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ARTIGO ORIGINAL

Fatores associados a acidentes de trabalho em zona rural de Minas Gerais

Factors associated with work accidents in a rural area in Minas Gerais, Brazil

Gisele Aparecida Fernandes1; Luiz Felipe Silva2

DOI: 10.5327/Z1679443520190318

RESUMO

INTRODUÇÃO: A exposição ao ruído e o uso de agrotóxicos na agricultura brasileira são intensos, entretanto, são escassos os estudos que investigam a associação com a ocorrência de acidentes de trabalho.
OBJETIVO: Estudar a associação entre autorrelatos de exposição ao ruído e a agrotóxicos e acidentes autorreferidos entre trabalhadores rurais.
MÉTODOS: Estudo transversal conduzido em Conceição das Pedras, sul de Minas Gerais. Um questionário foi aplicado em uma amostra de 170 trabalhadores, no período de abril a outubro de 2014. Foi realizada análise de regressão logística múltipla não condicional progressiva passo a passo.
RESULTADOS: Foi observada prevalência de acidentes de trabalho de 11,8% (IC95% 7,3-17,6). As variáveis independentes que se apresentaram associadas ao acidente de trabalho foram: o fungicida Priori© (RC=11,8; p=0,007); ferramentas manuais motorizadas (RC=8,28; p=0,010); perda auditiva induzida pelo ruído (RC=38,60; p=0,022) e tempo de exercício profissional (RC=1,04; p=0,034).
CONCLUSÕES: Não foi constatada associação entre acidentes e autorrelatos de exposição combinada ao ruído e a agrotóxicos. O estudo revelou fatores significativos na gênese do acidente de trabalho, os quais podem contribuir para as ações de prevenção na área. Recomenda-se a realização de pesquisas que superem os limites encontrados, com o propósito de investigar o papel das exposições combinadas na realidade do acidente de trabalho.

Palavras-chave: acidentes de trabalho; agrotóxicos; ruído; fazendeiros.

ABSTRACT

BACKGROUND: Noise and pesticide exposure is frequent among Brazilian agricultural workers, however, few studies analyzed its association with work accidents.
OBJECTIVE: To investigate the association between self-reported noise and pesticide exposure and self-reported work accidents among rural workers. Methods: Cross-sectional study performed in Conceição das Pedras, southern Minas Gerais, Brazil. We administered a questionnaire to 170 rural workers from April through October 2014. We subjected the data to unconditional multiple logistic regression analysis by means of the stepwise method.
RESULTS: The prevalence of work accidents was 11.8% (95%CI 7.3-17.6). Independent variables associated with occurrence of work accidents were: use of the fungicide Priori® (OR 11.8; p=0.007), use of hand-held power tools (OR 8.28; p=0.010), noise-induced hearing loss (OR 38.60; p=0.022) and length in the job (OR 1.04; p=0.034).
CONCLUSION: We did not find association between work accidents and self-reported combined noise and pesticide exposure. The results, however, evidenced factors significantly related to the occurrence of work accidents, which identification might serve to ground preventive actions. We recommend performing additional studies likely to overcome detected limitations to establish the role of combined exposures in work accidents.

Keywords: accidents, occupational; agrochemicals; noise; farmers.

INTRODUÇÃO

A temática do acidente de trabalho também se torna importante no meio rural, em virtude das grandes transformações que nele ocorreram e modificaram a vida dos trabalhadores desse setor1. Se antes os acidentes ocupacionais rurais estavam restritos basicamente a quedas, lesões com ferramentas manuais e envenenamentos causados por plantas e animais peçonhentos, a intensa utilização de agrotóxicos e máquinas ampliou expressivamente o risco aos quais os trabalhadores rurais estão expostos2. Atualmente, os fatores associados ao acidente de trabalho na zona rural são: queda de altura, movimentação manual de cargas, tombamento ou acidente durante a condução de trator agrícola, ruído, vibração, uso de agrotóxicos e risco de ser cortado ou ferido3.

O uso dos agrotóxicos na agricultura representa um significativo impacto socioeconômico, pois afeta de forma distinta os diversos atores sociais envolvidos. Os trabalhadores rurais são os mais prejudicados, uma vez que o emprego de agrotóxicos está associado, entre outros desfechos em saúde, a agravos à audição. Pesquisas têm apontado que a ocorrência de perda auditiva é considerada sinal prematuro de intoxicação4-6. O uso de agrotóxicos também está associado ao grau de perda auditiva entre trabalhadores rurais e a piores escores de qualidade de vida7.

As máquinas e ferramentas agrícolas, tais como trator, derriçadeira, motosserra, ensiladeira, entre outras, são potencialmente ruidosas. Há muitas evidências de que trabalhadores expostos a um nível sonoro equivalente (LAeq,8h), superior ou igual a 80 dB(A), referente a uma jornada diária de trabalho de 8 horas, têm um aumento no risco de acidentes, pois a exposição ao ruído pode levar a uma perda temporária de audição8, dificuldade de comunicação, estresse, dificuldade na manutenção da atenção e da concentração e fadiga excessiva. Esses são determinantes associados à gênese do acidente de trabalho, assim sendo, aparenta existir relação causal entre ruído ocupacional e acidente de trabalho9.

Há limitados estudos que se debruçam sobre a temática de exposição ao ruído na atividade rural, envolvendo a operação de máquinas ou ferramentas usadas no trabalho e que investiguem a associação com a ocorrência de acidentes10. Este estudo torna-se importante pela grande necessidade de elucidar a relação saúde-trabalho e assim contribuir para a prevenção e consequente redução do número de acidentes de trabalho e sua gravidade.

Exposições combinadas tem sido um tema referido em agendas de pesquisa na área, buscando elucidar as possibilidades de interação ou sinergismo na situação de exposições misturadas. Efeitos sinérgicos e aditivos têm sido objeto de estudo, por meio de análise de exposição ao ruído e outros estressores11. Estudos evidenciaram que os trabalhadores expostos a ruído ocupacional e agrotóxico apresentam maior risco de desenvolver perda auditiva quando comparados aos trabalhadores expostos somente ao ruído12,13.

Portanto, a questão de investigação colocada pretende esclarecer se a exposição combinada entre agrotóxicos e ruído apresenta influência significativa na ocorrência de acidentes.

O objetivo deste estudo foi estudar a associação entre autorrelatos de exposição ao ruído e a agrotóxicos e acidentes autorreferidos entre trabalhadores rurais.

 

MÉTODOS

Foi realizado um estudo de delineamento transversal no período compreendido entre agosto e novembro de 2014.

A população de estudo, da qual a amostra foi executada, constituiu-se por 978 trabalhadores vinculados à atividade agropecuária no município de Conceição das Pedras, localizado no sul de Minas Gerais, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)14.

A definição aleatória dos sujeitos da pesquisa foi realizada a partir dos registros fornecidos pelo único Programa Saúde da Família (PSF) do município em estudo, que cobre as ações de saúde de toda a população. Portanto, todos os 978 trabalhadores rurais são cobertos pelas ações de saúde do município e suas famílias possuem um número de identificação.

Como em todo PSF, a área de abrangência da equipe é dividida em sete microáreas, e cada agente comunitário de saúde é responsável por uma microárea e cada família possui um número de identificação. De posse desse número de identificação das famílias de todas as microáreas, realizou-se um procedimento aleatório com o auxílio do software Excel para seleção de uma amostra proporcional ao número de residências de cada uma das sete microáreas. A entrevista foi feita apenas com trabalhadores rurais. Caso houvesse mais de um trabalhador rural na casa, a entrevista era realizada com o de maior tempo de exercício profissional na função.

Foram incluídos na pesquisa somente trabalhadores rurais maiores de idade, que estavam na ativa e na atividade de agricultura por cinco anos ou mais. Foram excluídos os trabalhadores que se encontravam afastados da profissão por motivos como doença, aposentadoria e acidentes de trabalho ocorridos há mais de 12 meses.

Utilizando um estudo tranversal14 que verificou a prevalência de 11% de acidentes de trabalho entre trabalhadores rurais, no município de Pelotas, Rio Grande do Sul, para o dimensionamento da amostra, com margem de erro de 5% e nível de confiança de 95%, foi encontrado o valor de 130 trabalhadores. O valor obtido foi acrescido de 10% para eventuais perdas ou recusas e de 20% para contemplar variáveis de confusão, resultando em 172 trabalhadores. Os cálculos foram realizados com o auxílio do software Excel.

Apesar de os estados de Minas Gerais e Rio Grande do Sul apresentarem características rurais distintas, o que talvez possa influenciar a atividade física dos trabalhadores e, consequentemente, o perfil dos acidentes de trabalho rural, o estudo de Fehlberg et al.15 foi utilizado no cálculo amostral.

A obtenção das informações foi realizada pela aplicação de questionários aos trabalhadores rurais. O questionário elaborado compreendeu o levantamento dos seguintes dados sociodemográficos: idade; escolaridade (anos); tempo de exercício profissional (anos); jornada de trabalho (horas semanais); e residência (rural ou urbana). Também, no âmbito do conjunto das variáveis explanatórias, se investigou o tipo de relação trabalhista: proprietário ou autônomo. Na atividade diária foram exploradas as seguintes exposições a condições de trabalho: tratores; máquinas agrícolas; ferramentas manuais motorizadas; trato com animais; implementos agrícolas e agrotóxicos, identificando os principais utilizados nas culturas pelo nome comercial e categorizando a exposição do seguinte modo: muito frequentemente, usualmente, esporadicamente ou raramente. Para respostas afirmativas em pelo menos uma das duas primeiras alternativas, o sujeito foi considerado exposto.

No tocante a hábitos comportamentais, as variáveis compreenderam o hábito de fumar (sim; não; ou ex-fumante) e ingestão de bebida alcoólica, no qual foi usado o mesmo critério para as questões relativas às atividades diárias.

Os agricultores que haviam sofrido acidentes de trabalho na atividade rural foram definidos como aqueles que responderam de modo afirmativo à questão: "Você sofreu acidente de trabalho nos últimos 12 meses?".

A investigação sobre exposição ao ruído e algumas queixas auditivas importantes buscou conhecer como é normalmente a intensidade do ruído em seu local de trabalho, por meio das seguintes opções: "fraco ou nenhum"; "moderado"; "forte" ou "muito intenso". Além disso, procurou-se saber, no momento em que ocorreu o acidente ou no último dia em que o sujeito trabalhou, como estava o ruído, contemplando quatro opções: "fraco ou nenhum"; "moderado"; "forte" ou "muito intenso". Foi indagado ao sujeito da pesquisa se havia dificuldade ou não de audição; se o ruído no trabalho incomodava ou não e se já foi diagnosticado ou não com perda auditiva induzida pelo ruído (PAIRO).

O questionário não abordou o uso de equipamentos de proteção individual (EPI), uma vez que a literatura na área16,17 apontou que o uso do EPI no trabalho rural, especialmente nas pequenas propriedades rurais, é uma prática não usual rara ou os trabalhadores os utilizam de modo inadequado ou parcial. Além disso, há expressivas limitações oferecidas por esses meios, seja para proteção à exposição ao ruído ou a agrotóxicos18,19.

O questionário foi aplicado por um dos pesquisadores. Os dados foram digitados, armazenados e analisados com o auxílio do programa computacional EpiInfo 5.3.120. Foi conduzido um pré-piloto em 21 trabalhadores rurais, que não faziam parte da amostra, a fim de testar e adequar o questionário aplicado, para evitar redundâncias ou questões de compreensão duvidosa.

 

ANÁLISE DOS DADOS

Foram realizadas análises descritivas e posterior investigação dos possíveis fatores associados. Utilizou-se a técnica analítica de regressão logística múltipla não condicional para investigar a associação da variável dependente (acidente de trabalho) e do conjunto de variáveis independentes, e testá-lo a partir das seguintes hipóteses:

Teste de hipótese do modelo geral (teste da razão de verossimilhança):

H0: ß1 = ß2 = ... ßk = 0

Ha: existe pelo menos um dos ß≠0

Foram realizadas análises univariadas para selecionar aquelas variáveis que seriam introduzidas no modelo de regressão múltiplo. O nível de significância adotado para seleção das variáveis independentes foi de 20% pelo teste de Wald.

Teste de Wald (para cada um dos ß):

H0: ßj = 0 RC(Xj)=1

Ha: ßj≠0 RC(Xj)≠1

A fim de se encontrar o modelo mais ajustado, foi aplicada a metodologia progressiva passo a passo (stepwise forward), incluindo as variáveis por ordem decrescente de significância e excluindo todas aquelas não significantes, que poderiam impedir o bom ajuste do modelo, analisando-se as variações de razão de chances (RC), intervalo de confiança de 95% (IC95%) e os níveis de significância dos modelos. O nível de significância adotado para a permanência das variáveis independentes no modelo final foi de 5%, também verificado pelo teste da máxima verossimilhança21. A estrutura do modelo final é expressa pela Equação 1, enquanto a probabilidade de ocorrência de acidente, associada ao modelo ajustado, é estimada pelo uso da Equação 2. Os coeficientes ßi estimados para as variáveis independentes (Xi) representam o incremento de mudança de uma função da variável dependente por unidade de mudança na variável independente.

 

RESULTADOS

Na aplicação dos 172 questionários foi observada proporção de perdas e recusas de 1,2%, resultando em 170 respondentes. A amostra foi constituída apenas de trabalhadores do sexo masculino.

De acordo com a Tabela 1, no que se refere à variável idade, é possível afirmar que 29,4% dos trabalhadores se concentram na faixa etária dos 32 aos 43 anos. No item escolaridade, a média de anos frequentados na escola entre a amostra foi de 5,81 anos. Observa-se ainda que 69,4% dos trabalhadores trabalham há 20 anos ou mais no campo; e 78,3% dos trabalhadores possuem jornada de trabalho de 40 a 50 horas/semana.

 

 

Dos 170 trabalhadores rurais investigados, 20 relataram ter sofrido acidente de trabalho rural no último ano, obtendo-se prevalência de acidentes de trabalho de 11,8% (IC95% 7,3-17,6).

De acordo com a análise de exposição ao ruído, 61,8% dos sujeitos do estudo relataram estar expostos ao ruído de pelo menos uma dessas máquinas ou ferramentas (tratores, motosserras, derriçadeiras e ensiladeiras).

Os agrotóxicos mais utilizados são apresentados no Quadro 1, juntamente com as respectivas culturas e algumas informações técnicas essenciais.

 

 

Conforme apresentado na Tabela 2, as exposições autorrelatadas a alguns agrotóxicos se mostraram significantes na análise univariada para a ocorrência de acidentes de trabalho, mas de acordo com a Tabela 3, o único que ajustou ao modelo múltiplo foi o agrotóxico Priori©. Observou-se, na análise múltipla, uma RC de ocorrência de acidentes, para os agricultores que utilizam o agrotóxico Priori©, de 11,8 vezes em comparação com aqueles que relataram não usar esse agrotóxico. O uso combinado de 6 ou mais agrotóxicos dos 12 presentes no questionário não apresentou significância.

 

 

 

 

Na Tabela 2, observa-se o número de expostos ou que responderam afirmativamente no que tange às variáveis independentes e às respectivas prevalências. Além disso, são expostas as análises univariadas, apresentando os valores das RC e valores de p. De acordo com a Tabela 3, observa-se que as variáveis independentes consideradas significantes foram: "ferramentas manuais motorizadas" e "PAIRO", uso do "agrotóxico Priori©" e "tempo na função". As demais variáveis, tais como as sociodemográficas, relação trabalhista, condições de trabalho, uso de agrotóxico e variáveis comportamentais, não apresentaram significância estatística na análise múltipla.

Pelo uso da Equação 2, foi calculada a probabilidade de ocorrência de acidentes de trabalho em diferentes situações, como representado na Figura 1.

 


Figura 1. Estimativas da probabilidade de relato de ocorrência de acidente de trabalho entre 170 trabalhadores rurais, segundo modelo múltiplo compreendendo as variáveis: diagnóstico de perda auditiva induzida pelo ruído, uso de ferramentas motorizadas, uso do agrotóxico Priori© e tempo na função. Conceição das Pedras, Minas Gerais, 2014 (n=170).

 

DISCUSSÃO

O presente estudo não encontrou associação entre acidentes e autorrelatos de exposição combinada ao ruído e a agrotóxicos. Porém, constatou-se que os trabalhadores enfrentavam longas jornadas de trabalho, estavam expostos ao ruído de máquinas e ferramentas agrícolas e faziam uso de agrotóxicos.

Constatou-se que 53,5% dos trabalhadores rurais relataram ter de 3 a 6 anos de escolaridade, corroborando o estudo realizado por Marques e Silva23, no qual 58,4% dos trabalhadores rurais frequentaram a escola por 4 anos. No que concerne à jornada de trabalho, 78,2% dos trabalhadores despendem de 40 a 49 horas por semana. Em estudo realizado por Fehlberg et al.24, 65,2% dos trabalhadores rurais estudados referiram uma jornada semanal de trabalho de mais de 48 horas.

A variável "tempo na função" apresentou associação com acidente de trabalho. Esse achado vai de encontro ao estudo realizado por Sprince et al.25, que encontrou associações significativas entre acidente de trabalho e trabalhadores com menos anos de experiência na atividade agrícola. Trabalhadores com mais experiência possivelmente são mais seguros e menos cuidadosos e atenciosos, características que justificariam o fato de o "tempo na função" estar associado ao acidente de trabalho.

O agrotóxico Priori© pertence ao grupo químico estrobilurina. Essa classe de fungicidas é relativamente nova, pois foi introduzida na década de 2000, e vem se tornando a mais utilizada no controle de fungos. Informações sobre esse fungicida ainda são bastante escassas26. Apesar de existirem poucos estudos sobre os efeitos de estrobilurinas na saúde, há trabalhos sobre a exposição a esse agrotóxico, sendo a diminuição das células brancas um dos achados principais27. Esse agrotóxico foi utilizado por apenas 4,1% da amostra, porém ele pode aumentar a chance de acidente de trabalho, em razão de ser muito utilizado na produção do tomate, cultura intensiva, na qual são utilizados de forma frequente, provocando a exposição contínua e excessiva, podendo ocasionar intoxicações agudas e crônicas, tornando o trabalhador mais susceptível à ocorrência do acidente.

O uso combinado de 6 ou mais agrotóxicos dos 12 presentes no questionário não apresentou associação com o acidente de trabalho. A associação entre a aplicação de agrotóxicos e acidentes de trabalho merece uma avaliação mais aprofundada, com foco particular na compreensão do tempo de uso dos agrotóxicos.

Trabalhadores que autorrelataram diagnóstico prévio de PAIRO apresentaram uma RC para a ocorrência de acidente de 38,6 vezes em relação a quem não relatou ter o agravo. Esse achado corrobora o estudo realizado por Sprince et al.25, no qual constataram que o trabalhador rural que usa órtese auditiva, pressupondo uma perda instalada, possui uma RC para a ocorrência de acidente durante o exercício da profissão de 4,37 vezes em relação a quem não a usa, supostamente com audição normal.

Quando se analisa a variável correspondente à exposição ou à operação de ferramentas manuais motorizadas, observa-se a chance de ocorrência de acidente de 8,28 vezes quando comparada com as pessoas que não usam esse tipo de ferramenta. Esse achado vai ao encontro do estudo realizado por Sprince et al.25, no qual constataram associações significativas entre lesão relacionada ao maquinário e horas por semana gastas em trabalho agrícola. A associação significativa encontrada entre ferramentas manuais motorizadas, potencialmente ruidosas, e acidente de trabalho também pode ser imputada a outros fatores de risco presentes no instrumento e não necessariamente à emissão de ruído. Como por exemplo as derriçadeiras, que funcionam como roçadeiras, cuja configuração permite o emprego de lâminas, com risco de corte, assim como de projeção de objetos durante a operação.

Com base na estimativa de probabilidade representada na Figura 1, um trabalhador com 30 anos de tempo de exercício profissional, com autorrelato de diagnóstico prévio de PAIRO e usuário de ferramentas manuais motorizadas e do agrotóxico Priori© tem 99% de probabilidade de sofrer acidente de trabalho, enquanto uma pessoa com dez anos de tempo de exercício profissional na função, que não relatou diagnóstico prévio de PAIRO, não usa ferramentas manuais motorizadas e não é exposto ao agrotóxico Priori© tem apenas 1% de probabilidade de sofrer acidente de trabalho. Nesse cenário, as curvas não se sobrepõem, apresentando valores diferentes de probabilidades.

As curvas A, G e F são as com probabilidades mais altas, em que o autorrelato de diagnóstico prévio de PAIRO dos trabalhadores foi decisivo para essa condição, corroborando estudo realizado por Girard et al.28, o qual constatou que o risco de acidente aumenta dependendo da gravidade da perda de audição e, ainda, que ambientes ruidosos apresentam um risco de acidentes maior.

Nenhuma variável que contemplou a investigação sobre exposição ao ruído apresentou significância. Esses resultados contradizem Dias et al.19, que identificaram como riscos para acidentes do trabalho "trabalhador atribui ruído médio no trabalho" e "trabalhador atribui ruído forte no trabalho", bem como Cordeiro et al.29, que associaram um risco relativo de acidente de trabalho para o agricultor que trabalha sempre ou às vezes exposto a ruído intenso. Possivelmente não foi encontrada associação entre as variáveis que investigaram a exposição ao ruído com o acidente de trabalho porque essas foram coletadas por meio do autorrelato dos trabalhadores, o que padece do viés de informação.

Neste estudo, levou-se em consideração a ocorrência de acidente de trabalho nos últimos 12 meses, com o intuito de diminuir o viés de memória. Deve ser considerado que alguns pequenos acidentes possam ter sido esquecidos pelo entrevistado. Além disso, o viés de informação pode estar presente, pois não houve validação por meio de registros médicos ou hospitalares. Entretanto, o uso de dados de autorrelato e morbidade são habitualmente utilizados em diversos países na verificação das condições de saúde de populações distintas30.

O viés da aferição pode ser encontrado em estudos epidemiológicos, em especial quando as variáveis explanatórias são originadas de relatos de trabalhadores. Portanto, faz-se necessário neste estudo apontar que alguns desses trabalhadores podem desconhecer que padecem de presbiacusia, entre outras doenças. Essa característica impõe um limite ao estudo, uma vez que não houve avaliações quantitativas no que tange ao diagnóstico de perda auditiva ou da exposição ao ruído. Outra limitação do estudo é o largo intervalo de confiança encontrado no modelo múltiplo para as variáveis explanatórias "ferramentas manuais motorizadas", "PAIRO", "uso de Priori©" e "tempo na função", apesar de todas as variáveis apresentarem significância estatística (p<0,05). O intervalo de confiança está associado ao tamanho da amostra, quanto mais estreito é o intervalo de confiança, maior é a certeza de que a estimativa baseada na amostra de estudo representa a verdadeira magnitude do efeito na população de origem.

Por fim, o viés do trabalhador saudável ou do sobrevivente. A identificação desse viés no presente estudo está relacionada à inclusão somente dos trabalhadores na ativa, não compreendendo trabalhadores rurais aposentados ou os que migraram para outras atividades.

 

CONCLUSÃO

Este estudo teve como objetivo investigar a exposição combinada, por meio de autorrelatos, entre exposição ao ruído e a agrotóxicos e acidentes de trabalho. Não foi encontrada a associação investigada, embora os resultados tenham revelado fatores relevantes que têm contribuído na gênese do acidente de trabalho no meio rural avaliado. Na condução de novos estudos sobre o tema, sugere-se a exploração sobre a forma de uso dos agrotóxicos, a partir de uma avaliação mais aprofundada e consistente, com foco particular na recuperação histórica do tempo de uso e da quantidade empregada dos agrotóxicos. A mesma recomendação vale para o ruído, ou seja, uma análise que ofereça a possibilidade de recuperar o histórico de exposição do trabalhador.

Observou-se que a perda auditiva, o uso de um fungicida denominado Priori©, o tempo de exercício profissional e o emprego de ferramentas manuais motorizadas estão associados com a ocorrência de relato de acidente de trabalho na amostra avaliada.

Nessa perspectiva, os resultados alcançados podem servir de subsídios para elaboração de estratégias de saúde do trabalhador rural, de promoção e de prevenção, direcionadas para os fatores de risco assinalados, especialmente a questão ainda expressiva na realidade rural brasileira, que se trata do uso de agrotóxicos, e também a presença da exposição ao ruído nos processos de trabalho, associada à perda auditiva.

A saúde do trabalhador rural, cenário desta pesquisa, se reveste de complexidades diante da natureza dos riscos. A superação dos limites discutidos deve servir de balizamento para o desenvolvimento de outras pesquisas, no território das exposições combinadas, que buscam elucidar a relação saúde- -trabalho e assim contribuir para prevenção e consequente redução do número de acidentes de trabalho e sua gravidade.

 

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Recebido em 26 de Setembro de 2018.
Aceito em 24 de Julho de 2019.

Fonte de financiamento: Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Código Financeiro 001


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