia intensiva. Estudos mostram que esse setor é considerado um ambiente violento, angustiante e chocante do hospital, o que pode ocasionar prejuízo à saúde do profissional da saúde. Um preditor importante, portanto, para o transtorno mental é a violência no ambiente de trabalho27. Os profissionais expostos à violência no ambiente de trabalho foram quatro vezes mais predispostos a estar deprimidos comparados àqueles que raramente ou nunca passaram por isso. Pesquisas na Polônia e na Turquia também mostraram que os trabalhadores expostos à violência no ambiente de trabalho têm maior chance de desenvolver transtorno depressivo26.

A sobrecarga desperta o sentimento de insatisfação no exercício profissional, o que pode proporcionar o surgimento de um sofrimento mental que culminará no absenteísmo17,19. A sobrecarga do profissional da saúde acarreta ausência e má qualidade do atendimento aos pacientes16,17.

O turno de trabalho ainda é uma questão conflitante na literatura. De um lado, o expediente noturno prejudica tanto o dormir quanto o acordar do trabalhador. De outro lado, o turno matutino está mais relacionado ao desenvolvimento da depressão, talvez por causa das atividades executadas nesse horário, como banhos, curativos e procedimentos. Esse esquema de divisão em turnos e em plantões torna o profissional da saúde, muitas vezes, refém de seu trabalho2,10.

Além disso, mais de um vínculo empregatício propicia mais chances de desgaste físico e emocional dos profissionais da saúde, que também tendem a diminuir o vínculo social e familiar. A necessidade de se associar a mais de uma instituição e de trabalhar em mais de dois turnos se relaciona aos salários baixos que esses profissionais recebem2,10.

Sobre a renda, observou-se aqui que, quanto menor, maior é a presença de TMC, como mencionado também no estudo realizado em Pernambuco por Alves et al.16. Em outra pesquisa em um hospital particular, 27,38% dos profissionais da equipe de enfermagem acreditam que o salário influencia nas ausências. Já no hospital público, 18,03% têm a mesma opinião. Isso porque os baixos salários obrigam os profissionais a terem dois ou mais vínculos empregatícios para assegurar o orçamento doméstico18.

Podemos notar que, em nossos dados, a categoria profissional que mais se afastou foi a dos técnicos de enfermagem, que recebem, em média, dois salários mínimos e meio. Dados semelhantes foram encontrados por Alves et al., que afirmam que os profissionais que recebem renda entre um e dois salários mínimos apresentaram duas vezes mais TMC do que aqueles que recebem mais de seis16.

Os estressores no ambiente de trabalho podem atuar de duas formas. A primeira propicia o desenvolvimento de depressão ou burnout, e a segunda pode promover recaídas para aqueles que já se afastaram e voltaram a trabalhar17,25,28. Trata-se de um dado de extrema importância, já que 48 (76,2%) profissionais de nossa pesquisa recidivaram com média de 3,6, provando que a volta para o mesmo ambiente de trabalho estressor pode cronificar o desgaste mental desses profissionais.

O Brasil possui as maiores porcentagens de depressão: 18,4% dos indivíduos já vivenciaram pelo menos um episódio depressivo ao longo da vida, estando atrás apenas da França (21,0%) e dos Estados Unidos (19,2%). A prevalência de sintomas depressivos e de suicídio é muito alta entre os trabalhadores da área da saúde2,19.

A licença médica qualifica-se como absenteísmo quando é maior do que três dias. É considerada de curta duração quando a licença é igual ou inferior a 15 dias e de longa duração quando maior do que 15 dias2. Percebemos que a prevalência maior foi da licença de longa duração, tendo 78% dos atendimentos com tal desfecho.

No estudo de Lemos et al., a maioria dos servidores públicos do setor da saúde do Distrito Federal necessitou ficar afastada por 18 dias17. Em contrapartida, em média, os afastamentos dos profissionais da saúde da presente pesquisa duraram 205,2 dias, tendo o mínimo de cinco e o máximo de 771 dias. As limitações do nosso estudo residem no fato de termos trabalhado com dados secundários, o que nos fez sentir falta de outras variáveis e da ausência de uma literatura mais rica sobre afastamento do trabalho corroborado por perícia médica entre profissionais da saúde, o que restringiu a possibilidade de mais comparações e discussões. Esses elementos são determinantes para a necessidade de mais estudos, ideia também reforçada pelos trabalhos de Fontinhas e Cardoso13, Silva et al19 e Fernandes et al.23.

 

CONCLUSÃO

No presente estudo, concluímos que o perfil do trabalhador da saúde absenteísta foi técnico de enfermagem, mulher, 50 anos, casado, com ensino superior completo ou mestrado, com média de 3,6 recidivas e de 205,2 dias de afastamento. Dessa forma, é desejável dar atenção especial aos trabalhadores da saúde, haja vista atuarem em ambiente estressor, cansativo e promotor de quadros depressivos. Lembrando que esse transtorno é suscetível à prevenção no ambiente de trabalho, contanto que a gênese do problema seja identificada tanto pelos profissionais quanto pelos dirigentes. Além disso, almeja-se criar estratégias para diminuir o acometimento psicológico no ambiente de trabalho por meio de uma divisão equilibrada de tarefas na equipe da saúde, com a redução da sobrecarga de trabalho entre os profissionais, com boa relação entre os colegas, e também com o apoio dos gestores. O desafio para os gestores é desenvolver um ambiente de trabalho saudável que atenda às demandas individuais e coletivas e com estrutura adequada, para que o profissional possa exercer o seu trabalho. Dessa maneira, familiarizar-se com o fator desencadeante é o começo para planejar intervenções direcionadas na melhoria do ambiente de trabalho e da qualidade de vida do profissional. Consequentemente, o número de afastamentos reduzir-se-á com ganhos para o serviço e para os pacientes. Assim, é importante fomentar a criação de programas voltados à saúde mental dos profissionais da saúde com aumento da atuação de psicólogos e psiquiatras em ambiente hospitalar, que atendam a essa categoria de forma preventiva.

 

AGRADECIMENTO

Agradecemos ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a concessão da bolsa de iniciação científica.

 

REFERÊNCIAS

1. World Health Organization. Depression and Other Common Mental Disorders: Global Health Estimates [Internet]. Genebra: WHO; 2017 [acessado em 21 nov. 2017]. Disponível em: http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/254610/1/WHO-MSD-MER-2017.2-eng.pdf?ua=1

2. Costa FM, Vieira MA, Sena RR. Absenteísmo relacionado a doenças entre membros da equipe de enfermagem de um hospital escola. Reben. 2009;62(1):38-44. http://dx.doi.org/10.1590/S0034-71672009000100006

3. American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais - DSM-5. 5ª ed. São Paulo: Artmed; 2014.

4. Sadock BJ, Sadock VA, Ruiz P. Compêndio de Psiquiatria. Ciência do Comportamento e Psiquiatria Clínica. 9ª ed. São Paulo: Artmed; 2017.

5. Jardim S. Depressão e trabalho: ruptura de laço social. Rev Bras Saúde Ocup. 2011;36(123):84-92. http://dx.doi.org/10.1590/S0303-76572011000100008

6. Gomes RSM, Alencar CT, Wallau I, Castro UR. Transtornos depressivos em profissionais de saúde. Rev Med Saúde Brasília. 2015;4(1):122-8.

7. World Health Organization. International Classification of Diseases [Internet]. Genebra: WHO, 2017 [acessado em 26 out. 2018]. Disponível em: http://www.who.int/classifications/icd/en/

8. Cunha FO, Brito MFSF, Borém LMA, Messias RB, Leite MTS, Neto JFR. Qualidade de vida de médicos da atenção primária à saúde e dos serviços de urgência e emergência. Renome. 2016;5(2):52-62.

9. Bernburg M, Vitzthum K, Groneberg DA, Mache S. Physicians' occupational stress, depressive symptoms and work ability in relation to their working environment: a cross-sectional study of differences among medical residents with various specialties working in German hospitals. BMJ Open. 2016;6:e011369. http://doi.org/10.1136/bmjopen-2016-011369

10. Santana LL, Sarquis LMM, Brey C, Miranda FMA, Felli VEA. Absenteísmo por transtornos mentais em trabalhadores de saúde em um hospital no sul do Brasil. Rev Gaúcha Enferm. 2016;37(1):e53485. http://dx.doi.org/10.1590/1983-1447.2016.01.53485

11. Bastos MLA, Bezerra Júnior G, Domingos ET, Araújo RM, Santos AL. Afastamentos do trabalho por transtornos mentais: um estudo de caso com servidores públicos em uma instituição de ensino no Ceará, Brasil. Rev Bras Med Trab. 2018;16(1):53-9. http://doi.org/10.5327/Z1679443520180167

12. Fernandes MA, Silva DRA, Ibiapina ARS, Silva JS. Adoecimento mental e as relações com o trabalho: estudo com trabalhadores portadores de transtorno mental. Rev Bras Med Trab. 2018;16(3):277-86. http://doi.org/10.5327/Z1679443520180110

13. Fontinhas JE, Cardoso JMM. O estresse no trabalho do enfermeiro. Rev Uningá. 2016;51(1):78-86.

14. Pedro DRC, Silva GK, Lopes AP, Oliveira JL, Tonini NS. Violência ocupacional na equipe de enfermagem: análise à luz do conhecimento produzido. Saúde Debate. 2017;41(13):618-29. http://dx.doi.org/10.1590/0103-1104201711321

15. Governo de Sergipe. Portal da Transparência [Internet]. Sergipe; 2019 [acessado em jul. 2019]. Disponível em: http://www.transparenciasergipe.se.gov.br/TRS/Despesas/Favorecidos.xhtml

16. Alves AP, Pedrosa LA, Coimbra MA, Miranzi MA, Hass VJ. Prevalência de transtornos mentais comuns entre profissionais de saúde. Rev Enferm UERJ. 2015;23(1):64-9. http://dx.doi.org/10.12957/reuerj.2015.8150

17. Lemos DS, Escalda PM, Paz LP, Leão AL. Absenteísmo - doença entre servidores públicos do setor saúde do Distrito Federal. Rev Bras Med Trab. 2018;16(3):336-45. http://dx.doi.org/10.5327/Z1679443520180246

18. Furlan JAS, Stancato K. Fatores geradores do absenteísmo dos profissionais de enfermagem de um hospital público e um privado. RAS. 2013;15(60):112-20.

19. Silva DSD, Tavares NVS, Alexandre AR, Freitas DA, Brêda MZ, de Albuquerque MCS, et al. Depressão e risco de suicídio entre profissionais de Enfermagem: revisão integrativa. Rev Esc Enferm USP. 2015;49(6):1027-36. http://dx.doi.org/10.1590/S0080-623420150000600020

20. Perry L, Lamont S, Brunero S, Gallagher R, Duffield C. The mental health of nurses in acute teaching hospital settings: A cross-sectional survey. BMC Nurs. 2015;14:15. https://doi.org/10.1186/s12912-015-0068-8

21. Univeritas. Saiba a diferença entre enfermeiro, técnico e auxiliar [Internet]. Univeritas; 2017 [acessado em 9 fev. 2017]. Disponível em: https://www.univeritas.com/noticias/saiba-diferenca-entre-enfermeiro-tecnico-e-auxiliar

22. Vieira TG, Beck CLC, Dissen CM, Camponogara S, Gobatto M, Coelho APF. Adoecimento e uso de medicamentos psicoativos entre trabalhadores de enfermagem de unidades de terapia intensiva. REUFSM. 2013;3(2):205-14. http://dx.doi.org/10.5902/217976927538

23. Fernandes MA, Soares LM, Silva JS. Transtornos mentais associados ao trabalho em profissionais de enfermagem: uma revisão integrativa brasileira. Rev Bras Med Trab. 2018;16(2):218-24.

24. Pimentel D. O sonho do jaleco branco: saúde mental dos profissionais da saúde. Aracaju: Universidade Federal de Sergipe/Fundação Oviêdo Teixeira/Sociedade Médica de Sergipe; 2005.

25. Silveira AL, Colleta TC, Ono HR, Woitas LR, Soares SH, Andrade VL, et al. Síndrome de Burnout: consequências e implicações de uma realidade cada vez mais prevalente na vida dos profissionais de saúde. Rev Bras Med Trab. 2016;14(3):275-84. http://dx.doi.org/10.5327/Z1679-443520163215

26. Gong Y, Han T, Chen W, Dib HH, Yang G, Zhuang R, et al. Prevalence of Anxiety and Depressive Symptoms and Related Risk Factors among Physicians in China: A Cross- Sectional Study. PLoS One. 2014;9(7):e103242. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0103242

27. Peixoto OS, Pereira IV. Assédio moral no trabalho: repercussões sobre a saúde do trabalhador. Rev Bras Med Trab. 2005;3(2):135-7. http://dx.doi.org/10.1590/2317-6369000015918

28. Corbière M, Renard M, St-Arnaud L, Coutu MF, Negrini A, Suavé G, et al. Union perceptions of factors related to the return to work of employees with depression. J Occup Rehabil. 2015;25(2):335-47. https://doi.org/10.1007/s10926-014-9542-5

Recebido em 7 de Maio de 2019.
Aceito em 3 de Setembro de 2019.

Fonte de financiamento: Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico


Indexadores

Todos os Direitos Reservados © Revista Brasileira de Medicina do Trabalho