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ARTIGO DE REVISAO

Reabilitação profissional e retorno ao trabalho: uma revisão integrativa

Vocational rehabilitation and return to work: integrative review

Rose Meire Canhete Pereira1; Inês Monteiro2

DOI: 10.5327/Z1679443520190350

RESUMO

Analisando-se as tendências globais de crescimento populacional e o envelhecimento da população, que implica no aparecimento de doenças crônicas, além das doenças e acidentes em geral (relacionados ou não ao trabalho), observa-se crescente necessidade de implementação dos serviços de reabilitação no mundo. A reabilitação envolve três aspectos: reabilitação médica, profissional e social. Este estudo teve por objetivo identificar e apresentar a produção de conhecimento dos processos de reabilitação profissional em diversos países, bem como identificar estratégias para a reintegração ao trabalho de pessoas com restrições decorrentes de doenças ou acidentes em geral, por meio da reabilitação profissional durante os últimos 30 anos. Foi realizada uma revisão integrativa em portais de pesquisa em saúde - Biblioteca Virtual em Saúde - Biblioteca Virtual em Medicina (BVS-BIREME), PubMed -, bases de dados - Embase, Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature (CINAHL), PsycINFO, Web of Science, Sociological abstracts, Education Resources Information Center (ERIC) - e banco de dados (SCOPUS). No total, 1.109 publicações foram identificadas. Após avaliação metodológica, 12 foram consideradas elegíveis e incluídas. Os estudos avaliaram novas abordagens e a implementação de programas existentes, novos projetos/programas e medidas educacionais para trabalhadores em licença médica. A maioria considerou a multidisciplinaridade, a abordagem educacional complementar, a intervenção precoce e a possibilidade de ajustes no ambiente de trabalho. As publicações sobre novos projetos foram relacionadas a programas de retenção no emprego e retorno ao trabalho para trabalhadores desempregados e temporários. Há um pequeno número de estudos descrevendo programas de reabilitação ocupacional e dificuldades em avaliar sua eficácia. A produção científica ainda é discreta quando comparada à necessidade relacionada a esse tema na atualidade.

Palavras-chave: reabilitação profissional; retorno ao trabalho; seguridade social.

ABSTRACT

Analysis of population growth trends and aging—which is associated with occurrence of chronic diseases, in addition to (work-related or not) diseases and accidents in general—points to an increasing need to implement rehabilitation services worldwide. Rehabilitation comprises three aspects: medical, vocational and social. The aim of the present study was to describe the state of the art in vocational rehabilitation approaches in several countries, as well as vocational rehabilitation-based return-to-work strategies for individuals with restrictions due to diseases and accidents in general developed in the past 30 years. We performed an integrative review of studies located in databases Virtual Health Library-Regional Library of Medicine (VHL-BIREME), PubMed, Embase, Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature (CINAHL), PsycINFO, Web of Science, Sociological Abstracts, Education Resources Information Center (ERIC) and SCOPUS. A total of 1,109 studies were initially retrieved, of which 12 were considered eligible on methodological assessment and included for review. The selected studies analyzed new approaches and the implementation of existing programs, new programs/projects, and educational measures for workers on sick leave. Most programs had multidisciplinary nature and included complementary educational approaches, early intervention, and possibility of workplace adjustments. The studies on new projects consisted in job retention and return-to-work programs for unemployed or temporary workers. The number of studies which describe occupational rehabilitation programs is small and evaluating their efficacy is difficult. Scientific research on this subject is still scarce vis-à-vis the current demands.

Keywords: rehabilitation, vocational; return to work; social security.

INTRODUÇÃO

De acordo com as Nações Unidas, é imprescindível, na atualidade, compreender as mudanças demográficas que ocorrerão nos próximos anos, assim como os desafios e as oportunidades que se apresentam para alcançar o desenvolvimento sustentável. A população mundial atingiu 7,3 bilhões até a metade de 2015, o que representa crescimento de aproximadamente 1 bilhão de pessoas nos últimos 12 anos. Em 2015, havia 901 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, correspondendo a 12% da população mundial, e esse grupo apresentou taxa de crescimento de 3,26% ao ano1.

O número de pessoas idosas no mundo deverá atingir 1,4 bilhão em 2030 e 2,1 bilhões em 2050, podendo ascender a 3,2 bilhões em 2100. A Europa possui a maior porcentagem de população com 60 anos ou mais (24%), porém o envelhecimento rápido da população também ocorre em outras partes do mundo1. O Japão, por sua vez, apresenta aumento na expectativa de vida, com o envelhecimento da população associado à baixa taxa de fecundidade, o que leva à necessidade de desenvolver políticas públicas que respondam a essa demanda2. Até 2050 todas as principais áreas do mundo, exceto a África, terão quase um quarto ou mais de sua população com 60 anos ou mais1. Esses números causarão grande impacto sobre os serviços de previdência e seguridade social dos diversos países.

De acordo com o relatório da Organização Mundial de Saúde/Banco Mundial sobre incapacidade, aproximadamente um bilhão de pessoas ou 15% da população mundial tem incapacidade, dos quais 110-190 milhões de adultos apresentaram incapacidade muito significativa. Esse número deverá aumentar devido ao envelhecimento da população global e à incidência de doenças crônicas, em conjunto com outros fatores ambientais, como lesões causadas por acidentes rodoviários, mudanças climáticas, catástrofes naturais e conflitos3.

Ações voltadas para a prevenção de doenças, ações realizadas nos locais de trabalho (por meio de intervenções de saúde ocupacional e segurança do trabalho) e fora do local de trabalho (por meio de intervenções de saúde pública) são essenciais. Porém, se a doença ocorre, medidas focando a reabilitação e o retorno ao trabalho são de extrema importância.

O trabalho tem sido identificado como meio importante para atender às necessidades básicas de um indivíduo. Além disso, é extremamente importante para o bem-estar de uma pessoa do ponto de vista financeiro, psicológico e emocional, além de ser fundamental no desenvolvimento da autoestima, status social, senso pessoal de conquista, independência, liberdade e segurança4.

O retorno ao trabalho é um conceito que abrange todos os procedimentos e iniciativas destinados a facilitar a reintegração de pessoas ao trabalho; as quais apresentam redução na capacidade de trabalho devido a invalidez, doença ou envelhecimento5.

O conceito de retorno ao trabalho se aplica ao contexto político atual, que objetiva a manutenção da sustentabilidade dos sistemas de seguridade social, assim como a redução do impacto econômico dos afastamentos por doença e retorno ao trabalho gerenciado inadequadamente, que levam ao desemprego, pensões por invalidez ou aposentadorias precoces4.

Em vários países a questão política central relativa ao retorno ao trabalho é a falta de sustentabilidade dos sistemas de seguridade social, além da necessidade de reforma na gestão do afastamento por doença e incapacidade laboral5. Os afastamentos por doenças crônicas e aposentadorias precoces causam perda salarial ao trabalhador, assim como custo físico e emocional. As empresas, por sua vez, apresentam custo adicional pelo turnover de empregados e tempo perdido no gerenciamento do afastamento, além do custo para a sociedade.

A aposentadoria por invalidez implica ônus significativo para as sociedades, agregando-se aos desafios trazidos pelo envelhecimento da força de trabalho5. Uma vez que ocorre, com frequência, em idade relativamente jovem, reduz consideravelmente a idade de aposentadoria efetiva. Além dos custos para a sociedade, a aposentadoria precoce tem consequências importantes também para o indivíduo, pois o trabalho é uma importante fonte de bem-estar material e psicológico.

Um estudo desenvolvido pela comunidade europeia apresenta perspectiva ampla sobre reabilitação profissional5. Enquanto organizações internacionais discutem a reabilitação, com ênfase no contexto de pessoas com deficiência, o estudo citado considera que todos os trabalhadores podem estar em situação potencial de risco de exclusão do mercado de trabalho devido a problemas de saúde e não apenas as pessoas oficialmente reconhecidas como deficientes. Em entendimento mais abrangente, isso inclui todos os trabalhadores previamente saudáveis que se ausentam do trabalho por doenças de médio/longo prazo, ou ausências curtas regulares (por conta de doenças crônicas), além dos que precisam de suporte para voltar para o trabalho, seja no local de trabalho anterior ou em local diferente, mesmo que não tenham sido formalmente reconhecidos como deficientes5.

O risco aumentado de desenvolvimento de problemas de saúde enquanto o trabalhador está trabalhando afeta a taxa de saída do mercado de trabalho devido a problemas de saúde. Ainda que nem todas as aposentadorias precoces estejam relacionadas a problemas de saúde, há ampla evidência que sugere que questões de saúde têm importante contribuição5.

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) afirma que muitas pessoas com incapacidade para o trabalho deixam o mercado de trabalho permanentemente, e poucos são capazes de retornar ao trabalho ou permanecer nele6. Portanto, estimular a participação, aumentando a força de trabalho, é uma questão importante nas agendas científica e política, e há forte ênfase no momento atual para incentivar as pessoas a trabalhar com sua capacidade residual de trabalho e evitar a saída permanente do trabalho7.

Os serviços de reabilitação devem ser ampliados em países de todo o mundo, particularmente nos de baixa e média renda. A reabilitação deve estar disponível e acessível para quem necessita8.

A reabilitação possui três aspectos diferentes: reabilitação médica, que visa restaurar a capacidade funcional e mental e a qualidade de vida de pessoas com deficiência mental ou física; reabilitação vocacional (ou profissional), que visa permitir que pessoas com deficiências físicas ou mentais consigam superar barreiras quanto ao acesso, manutenção ou retorno ao trabalho; e reabilitação social, que visa facilitar a participação de pessoas com deficiência na vida social8.

Os objetivos deste estudo foram: identificar e apresentar a produção de conhecimento dos processos de reabilitação profissional com foco no retorno ao trabalho em diversos países e identificar estratégias para a reintegração ao trabalho de pessoas com restrições decorrentes de doenças ou acidentes em geral, por meio da reabilitação profissional durante os últimos 30 anos.

 

MÉTODO

A revisão integrativa é um método específico, que resume o passado da literatura empírica ou teórica sobre determinado tema9; contribui para o desenvolvimento teórico e tem aplicabilidade direta na prática e nas políticas10. Objetiva traçar a análise sobre o conhecimento já construído em pesquisas anteriores sobre determinado tema; possibilita a síntese de vários estudos já publicados, permitindo a geração de novos conhecimentos, pautados nos resultados apresentados pelas pesquisas anteriores11-13.

O método integrativo é a única abordagem que permite a combinação de diversas metodologias. Além disso, essa combinação metodológica desempenha papel importante na prática baseada em evidências14.

A revisão integrativa seguiu as etapas descritas por Whittemore e Knafl10. Visando à manutenção do rigor metodológico, foi demonstrado cada passo realizado da pesquisa, objetivando sua reprodutibilidade, utilizando-se um protocolo de pesquisa.

Como bases bibliográficas em saúde foram utilizados os portais de pesquisa em saúde Biblioteca Virtual em Saúde - Biblioteca Regional de Medicina (BVS-BIREME) e PubMed; as bases de dados Sistema Online de Busca e Análise de Literatura Médica (MEDLINE), Embase, Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), Cumulative Index to Nursing and Allied Healthcare Literature (CINAHL), PsycINFO, Web of Science, Sociological Abstracts, Education Resources Information center (ERIC); e o banco de dados SCOPUS.

Como estratégia de busca foram delimitados os vocabulários de descritores controlados: Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) - BVS/BIREME; Medical Subject Headings (MeSH) - MEDLINE/PubMed; e EMTREE (EMBASE) para a execução da pesquisa, e utilizados os operadores booleanos (and, or e not) como delimitadores.

Não foram utilizados filtros para tipos de artigos. Foram incluídos estudos qualitativos e quantitativos, nas seguintes línguas: português, inglês, espanhol, italiano, francês e alemão, publicados entre 01/01/1988 e 05/04/2018 (últimos 30 anos).

Os estudos incluídos como resultado de pesquisa manual (hand search) foram identificados nas mesmas bases bibliográficas descritas anteriormente, porém não seguindo a estratégia de busca delimitada.

O Quadro 1 descreve os critérios de elegibilidade utilizados (inclusão e exclusão).

 

 

A seleção dos artigos incluídos foi realizada por dois revisores, a saber, a primeira e a segunda autora, de forma independente. Os estudos duplicados foram excluídos por meio da ferramenta EndNote®. Por vezes, em decorrência de grafias diferentes ou abreviaturas, a duplicação não foi identificada pelo EndNote®. Nesses casos a duplicação foi excluída manualmente.

A seleção teve início pela avaliação do título do artigo e de seu resumo, de acordo com os critérios de inclusão e exclusão descritos anteriormente. A seguir, foi realizada leitura integral dos artigos pré-selecionados, sendo mantidos os critérios de exclusão. As informações extraídas dos estudos selecionados foram apresentadas de forma organizada e sumarizada, para análise dos estudos selecionados. Essas atividades foram realizadas pelas duas autoras.

A recomendação Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA) foi observada, com o objetivo de melhorar o relato das revisões realizadas15,16.

Foram utilizadas duas estratégias de busca com uso dos termos mais frequentes na abordagem do tema:

• Estratégia de busca #1: Return to Work AND Rehabilitation, Vocational;

• Estratégia de busca #2: Return to Work AND Rehabilitation, Vocational AND Social Security.

Para definição das estratégias de busca, foram utilizadas palavras-chave relacionadas ao tema, sendo elaborado um protocolo para orientação dos trabalhos relativos à revisão integrativa, no qual se descreve inclusive o resultado do cruzamento das estratégias de busca definidas. O objetivo do cruzamento das duas estratégias foi obter maior abrangência nos resultados envolvendo o tema principal.

A identificação da força de evidência dos estudos selecionados foi realizada com base no Johns Hopkins Nursing Evidence-based practice: model and guidelines (Modelo e diretrizes da prática baseada em evidências de enfermagem)17.

 

RESULTADOS

A estratégia de busca utilizada para a revisão integrativa resultou na seleção de 2.642 estudos. Os artigos duplicados foram excluídos utilizando a ferramenta EndNote® e manualmente. Foram selecionados 1.109 estudos para leitura de título e resumo. Desse total, 33 estudos foram selecionados para leitura integral do texto, sendo selecionados 11 estudos. A pesquisa manual (hand search) contribuiu com cinco artigos, dos quais um foi selecionado após leitura do título e resumo. Assim sendo, o número total de estudos selecionados na revisão integrativa foi de 12 estudos.

A Tabela 1 apresenta os resultados das estratégias de buscas utilizadas nas fontes (bases de dados, portais de saúde e banco de dados). A Figura 1 apresenta o fluxograma seguido de acordo com a recomendação PRISMA.

 

 

 


Figura. 1. Fluxograma Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA).

 

Após seleção inicial de 1.109 estudos, com base na leitura de título e resumo por duas pesquisadoras, observou-se que a grande maioria estava relacionada à questão do retorno ao trabalho e estratégias utilizadas para o efetivo retorno ao trabalho, além de muitos que descreviam a reabilitação médica propriamente dita. A maioria não descrevia ou detalhava a reabilitação profissional, muitas vezes apenas citando o processo como parte de uma perspectiva ampliada que seria o retorno ao trabalho, sem detalhamento.

Os temas abordados com maior frequência nos estudos excluídos foram: lesão medular, acidente vascular cerebral e infarto agudo do miocárdio, além de quadros ortopédicos.

Nota-se a abrangência nos estudos incluídos na revisão integrativa no que se refere aos países em que foram realizados, sendo dois da Alemanha e o restante de países com um estudo cada: Noruega, Holanda, Reino Unido, França, Austrália, Dinamarca, Estados Unidos e China.

Quanto à divisão por sistemas abordados, dois estudos discutiram programas de reabilitação envolvendo distúrbios musculoesqueléticos, dois envolveram problemas neurológicos, um era sobre distúrbios mentais, um reportou pacientes oncológicos e dois abordaram doenças em geral. As revisões sistemáticas abordaram doenças crônicas e reintegração do trabalhador de forma geral; e outro estudo apresentou questões voltadas a "treinamentos" educacionais.

O Quadro 2 apresenta os estudos incluídos na revisão integrativa, com dados sobre autor, ano de publicação do estudo, país de origem, objetivo da pesquisa, amostra, delineamento do estudo, análise utilizada e resultados obtidos.

 

 

O Quadro 3 apresenta os estudos de acordo com a amostra avaliada, a indicação do programa de reabilitação profissional existente, a existência de multidisciplinaridade ou não no programa, a referência à abordagem complementar educacional e a presença de uma intervenção precoce, além da possibilidade de ajustes no local de trabalho.

 

 

A revisão sistemática da Dinamarca25 não foi incluída no Quadro 3 por se tratar de estudo que aborda exclusivamente o tema de treinamentos educativos voltados para a reintegração do trabalhador.

Analisando o Quadro 3, observa-se que todos os estudos selecionados apresentaram a multidisciplinaridade como característica marcante, seguida pela presença da intervenção precoce e da possibilidade de ajustes nos locais de trabalho. A abordagem educacional complementar não foi citada nos estudos da China26, Holanda29 e Reino Unido21.

A Tabela 2 subdivide os estudos conforme os temas apresentados, se já havia um programa de reabilitação profissional em curso e se abordava a implementação desse programa; se foi incluída abordagem diferenciada ao programa existente ou se apresentava um programa/projeto novo.

 

 

Apenas dois estudos apresentaram novas propostas referindo-se à retenção do emprego e abordagem de trabalhadores sem contrato de trabalho ou com contratos temporários. O restante dos estudos refere-se a programas já implantados com novas abordagens ou propostas de implementação.

 

DISCUSSÃO

Foram identificados inúmeros estudos na revisão integrativa, porém a maioria deles abordava o retorno ao trabalho de forma geral, sem indicação do processo de reabilitação profissional implantado.

Observou-se pequeno número de estudos que descreviam os programas de reabilitação existentes.

A análise comparativa de dados entre países é complexa, pois existe diversidade de abordagens, além das diferenças culturais e de políticas públicas. A dificuldade na avaliação da eficácia desses programas foi evidenciada na revisão sistemática de 201423.

Muitos países europeus apresentam visão holística em relação ao tema e trabalham as questões voltadas para a reabilitação profissional de forma abrangente, valorizando a abordagem individualizada do trabalhador e oferecendo possibilidades de seu efetivo desenvolvimento para reintegração no mercado de trabalho.

A comunidade europeia avança nessa perspectiva com a discussão sobre o trabalho seguro e saudável para qualquer idade, valorizando a cultura da prevenção na área de saúde ocupacional e segurança do trabalho e considerando ainda o envelhecimento da população.

A cultura voltada para a doença e a incapacidade restringe o desenvolvimento dos programas de reabilitação de forma geral, uma vez que a abordagem ampla, considerando a capacidade residual do trabalhador e suas habilidades e percepções, proporciona um resultado mais positivo.

Analisando-se a produção científica existente sobre o tema, observa-se a busca direcionada para a identificação de preditores de retorno ao trabalho, com estudos nas áreas de cardiologia, ortopedia, neurologia, oncologia e de saúde mental que trabalharam a questão da identificação de preditores de retorno ao trabalho. A diferença de gênero também foi abordada em alguns estudos.

Considerando-se a revisão integrativa realizada, os resultados obtidos por meio da análise crítica dos estudos selecionados permitiram a comparação de dados com o conhecimento teórico existente. Nos 12 artigos selecionados na revisão, há evidências de estratégias positivas e facilitadoras para a reintegração do trabalhador após afastamento por diversas causas. Dentre as estruturas evidenciadas, destacam-se: delineamento de um plano de reabilitação profissional em conjunto com o trabalhador, com metas claras e bem definidas, além de prazos determinados; existência de uma coordenação do processo responsável pela intermediação entre os diversos atores; intervenção precoce quando da abordagem do trabalhador; abordagem individualizada do trabalhador (gerenciamento de caso); suporte psicológico ao trabalhador associado a uma abordagem multidisciplinar; possibilidade de ajustes no posto de trabalho para as adequações necessárias, em decorrência das restrições existentes; realização de treinamentos vocacionais direcionados ao trabalhador e possibilidade de retorno ao trabalho com redução parcial da jornada.

A União Europeia tem desenvolvido pesquisas e levantamentos sobre sistemas de reabilitação de trabalhadores doentes ou lesionados, que subsidiam a política nacional direcionada ao envelhecimento da mão de obra. Foi realizado um inventário dos países participantes da comunidade europeia em estudo realizado pela European Agency for Safety and Health at Work (EU-OSHA), com análise dos sistemas nacionais de reabilitação e retorno ao trabalho. Esse estudo possibilitou a análise de quais fatores poderiam ter papel relevante no desenvolvimento e na implementação de um sistema de reabilitação/retorno ao trabalho, identificando elementos que podem ser considerados fatores de sucesso5.

Os países participantes desse estudo foram agrupados em categorias cujos critérios incluíram: obrigações dos empregadores visando à reabilitação e o retorno ao trabalho, acesso à reabilitação profissional, abordagens de cada país quanto à incapacidade/deficiência, tempo de intervenção, foco na prevenção, coordenação dos atores envolvidos e/ou times multidisciplinares no processo de reabilitação e o nível de suporte externo para os empregadores5.

No referido estudo, países como Alemanha, Dinamarca, Finlândia, Áustria, Holanda, Noruega e Suécia destacam-se como países com processo inteligente e maduro de reabilitação/retorno ao trabalho5.

Os artigos selecionados na revisão indicam que os países que apresentam modelos de programas de reabilitação profissional e retorno ao trabalho considerados inteligentes são os que mais produziram material científico sobre o tema: dois estudos da Alemanha e um estudo de cada país: Noruega, Dinamarca e Holanda.

A Alemanha apresenta um processo de reabilitação profissional diferenciado. O estudo de 201618 evidencia que a melhoria contínua dos processos deve ser sempre prevista, uma vez que descreve uma implementação no processo de aconselhamento e gerenciamento do programa de reabilitação em curso no país, sendo a coordenação dos diversos atores reconhecidamente parte importante do processo de reabilitação profissional. O suporte adequado e precoce, voltado para orientação ocupacional com foco no retorno ao trabalho, é um agente facilitador, conforme demonstrado no estudo da Alemanha de 201319 envolvendo pacientes oncológicos.

A importância do caráter multidisciplinar de um programa de reabilitação foi evidenciada no estudo da Noruega20, com resultados mais expressivos impactando diretamente o retorno ao trabalho.

Reino Unido e França, apesar de ainda não apresentarem programas considerados inteligentes e maduros pelo estudo da EU-OSHA, desenvolveram pesquisas sobre o tema e têm discutido novas políticas que envolvem a questão do retorno ao trabalho, tendo contribuído com dois estudos21,22 selecionados na revisão integrativa.

Um deles21 aborda a questão da retenção no emprego, desafio a ser superado nos processos de reabilitação profissional e por vezes pouco mencionado nos processos de reabilitação profissional existentes.

O estudo da França22 considera o aspecto de reinserção social, ampliando a definição de reabilitação, e foi desenvolvido muito tempo depois do programa inicial de reabilitação profissional, o que pode proporcionar uma visão maior relacionada à eficácia do processo realizado.

Tópicos importantes do processo de reabilitação profissional foram citados e descritos nos estudos incluídos na revisão, tais como estruturação adequada, estratégias de integração e reintegração de trabalhadores com doenças crônicas, retenção de emprego e recolocação para trabalhadores desempregados ou com trabalhos temporários, autonomia do trabalhador para direcionar seu próprio treinamento, além de programas educacionais.

Observa-se que o processo de reabilitação tem múltiplas facetas que devem ser trabalhadas e implementadas continuamente.

A importância da intervenção precoce foi abordada no estudo da Austrália24. Dois estudos20,28 indicaram melhores resultados quando da oferta de um programa de reabilitação profissional estruturado, com autonomia do trabalhador na escolha de treinamentos para melhoria da capacidade de trabalho, o que sugere que a estruturação prévia e já definida para o trabalhador pode trazer maiores benefícios.

Já a revisão sistemática de 201827 evidencia estratégias positivas e facilitadoras para o retorno ao trabalho, tais como intervenções ergonômicas precoces, aconselhamento do trabalhador, intervenções multidisciplinares coordenadas e adaptadas para retorno ao trabalho, além de políticas ativas de mercado de trabalho focadas para a promoção do emprego e medidas de suporte passivas (como pensões).

Por conta da ampla revisão realizada, foi possível identificar estratégias voltadas para a reintegração do trabalhador após afastamento por doenças ou acidentes, evidenciando- se as melhores práticas.

Um limitador para este estudo foi a escolha das línguas para os estudos selecionados e, como exemplo, citam-se os artigos japoneses disponíveis apenas na língua japonesa.

 

CONCLUSÃO

Foram identificadas, nessa revisão, lacunas a serem preenchidas no que se refere à ampla divulgação dos processos de reabilitação de sucesso existentes, a despeito da dificuldade de avaliação de eficácia dos processos. Apesar das dificuldades que envolvem o retorno ao trabalho nos diversos países, há necessidade de estímulo à produção científica sobre o tema, visando ao desenvolvimento dos processos de reabilitação, especialmente em países que ainda possuem processos precários. A produção científica ainda é discreta, frente à grandeza do desafio existente. Ela é relevante para subsidiar a implantação de políticas públicas que favoreçam a reintegração do trabalhador. Desafio igualmente importante é a implantação de processos de reabilitação profissional para trabalhadores sem contrato de trabalho ou com contratos temporários.

Conclui-se que estudos voltados para a reabilitação profissional devam ser estimulados para a ampla discussão do tema e conscientização dos países quanto à necessidade urgente de implantação de medidas que favoreçam os processos de reabilitação profissional e retorno ao trabalho, considerando-se as necessidades dos trabalhadores, visando à melhoria da qualidade de vida, à redução das dificuldades de funcionamento relacionadas ao envelhecimento e sequelas relacionadas a diversas condições de saúde, bem como à sustentabilidade dos sistemas de seguridade social.

 

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Recebido em 7 de Dezembro de 2018.
Aceito em 10 de Julho de 2019.

Fonte de financiamento: nenhuma


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