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ARTIGO ORIGINAL

Efetividade de um programa de prevenção e capacitação para redução de acidentes ocupacionais por material biológico

Effectiveness of a prevention and training program to reduce work accidents involving exposure to biological materials

Tatiana Verardi Pedroso Basso1; Eunice Beatriz Martin Chaves1; Dvora Joveleviths1; Gerson Joveleviths Knijnik2; Stéfani Ribeiro Rodrigues2

DOI: 10.5327/Z1679443520190411

RESUMO

INTRODUÇÃO: Os acidentes de trabalho com material biológico (ATMB) vêm aumentando significativamente no decorrer dos anos e suas consequências de maior importância epidemiológica são as transmissões de patógenos como os vírus da imunodeficiência humana e das hepatites B e C.
OBJETIVO: Avaliar a efetividade de um programa de prevenção e capacitação para redução de acidentes ocupacionais por material biológico em hospital-escola a partir da incidência dos ATMB durante os oito anos de implementação do programa.
MÉTODOS: O presente estudo foi realizado de forma descritiva, retrospectiva, por coleta no banco de dados do Serviço de Tecnologia em Recursos Humanos de um hospital-escola. A população do estudo foi composta por 1.445 funcionários do hospital-escola que sofreram acidente ocupacional de exposição com material biológico do tipo perfurante ou cortante.
RESULTADOS: De um total de 1.445 acidentes de trabalho com instrumentos perfurantes ou cortantes, 47,5% foram por descarte inadequado de materiais potencialmente contaminados. Foi observada uma taxa de queda anual de 0,21% nos acidentes percutâneos e de 0,36% nos acidentes percutâneos por descarte inadequado.
CONCLUSÃO: Os achados deste estudo indicam que o programa desenvolvido e implementado resultou na diminuição significativa dos acidentes ocupacionais por material biológico do tipo perfurocortante.

Palavras-chave: prevenção de acidentes; saúde do trabalhador; exposição ocupacional; fatores biológicos; medidas de segurança.

ABSTRACT

BACKGROUND: The frequency of work accidents involving exposure to biological materials (WAEMB) is significantly increasing. The most relevant epidemiological consequences of this type of accidents are due to the transmission of pathogens including the human immunodeficiency and hepatitis B and C viruses.
OBJECTIVE: To assess the effectiveness of a prevention and training program to reduce the incidence of WAEMB at a teaching hospital along 8 years of implementation. Methods: Retrospective descriptive study based on data obtained from the hospital Human Resource Technology Department. We analyzed records of 1,445 hospital employees who suffered sharps injuries.
RESULTS: About 50% of the incidents were caused by inadequate sharps disposal. The overall rate of sharps injuries decreased by 0.21%/year and that of accidents due to inadequate sharps disposal by 0.36%.
CONCLUSION: The results of the present study indicate that the implemented program was associated with significant reduction of the incidence of WAEMB.

Keywords: accident prevention; occupational health; occupational exposure; biological factors; security measures.

INTRODUÇÃO

Os acidentes de trabalho são definidos como aqueles que ocorrem pelo exercício do trabalho, provocando lesões corporais ou perturbações que levam a morte, perda ou redução permanente ou temporária da capacidade de atuação profissional1. Esses acidentes podem ser divididos em típicos (decorrentes da característica da atividade profissional desempenhada pelo profissional) ou de trajeto (ocorrendo durante a locomoção do profissional ao local de trabalho) e são classificados em biológicos, físicos, químicos, mecânicos, fisiológicos e psíquicos, variando em incidência dentre as profissões2.

Os acidentes resultantes de exposição a materiais biológicos são caracterizados pelo contato direto com fluidos potencialmente contaminados e são classificados como exposições percutâneas (lesões provocadas por instrumentos perfurantes e/ou cortantes), em mucosas (envolvendo olhos, nariz, boca ou genitália), cutâneas (envolvendo pele não íntegra ou pele íntegra) e mordedura/arranhadura. As exposições percutâneas ocorrem durante a manipulação de agulhas, lâminas de bisturi, tesouras e outros instrumentos potencialmente cortantes3 e são as mais comuns entre os profissionais da área da saúde. Em todos os estados do Brasil, a maior parte dos acidentes por exposição percutânea é relacionada ao descarte inadequado de material perfurante e/ou cortante, sendo maior no Nordeste brasileiro4.

Entre as ocupações que mais notificaram acidentes de trabalho por exposição a material biológico estão: os técnicos e auxiliares de enfermagem, enfermeiros e médicos. Em 2014, as atividades de atendimento hospitalar ocupavam o segundo lugar na lista de atividades econômicas com maior número de afastamentos por doença ocupacional no Brasil. De acordo com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), o número de notificações de agravos relacionados ao trabalho por exposição a material biológico aumentou de 15.735 casos em 2007 para 47.292 casos em 2014. Esses acidentes são mais frequentes em indivíduos do sexo feminino (78,5% dos casos) e em indivíduos na faixa etária de 20 a 29 anos (36,3% dos casos), seguidos pelos indivíduos entre 30 e 39 anos (34,7% dos casos)4.

Atualmente, são conhecidos mais de 20 tipos diferentes de patógenos que podem ser transmitidos em acidentes de trabalho com material biológico (ATMB), sendo os de maior significância epidemiológica os vírus da imunodeficiência humana (HIV) e das hepatites B (HBV) e C (HCV)5-7. Estudos indicam que a maioria dos casos de exposição a materiais biológicos no âmbito ocupacional resulta em contaminação por HIV, HBV e HCV, e suas consequências vão além da infecção, podendo resultar também em trauma psicológico2,8,9. Esses acidentes são caracterizados como emergência médica e suas intervenções para possível profilaxia das infecções precisam ser iniciadas nas primeiras horas após o contato com os vírus para ter maior eficácia. Entretanto, diversos estudos indicam que grande parte dos ATMB podem ser evitados a partir de medidas simples de segurança, como conscientização dos profissionais da saúde em relação aos perigos de contaminação, cuidados durante a manipulação, descarte de material potencialmente contaminado, utilização de equipamentos de proteção individual (EPI), entre outros10,11.

Com base nessas informações, é indiscutível a importância de medidas preventivas de acidentes de trabalho com risco biológico, assumindo que os ATMB não podem ser encarados como fenômenos fortuitos ou casuais. A Organização Mundial da Saúde (OMS) sugere fortemente a implementação de programas de prevenção à exposição ocupacional a infecções por agentes patogênicos transmitidos pelo sangue, assim como atenção à saúde ocupacional básica (imunizações), prevenção das lesões por perfurocortantes e gestão das exposições ao sangue12. Entretanto, medidas preventivas devem ser estudadas e sua eficácia deve ser comprovada para que a implementação do programa realmente resulte na diminuição dos acidentes de trabalho.

Dessa forma, o objetivo deste estudo foi avaliar a efetividade de um programa de prevenção e capacitação para redução de acidentes ocupacionais por material biológico em hospital-escola a partir da incidência dos ATMB durante os oito anos de implementação do programa.

 

MÉTODOS

Trata-se de um estudo descritivo, de coleta retrospectiva por meio do banco de dados do Serviço de Tecnologia em Recursos Humanos (STARH) do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Rio Grande do Sul.

Após aceite e assinatura do Termo de Consentimento Institucional pelos responsáveis do banco de dados da instituição hospitalar de ensino, foram analisados 1.785 prontuários de funcionários do hospital-escola que sofreram acidentes ocupacionais de exposição a material biológico. Foram incluídos neste estudo os acidentes ocupacionais de exposição a material biológico do tipo perfurante ou cortante e que ocorreram durante o período de oito anos correspondentes à implementação de cada uma das fases do programa de prevenção e capacitação. Foram excluídos os relatos de acidentes de contato de fluidos corporais com pele íntegra, pele não íntegra e mucosa.

As variáveis analisadas foram compostas por identificação pessoal do acidentado, profissão, descrição do acidente, local do acidente, tipo de contato (percutâneo, mucosa, pele íntegra e/ou pele não íntegra), risco (exposição aos vírus HCV, HBV e/ou HIV), data do acidente, momento do acidente (antes, durante ou após o procedimento) e se houve ou não relação causal com o descarte inadequado de materiais utilizados. Foi considerada descarte inadequado toda ação/omissão ocorrida após a realização de algum procedimento, cujo descarte do material utilizado no procedimento não recebeu o cuidado recomendado de ser colocado, imediatamente após seu uso, em coletor de papelão ou plástico rígido próprios para esse fim. Foram incluídas no descarte inadequado as ações que causaram acidentes percutâneos, tais como reencapar agulhas, manipular ou usar descarpak cheio além do limite recomendável e durante a limpeza de locais (incluindo coleta de lixo, roupas sujas e de materiais usados em procedimentos).

 

O PROGRAMA DE PREVENÇÃO E CAPACITAÇÃO

Com base na análise das principais causas de acidentes com perfurocortantes, foi desenvolvido o projeto de intervenção baseado na implementação e/ou substituição de equipamentos utilizados nas enfermarias e blocos cirúrgicos para redução de acidentes de natureza perfurocortante com material biológico nos grupos de profissionais em maior risco de exposição. Além disso, para cada equipamento implementado foi realizada a capacitação, de caráter mandatório, para utilização adequada do equipamento. A capacitação foi composta por material teórico e atividade prática e foi disponibilizada no mesmo formato para todos os profissionais. O programa foi dividido em 4 etapas, cada uma com duração de aproximadamente 24 meses, totalizando 8 anos para implementação completa do programa.

A primeira etapa do programa foi caracterizada pela introdução do lancetador descartável e pelas capacitações dos profissionais de saúde atuantes em enfermarias e blocos cirúrgicos. Essa etapa teve como foco a conscientização de descarte de material potencialmente contaminado.

Na segunda etapa do programa foi iniciado o uso da agulha vermelha com ponta romba. A utilização da agulha vermelha era designada exclusivamente para o preparo de diluição de medicamentos, sem entrar em contato com material biológico.

A terceira etapa do programa foi caracterizada pelo início do uso da agulha para coleta com tubo a vácuo e canhão com dispositivo para descarte, coletor plástico rígido de perfurocortante, lanceta de hemoglicoteste com disparo automático e mecanismo bloqueador de uso único e cateter endovenoso periférico com dispositivo de segurança.

Na última etapa do programa de prevenção foi introduzida a seringa de salinização e a seringa para coleta de gasometria, e por fim foi iniciado o programa de capacitação teórica em forma de ensino a distância (EAD) para os profissionais da área da saúde.

 

ANÁLISE DOS DADOS

Os acidentes de trabalho foram divididos por profissão, resultando em seis grupos: técnicos de enfermagem, enfermeiros, profissionais de higienização, médicos, residentes (médicos e profissionais incluídos no programa de residência integrada multidisciplinar em saúde) e outros (setor administrativo). A análise do período avaliado foi dividida em períodos de aproximadamente 12 meses.

A análise dos dados quantitativos foi realizada por meio do teste de regressão linear, com o intuito de verificar o coeficiente angular entre o número de acidentes por ano em cada uma das profissões. O nível de significância adotado foi de 5% (p=0,05) e as análises foram realizadas utilizando o programa Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) versão 21.0 para Windows.

A pesquisa obedeceu ao que determina o Conselho Nacional de Saúde, na Resolução nº 510/16, para pesquisas em ciências humanas e sociais, cujos procedimentos metodológicos envolvem a utilização de banco de dados, em que informações são agregadas sem possibilidade de identificação individual, sendo dispensada de avaliação por Comitê de Ética em Pesquisa (CEP).

 

RESULTADOS

De um total de 1.785 acidentes com material biológico, foram incluídos neste estudo 1.445 acidentes que ocorreram a partir de instrumentos perfurantes ou cortantes, sendo que 47,5% desses acidentes (687 casos) resultaram do descarte inadequado dos instrumentos perfurocortantes. Os dados coletados do banco de dados revelaram uma queda anual de 0,21% no número total de acidentes ocupacionais com material biológico por perfurocortantes e podem ser observados no Gráfico 1.

 


Gráfico 1. Distribuição do número de acidentes com materiais perfurocortantes por meses de implementação. Porto Alegre, 2013 (n=1.445).

 

No Gráfico 2 é representada a distribuição da taxa de acidentes ocupacionais com materiais perfurocortantes por descarte inadequado por ano. Pode-se observar queda de 0,36% (p<0,001) entre períodos de 12, 48 e 96 meses após o início das capacitações de dispositivos de segurança.

 


Gráfico 2. Distribuição do número de acidentes por descarte inadequado por meses de implementação. Porto Alegre, 2013 (n=1.445).

 

No Gráfico 3, pode-se observar que os acidentes ocorridos com os residentes sofreram pouca mudança, com aumento na taxa de 9,7% em 12 meses para 11% em 96 meses (p=0,573). Já os técnicos de enfermagem apresentaram queda nos acidentes percutâneos, com taxas de 6,9% na primeira etapa do programa, para 3,9% na etapa final (p=0,013). Assim como os enfermeiros, que obtiveram queda de 5,9% na primeira etapa para 2,4% no número de acidentes percutâneos (p=0,004) na etapa final do programa. Em relação ao número de acidentes por categoria profissional, os residentes foram os que sofreram mais acidentes, seguidos pelos técnicos de enfermagem e enfermeiros.

 


Gráfico 3. Distribuição do número de acidentes com materiais perfurocortantes por categoria profissional por meses de implementação. Porto Alegre, 2013 (n=1.445).

 

Os resultados obtidos quanto aos números de acidentes por descarte inadequado podem ser observados no Gráfico 4. A categoria profissional que mais se acidentou foi a dos técnicos de enfermagem, seguida pelos enfermeiros e residentes. Da etapa inicial até a etapa final do programa, as taxas de acidentes por descarte inadequado envolvendo os técnicos de enfermagem apresentaram queda de 6,4 para 1,5% (p=0,000); os enfermeiros de 4,4 para 1% (p=0,005); e os residentes de 3,5 para 0,6% (p=0,004).

 


Gráfico 4. Distribuição do número de acidentes por descarte inadequado por categoria profissional por meses de implementação. Porto Alegre, 2013 (n=1.445).

 

A Tabela 1 apresenta a distribuição dos acidentes percutâneos e por descarte inadequado por categoria profissional. Observa-se que os técnicos de enfermagem totalizam 46,1% dos acidentes percutâneos e 62,1% dos acidentes por descarte inadequado. Os residentes totalizam 27,1% dos acidentes percutâneos e somente 7,27% dos acidentes por descarte inadequado. Os profissionais de higienização representam 8,5% dos acidentes percutâneos e 16% dos acidentes por descarte inadequado.

 

 

DISCUSSÃO

No presente estudo, a taxa de acidentes percutâneos aumentou durante os primeiros 48 meses de implementação do programa de prevenção (correspondentes às etapas 1 e 2 do programa), quando obteve seu pico máximo. Estudiosos relacionaram esse achado com a conscientização da gravidade dos acidentes, que resulta no aumento da notificação e não necessariamente no aumento do número de acidentes. Esse achado já era esperado e está de acordo com outros estudos que evidenciaram o mesmo aumento13,14.

Entretanto, depois dos 48 meses iniciais, é possível observar uma queda importante dos acidentes ocupacionais. Acredita-se que essa queda esteja relacionada ao programa que, a esse ponto, já havia atingido toda a população-alvo com suas etapas 1 e 2. Isso significa que os profissionais da saúde estavam capacitados a utilizar os novos equipamentos e que a agulha vermelha com ponta romba, o lancetador descartável, a agulha para coleta com tubo a vácuo e canhão com dispositivo para descarte, o coletor plástico rígido de perfurocortante, a lanceta de hemoglicoteste com disparo automático com mecanismo bloqueador de uso único e o cateter endovenoso periférico com dispositivo de segurança já estavam em uso nas enfermarias e blocos cirúrgicos do hospital. Esse achado foi descrito por outros estudiosos, que também descrevem queda importante dos acidentes ocupacionais por perfurocortantes em centros de saúde que implementaram programas de prevenção e capacitação dos profissionais mais afetados15-17.

A redução dos acidentes com risco de contaminação a partir da implementação dos novos equipamentos também pode ser observada em estudos que apresentaram uma redução importante após a implementação da agulha vermelha com ponta romba, por exemplo, que demonstrou-se responsável pela redução do uso de agulhas que entravam em contato com material biológico em cerca de 95 mil unidades ao mês18,19. Outro exemplo bastante descrito na literatura é o coletor plástico rígido de perfurocortantes, o qual ajudou a diminuir o número de acidentes durante o descarte pelos profissionais da saúde e também os acidentes com a equipe de higienização hospitalar.

A incidência de acidentes percutâneos ocorridos entre os residentes dessa instituição não apresentou melhora no período total analisado. Entretanto, é importante observar que a população de residentes, além de ser um grupo de alta rotatividade de profissionais por semestre, é composta por profissionais da área da saúde que estão, em geral, entre o primeiro e o terceiro ano de atividade profissional. Estudiosos afirmam que o tempo de experiência profissional interfere no número de acidentes de trabalho, sendo os profissionais com cinco anos ou menos de experiência os que mais sofrem acidentes ocupacionais20.

Já na equipe de enfermagem, o número de acidentes teve queda significativa. É importante observar que as medidas de prevenção foram principalmente direcionadas às mudanças em relação ao preparo e à aplicação de medicamentos, o que é mais comumente feito por profissionais da área da enfermagem e justifica a redução significativa dos acidentes nessa classe profissional. Esse achado corrobora dados de outros estudos, que identificaram redução do número de acidentes com perfurocortantes em enfermeiros nas unidades prestadores de serviços de saúde que implementaram programas de prevenção de acidentes com material biológico8,21.

Nos acidentes ocupacionais com perfurocortantes por descarte inadequado, os técnicos de enfermagem, enfermeiros e alunos residentes foram os mais afetados. Entretanto, pode-se observar redução de ocorrência significativa em todas as classes de trabalhadores analisadas. Acredita-se que esse achado evidencie, além da importância da implementação de equipamentos que proporcionem maior segurança no momento do descarte (programa de prevenção), a eficácia do programa de capacitação para sua utilização, uma vez que projetos como esse promovem não só um maior entendimento dos riscos, mas também implementam medidas mais seguras, mostrando a importância do cuidado com a saúde22-24. Esse achado foi evidenciado por estudiosos que afirmam que os programas de prevenção e capacitação causam efeitos positivos em relação aos acidentes por descarte inadequado17,25. Estudos sobre os acidentes de trabalho com perfurocortantes por descarte inadequado também concluíram que a classe que mais notificou esse tipo de acidente foi a de técnicos de enfermagem26-29.

O estudo realizado apresentou como limitação a dificuldade em obter mais informações sobre os trabalhadores envolvidos, uma vez que o acesso aos dados ficou restrito aos prontuários dos funcionários do hospital-escola.

 

CONCLUSÃO

Os grupos que mais sofreram acidentes no decorrer de oito anos foram os técnicos de enfermagem, enfermeiros e médicos residentes. O número desses acidentes diminuiu significativamente da etapa inicial do programa até a etapa final; e a significância foi ainda maior quando analisados somente os acidentes por descarte inadequado de material potencialmente contaminado.

Acredita-se que programas de intervenção e prevenção de acidentes ocupacionais com material biológico aumentem a conscientização sobre possíveis contaminações e possibilidades de profilaxia em profissionais da saúde. Sugere-se fortemente que programas como esse sejam implementados de forma obrigatória em todos os locais de trabalho onde os profissionais estão expostos a esse tipo de risco, com ênfase a programas específicos para médicos residentes antes e durante a prática médica hospitalar. Um profissional da saúde pode ajudar muitos pacientes; e cada profissional que deixa seu trabalho pode significar mais vidas perdidas.

 

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Recebido em 17 de Março de 2019.
Aceito em 18 de Julho de 2019.

Fonte de financiamento: nenhuma


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