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ARTIGO ORIGINAL

Vacinação para hepatite B e sorologia entre trabalhadores(as) da saúde em um município do Recôncavo Baiano, Brasil, 2019

Hepatitis B vaccination and serology among health personnel in a municipality in the Recôncavo Baiano, Brazil, 2019

Yvanilson Costas Farias Junior1; Fernanda de Oliveira Souza1,2; Margarete Costa Heliotério1,2; Tânia Maria de Araújo2; Paloma de Sousa Pinho1,2

DOI: 10.47626/1679-4435-2022-975

RESUMO

INTRODUÇÃO: Devido à maior susceptibilidade à contaminação pelo vírus da hepatite B em virtude do risco ocupacional, trabalhadores(as) da saúde necessitam de cuidado especial. Entretanto, estudos prévios constataram que nem todos os profissionais apresentavam esquema vacinal completo para hepatite B, como é preconizado pelo Ministério da Saúde.
OBJETIVOS: Analisar os fatores associados à vacinação completa para hepatite B e avaliar resposta sorológica pós-vacinação entre trabalhadores(as) da saúde.
MÉTODOS: Estudo transversal, realizado no município baiano de Santo Antônio de Jesus, cuja amostra foi composta por 453 trabalhadores(as) da saúde da Atenção Primária à Saúde e da média complexidade.
RESULTADOS: A prevalência de vacinação completa para hepatite B entre trabalhadores(as) da saúde foi de 56,9%. No modelo final de análise, as variáveis associadas à prevalência de vacinação completa para hepatite B foram: trabalhar no nível da Atenção Primária à Saúde (razão de prevalência = 1,31; IC95% 1,04-1,65) e preparo ou administração de medicamentos (razão de prevalência = 3,53; IC95% 2,17-5,74). Daqueles(as) que relataram o recebimento das três doses da vacina para hepatite B, 88,4% realizaram a testagem de anticorpos circulantes no sangue, e cerca de 72% estavam imunes ao vírus da hepatite B.
CONCLUSÕES: O conhecimento proporcionado pela rotina na Atenção Primária à Saúde e o reconhecimento do risco ocupacional estava associado à melhor adesão à vacina para hepatite B entre trabalhadores(as) da saúde. Quase um terço dos(as) trabalhadores(as) que receberam as três doses da vacina para hepatite B não estava imunizado, reforçando a necessidade da realização do exame anti-HBs.

Palavras-chave: vacinação; hepatite B; pessoal de saúde; sorologia.

ABSTRACT

INTRODUCTION: Health personnel are more susceptible to contamination by the hepatitis B virus due to occupational risk and need special care. Previous studies have found, however, that not all health personnel were fully vaccinated against hepatitis B, as recommended by the Ministry of Health.
OBJECTIVES: To analyze the factors associated with full hepatitis B vaccination and to evaluate post-vaccination serological response among health personnel.
METHODS: Cross-sectional study, conducted in the municipality of Santo Antônio de Jesus, Bahia, Brazil. The sample consisted of 453 health personnel from primary and medium-complex care.
RESULTS: The prevalence of full hepatitis B vaccination among health personnel was 56.9%. The variables associated with the prevalence of complete hepatitis B vaccination in the final analysis model were: working in primary health care (prevalence ratio = 1.31; 95% CI 1.04-1.65) and medicine preparation or administration (prevalence ratio = 3.53; 95% CI 2.17-5.74). Around 72% of those who reported being shot with all three doses of the hepatitis B vaccine had been tested for circulating antibodies in their blood and 88.4% were immune to the hepatitis B virus.
CONCLUSIONS: The familiarity provided by routine primary health care and the awareness of occupational risk was associated with better adherence to the hepatitis B vaccine schedule among health personnel. Nearly a third of those who were shot with the three doses of hepatitis B vaccine were not immunized, reinforcing the need for anti-HBs testing.

Keywords: vaccination; hepatitis B; health personnel; serology.

INTRODUÇÃO

Estima-se que 257 milhões de pessoas, 3,5% da população mundial, vivem com a infecção crônica do vírus da hepatite B1,2. No Brasil, de 1999 a 2020, foram notificados, no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), 689.933 casos confirmados de hepatites virais, dos quais 38,1% são referentes aos casos de hepatite B. De 2000 a 2019, no Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), foram registrados 78.642 óbitos relacionados às hepatites virais, dos quais 21,3% foram associados à hepatite viral tipo B. As taxas de hepatite B apresentaram discreta tendência de queda nos últimos 5 anos3.

A vacinação para hepatite B iniciou-se para grupos de alto risco para a infecção pelo vírus da hepatite B em todo Brasil, em 1998. A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda a imunização universal, independentemente dos níveis de prevalência, incluindo-a no esquema de imunizações de rotina das crianças logo após o nascimento. No Brasil, em 2004, houve a implantação da vacina para hepatite B nos calendários de vacinação da criança, do adolescente, do adulto e do idoso4. Atualmente, a vacina para hepatite B é administrada no esquema de três doses, com intervalo de 1 mês entre a primeira e a segunda e intervalo de 6 meses entre a primeira e a terceira2,5.

Sabe-se que a transmissão do vírus da hepatite B ocorre pelas vias parenteral e sexual e pela transmissão vertical. Há grupos considerados de risco para infecção: recém-nascidos de progenitoras portadoras do antígeno de superfície do vírus (AgHBs), usuários de drogas, pacientes em diálise e trabalhadores(as) da saúde2,5.

Haja vista o caráter altamente infectante do vírus da hepatite B e a possibilidade de transmissão por diferentes formas, tais como acidentes com exposição a materiais biológicos e acidentes perfurocortantes, em virtude do risco ocupacional a que estão expostos(as), trabalhadores(as) de todos os níveis de atenção à saúde requerem cuidado especial, pois são mais suscetíveis à contaminação pelo vírus da hepatite B quando comparados(as) à população em geral6-8. Diante desse contexto, é evidente a importância da vacinação para hepatite B, comprovadamente a medida profilática mais eficaz e segura no combate ao vírus da hepatite e sua transmissão ocupacional nos serviços de saúde2.

Apesar da indiscutível relevância da vacinação completa para hepatite B, em revisão sistemática realizada entre países do continente africano, a cobertura vacinal para hepatite B entre profissionais de saúde foi de 24,7%. A cobertura mais alta foi verificada no norte da África (62,1%), e a mais baixa na África central (13,4%)9. Em estudos realizados no Sudão, também se notou vacinação abaixo do ideal entre profissionais de serviços hospitalares, 41 e 72,6%, respectivamente10,11.

No contexto brasileiro, os estudos com trabalhadores(as) da saúde da Atenção Primária à Saúde (APS) e da média complexidade, em diferentes cidades do país, constataram que nem todos os profissionais apresentavam esquema vacinal completo para a hepatite B, como é preconizado pelo Ministério da Saúde (MS)6-8,12. Outrossim, ainda se observou que, entre os(as) trabalhadores(as) com esquema vacinal completo para hepatite B, nem todos haviam verificado a soroconversão através de exame anti-HBs, ação recomendada pelo MS6-8,12-14.

Ainda são incipientes os inquéritos que investigaram vacinação para hepatite B entre trabalhadores(as) fora do contexto hospitalar. Estudos sobre a vacinação para hepatite B entre trabalhadores(as) da média complexidade são escassos7,8.

Diante desse cenário, a realização deste estudo envolve aspectos essenciais referentes à saúde dos(as) trabalhadores(as) da saúde da APS e da média complexidade, cujas atividades estão diretamente relacionadas ao contato com usuários que podem estar expostos a diversas doenças imunopreveníveis. Portanto, este estudo tem como objetivo analisar os fatores associados à vacinação completa para hepatite B e avaliar a resposta sorológica pós-vacinação entre trabalhadores(as) da APS e média complexidade.

 

MÉTODOS

Estudo transversal, realizado no município de Santo Antônio de Jesus, no estado da Bahia, em 2019, que integra o projeto multicêntrico “Vigilância e monitoramento de doenças infecciosas entre trabalhadores e trabalhadoras do setor saúde”. A população do estudo foi composta por 453 trabalhadores(as) da saúde da APS e da média complexidade, tanto aqueles(as) relacionadas(os) diretamente ao cuidado, quanto os(as) que desenvolviam atividades administrativas, de serviços gerais, de segurança e outras.

Para o cálculo amostral, considerou-se a população total de trabalhadores(as) vinculados(as) aos serviços (622), prevalência de vacinação completa para hepatite B de 79,2%7, erro de 3% e nível de 95% de confiança. Estimou-se uma amostra representativa de 332 trabalhadores estratificada por grupos ocupacionais e nível de atenção para a investigação do desfecho de interesse. Por se tratar de pesquisa mais ampla, na qual foram investigados diferentes desfechos em saúde, o tamanho amostral foi superior ao estimado para a análise da situação vacinal.

A população do estudo foi selecionada por amostragem aleatória estratificada, definida por meio de levantamento prévio da estruturação da rede e da força de trabalho do serviço municipal, levando-se em conta o nível de complexidade dos serviços e o grupo ocupacional. A seleção foi realizada a partir de listagem de todos(as) os(as) trabalhadores(as) da saúde dos serviços incluídos neste estudo. O sorteio foi realizado com o auxílio de lista de números aleatórios, do Statistical Package for Social Sciences (SPSS), versão 22.0 (IBM Corp, NY, Estados Unidos), considerando os estratos mencionados (nível de atenção: APS e média complexidade) e grupos ocupacionais.

A coleta de dados foi realizada entre maio e dezembro de 2019, através de instrumento estruturado contendo nove blocos de questões, incluindo perguntas referentes a aspectos relacionados a condições sociais, de saúde, de exposição no trabalho e de vacinação. Ao chegar no local de trabalho dos(as) trabalhadores(as) sorteados(as), os(as) entrevistadores(as) realizavam uma breve explanação sobre os métodos, os objetivos e as finalidades da pesquisa. Após o participante responder o questionário, a equipe responsável pelo exame procedia ao agendamento da coleta de exames.

Houve calibração dos(as) entrevistadores(as), através de treinamento, a fim de averiguar possíveis inconsistências no instrumento de pesquisa e buscar estratégias para otimizar o tempo de entrevista. O exame anti-HBs foi executado por laboratório conveniado à pesquisa. Utilizaram-se, como ponto de corte para determinar níveis adequados de anticorpos protetores, valores de anti-HBs > 10 UI/mL.

A variável desfecho foi o relato de vacinação para hepatite B. Na análise desse desfecho, foi incluída a avaliação da vacinação completa para hepatite B considerando o esquema vacinal do adulto preconizada pelo Programa Nacional de Imunização (PNI). A prevalência do relato de vacinação para hepatite B foi constatada a partir das perguntas: Já recebeu vacina contra hepatite B? Sim; Não; Não sei/não me lembro. Em caso afirmativo, você recebeu: 1 dose; 2 doses; 3 doses; não sabe.

As variáveis independentes foram agrupadas da seguinte forma: características sociodemográficas (sexo, idade em anos, se possui filhos, escolaridade, situação conjugal e cor da pele); características laborais (nível de atenção à saúde e vínculo de trabalho); características de exposição no trabalho (contato com material biológico, chances de se ferir e prepara ou administra medicamentos).

O treinamento da equipe de digitação de dados baseou-se no estudo sobre o uso do programa estatístico SPSS, versão 23.0, para o sistema operacional Windows. Houve dupla digitação dos dados, com permuta dos questionários entre os digitadores.

As análises estatísticas foram realizadas a partir dos programas estatísticos SPSS e STATA (Software for Statistics and Data Science). Inicialmente, realizou-se análise univariada, de caráter descritivo, com o auxílio do SPSS.

A análise bivariada foi realizada para testar a associação entre a variável dependente (vacinação completa para hepatite B) e as variáveis categóricas de exposição. Foram calculadas razões de prevalência (RP) e seus IC95%. Para avaliação da medida de significância estatística, utilizou-se o teste de qui-quadrado de Pearson, adotando-se os valores de p < 0,05.

Por fim, realizou-se análise multivariada, que objetivou a descrição do efeito simultâneo das variáveis de interesse na completude do esquema de vacinação. Para tal, foi realizada seleção das variáveis a partir da revisão de literatura, verificação de pressupostos do modelo e pré-seleção das variáveis, considerando valor de p ≤ 0,20 na análise bivariada. O modelo de regressão logística com correção da odds ratio (OD) para RP foi realizado a partir do emprego da regressão de Poisson com variância robusta, assim como seus respectivos IC15.

Este estudo foi aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual de Feira de Santana sob o protocolo CAAE 90204318.2.0000.0053 e seguiu as recomendações da Resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde.

 

RESULTADOS

Participaram do estudo 453 trabalhadores(as) da saúde do município de Santo Antônio de Jesus, estado da Bahia, sendo 352 da APS e 101 da média complexidade. Entre os(as) trabalhadores(as) estudados(as): a parcela predominante era do sexo feminino (82,8%) e negra (83,6%); 76% encontravam-se na faixa etária entre 21 e 49 anos; 73,9% possuíam filhos(as); 60,9% relataram possuir companheiro(a) e 38,2% possuíam ensino superior completo.

Em relação às condições laborais, a maioria trabalhava na APS (77,7%) e referiu possuir vínculo efetivo (72,4%). Sobre a exposição no trabalho, 55,1% relataram ter contato com materiais biológicos; 49,2% possuíam chances de se ferir, 24,3% preparavam ou administravam medicamentos (Tabela 1).

 

 

Os fatores associados ao relato de vacinação completa para hepatite B dos(as) trabalhadores(as) da saúde da APS e da média complexidade na análise bivariada (IC95%) foram: trabalhar no nível da APS, ter contato com materiais biológicos e preparar ou administrar medicamentos (Tabela 1).

No modelo final de análise, as variáveis associadas à prevalência de vacinação completa para hepatite B foram: trabalhar no nível da APS (RP = 1,31; IC95% 1,04-1,65) e preparo ou administração de medicamentos (RP = 3,53; IC95% 2,17-5,74) (Tabela 2).

 

 

Quando os(as) trabalhadores(as) da saúde foram questionados(as) sobre a completude do esquema vacinal para hepatite B, apenas 56,9% relataram vacinação completa. A respeito da realização de exame sorológico para comprovação da imunidade, 88,4% dos(as) que relataram o recebimento das três doses da vacina realizaram a testagem de anticorpos circulantes no sangue, e cerca de 72% estavam imunes ao VHB. Logo, para aproximadamente 28% desses(as) trabalhadores(as) da saúde, não houve soroconversão (Figura 1).

 


Figura 1. Fluxograma indicando a prevalência de vacinação completa para hepatite B e a realização do exame sorológico (exame anti-HBs) para verificação da imunidade entre trabalhadores(as) da saúde da Atenção Primária à Saúde (APS) e média complexidade (n = 453), em Santo Antônio de Jesus, Bahia, 2019.

*Não foram realizados exames anti-HBs em todos(as) os(as) 453 trabalhadores(as) da saúde do estudo devido ao orçamento da pesquisa.

 

Ao analisar a taxa de soroconversão para hepatite B de acordo com a quantidade de doses referidas pelos(as) trabalhadores(as) da saúde, percebeu-se que menos de 50% daqueles(as) que receberam 1 ou 2 doses se tornaram imunes ao vírus da hepatite B, enquanto dos(as) que relataram o recebimento de três doses, 71,9% soroconverteram (Figura 1).

No total, 59,7% dos(as) trabalhadores(as) da saúde da APS e 47,5% da média complexidade relataram esquema vacinal completo para hepatite B. Ao categorizar, de acordo com a ocupação, as prevalências dos esquemas vacinais completos para hepatite B, constataram-se maiores prevalências de vacinação completa para hepatite B entre profissionais assistenciais na APS (81,4%) e na média complexidade (65%). Em contrapartida, funcionários(as) de apoio operacional apresentaram a menor vacinação completa para hepatite B na APS (40%), enquanto, na média complexidade, foram os(as) funcionários(as) administrativos(as) (34,3%) (Figura 2).

 


Figura 2. Prevalência de vacinação completa para hepatite B entre trabalhadores(as) da saúde da Atenção Primária à Saúde (APS) (n = 352) e média complexidade (n = 101), de acordo com categorias de ocupação, em Santo Antônio de Jesus, estado da Bahia, 2019.

* Serviços gerais, segurança, condutores etc.; Agentes administrativos, coordenação, supervisão etc.; Agentes comunitários de saúde e agentes de combate às endemias (trabalham somente na APS); § Enfermeiros, médicos, odontólogos, técnicos em saúde etc.

 

DISCUSSÃO

A prevalência de vacinação completa para hepatite B entre trabalhadores(as) da saúde neste estudo foi de 56,9%. Nível de atenção à saúde, contato com material biológico e preparo ou administração de medicamentos foram variáveis associadas à vacinação completa para hepatite B. Quase um terço dos trabalhadores com esquema vacinal completo não apresentou títulos adequados de anticorpos protetores verificados por meio do exame anti-HBs.

A prevalência dessa investigação foi inferior àquela encontrada no mesmo município, quando se constatou uma prevalência de 59,9% de vacinação completa para hepatite B entre trabalhadores(as) da APS e média complexidade7. Numa investigação conduzida com profissionais de enfermagem num hospital público no estado da Paraíba, 65,7% relataram o esquema vacinal completo para hepatite B14. No município baiano de Feira de Santana, verificou-se uma prevalência de 69,8% de vacinação completa para hepatite B13. Assim, observa-se que a cobertura vacinal para hepatite B apresenta-se aquém do ideal, não apenas neste estudo bem como em outros municípios brasileiros.

A partir do exposto, nota-se que, apesar da completude do esquema vacinal para hepatite B apresentar-se semelhante no país, o quadro é distinto quando comparado à realidade internacional. Estudo com trabalhadores(as) da saúde de serviço hospitalar na Áustria constatou 93,8% de cobertura vacinal para hepatite B16. Na França, a cobertura vacinal para a mesma vacina alcançou 88,2% entre estudantes da área da saúde17. Estudo multicêntrico conduzido em 10 cidades italianas verificou prevalência de vacinação completa para hepatite B de 77,3% entre trabalhadores(as) da saúde18. Na região espanhola da Catalunha,75,6% (487) dos(as) trabalhadores(as) investigados relataram a completude do esquema vacinal para hepatite B, no entanto, apenas 39,8% (253) possuíam a imunização comprovada através do cartão de vacina19.

Em investigação conduzida no Hospital Universitário de Osaka, constatou-se que 86,7% da amostra havia recebido as três doses da vacina contra hepatite B20. Na Arábia Saudita, a prevalência de vacinação completa para hepatite foi de 83,5% entre trabalhadores(as) de instituições governamentais21. Já um levantamento realizado com trabalhadores(as) da saúde em 120 hospitais da China demonstrou que apenas 60% haviam completado o esquema vacinal para hepatite B22.

Esses estudos foram conduzidos com trabalhadores com elevada exposição ambiental a agentes biológicos, nos quais a percepção de risco pode ser um fator que melhora a adesão a medidas protetivas entre esses grupos. Por outro lado, no Brasil, o sistema de saúde, fortemente baseado na APS, privilegia a promoção e proteção da saúde e a maior proximidade de trabalhadores(as) com as ações de estímulo e incentivo à vacinação, assim explicam-se os diferenciais de prevalência de esquema vacinal completo para hepatite B entre trabalhadores da APS e média complexidade.

No entanto, no cenário nacional, observa-se uma tendência de declínio das coberturas vacinais desde 2015 para os diferentes imunizantes, inclusive entre os grupos etários com tradição de altas coberturas, a exemplo de crianças. As ações de incentivo à vacinação devem perpassar todos os níveis de atenção do sistema de saúde. A longitudinalidade do cuidado com acompanhamento dos indivíduos ao longo do seu ciclo de vida, deve incluir a vacinação. Desse modo é fundamental que a APS, como coordenadora do cuidado, possa garantir a continuidade das ações e o acompanhamento da vacinação entre todos os grupos etários, o que pressupõe os(as) trabalhadores(as) da rede de atenção à saúde.

No presente estudo, a maior prevalência de vacinação completa para hepatite B foi observada entre trabalhadores(as) da saúde da APS, além disso, há uma probabilidade de 31% desses indivíduos completarem o esquema vacinal para hepatite B, quando comparados aos(às) trabalhadores(as) da média complexidade. Esse cenário provavelmente está relacionado à vacinação ser, em geral, uma ação integrada e rotineira dos serviços de saúde no nível primário de atenção, assim, equipes de unidades básicas de saúde e unidades de saúde da família exercem uma função fundamental nas recomendações e aplicações das vacinas5.

Nesse sentido, presume-se que o conhecimento proporcionado pela rotina dos serviços de saúde na APS pode oportunizar ao(à) trabalhador(a) um espaço em que as estratégias de incentivo à vacinação são mais frequentes13.

A possível exposição a riscos também se caracterizou como um elemento associado à maior prevalência de vacinação completa para hepatite B entre trabalhadores(as) da saúde, sendo o contato com materiais biológicos e o preparo ou administração de medicamentos associados à completude do esquema vacinal para hepatite B. Os(as) trabalhadores(as) com maior exposição têm 3,5 vezes mais probabilidade de completar o esquema vacinal para hepatite B. Esses achados podem relacionar-se ao reconhecimento do risco ocupacional a que esses(as) trabalhadores(as) estão expostos(as), proporcionando maior adesão a medidas de autocuidado, inclusive a vacinação para hepatite B7,8.

Os(as) trabalhadores(as) assistenciais, que prestam atendimento diretamente ao paciente, apresentaram maior prevalência de vacinação completa para hepatite B. Em investigações anteriores, profissionais das áreas médica e de enfermagem comumente se apresentavam como as categorias que completaram o esquema vacinal para hepatite B9,18,21,22. Além da percepção sobre exposição laboral, há ainda a maior compreensão do tema por esses profissionais, proporcionada certamente pela maior quantidade de anos de estudo.

A percepção de risco pode estar relacionada ao conhecimento que esse(a) trabalhador(a) possui sobre o tema, assim, a ausência ou o déficit de conhecimento provavelmente estão associados à baixa adesão à vacina. Diferentes estudos apontam que é incipiente o conhecimento dos(as) trabalhadores(as) da saúde sobre a vacinação para hepatite B em diversos países, incluindo o Brasil. Entre os motivos alegados para a não vacinação dos(as) trabalhadores(as), estão: a crença na inefetividade e insegurança da vacina, a hepatite B ser uma infecção incomum e pouco provável, dificuldade de acesso ao imunizante e custo da vacina6,9,21,22.

Esses fatores, aliados ao desconhecimento desses(as) trabalhadores(as) sobre a necessidade de avaliar a imunidade, tornam-nos(as) susceptíveis à infecção. Além da vacinação, recomenda-se a confirmação de imunidade, por meio da realização da sorologia para detecção do anticorpo contra o antígeno de superfície da hepatite B, intitulada como exame anti-HBs7. O PNI não apresenta como rotina a recomendação da dosagem de anti-HBs após a vacinação para hepatite B entre a população geral devido à alta eficácia da vacina, exceto em casos especiais e entre trabalhadores(as) da saúde.

Em decorrência do maior risco a que estão expostos(as) os(as) trabalhadores(as) da saúde, devido a suas atividades laborais, em adição a completarem o esquema vacinal para hepatite B, é de suma relevância realizarem o exame anti-HBs para que conheçam sua situação imunológica em relação ao vírus da hepatite B6-8.

Em relação ao pessoal da saúde, a sorologia para anti-HBs é recomendada de 1 a 2 meses após a última dose do esquema vacinal, para verificar se houve resposta satisfatória à vacina ou falha vacinal (anti-AgHBs > 10 UI/L). Profissionais que já tiveram contato com o vírus estão imunes à reinfecção2.

Indivíduos pertencentes a grupos de risco, por exemplo, os(as) trabalhadores(as) da saúde, vacinados com três doses, mas que não responderam com níveis adequados de anticorpos protetores, devem ser revacinados com mais três doses. Já aqueles que permanecerem não reagentes, mesmo após dois esquemas completos de três doses, devem ser considerados não respondedores e suscetíveis em caso de exposição ao vírus da hepatite B2.

Entre os(as) trabalhadores(as) da saúde que relataram vacinação completa para hepatite B e realizaram exame anti-HBs, 28,1% não apresentaram soroconversão após a vacinação. É sabido que esses níveis decrescem conforme o tempo avança19,20,23,24. Apesar disso, fatores como idade em que foi recebida a vacina e sexo influenciam de forma significativa na resposta imunológica23,24.

Em estudo conduzido no estado de Minas Gerais, foi identificada cobertura de 52,5% de vacinação completa para hepatite B e, na avaliação do anti-HBs dosado, 16,4% daqueles que receberam a vacina e fizeram o teste não estavam imunes25. Entre trabalhadores(as) da saúde no estado da Bahia, a prevalência de vacinação completa foi de 59,9%: enfermeiros(as), técnicos(as) e médicos(as) estiveram mais imunizados, no entanto, 13,4% dos(as) trabalhadores(as) afirmaram não ter adquirido proteção por meio da vacinação8. Diante disso, entende-se que a execução do exame é o único procedimento para monitorar a resposta imunológica à vacinação, contudo, a indicação da realização da sorologia para profissionais de saúde ainda não é amplamente divulgada, no Brasil. No entanto, a necessidade de doses de reforço da vacina para hepatite B após uma série de vacinas primárias ainda é objeto de considerável debate.

Entre as limitações do estudo, estão presentes os vieses relacionados à memória e de falsa resposta. Os vieses de memória e de falsa resposta ocorrem devido à impossibilidade de checar, nos cartões de vacina, se as informações autorreferidas pelos(as) trabalhadores(as) são, de fato, verdadeiras. Portanto, há a possibilidade de o(a) trabalhador(a) não se recordar da resposta ou optar por fornecer uma resposta esperada para aquilo devido ao questionamento abordar uma ação ou comportamento positivo expectado, a exemplo do recebimento das três doses da vacina para hepatite B para um trabalhador da saúde.

 

CONCLUSÕES

A vacinação de adultos no Brasil apresenta-se como um grande desafio, mesmo entre trabalhadores(as) da saúde. Neste estudo, verificou-se grande disparidade na prevalência de esquema vacinal completo para hepatite B entre os níveis de atenção à saúde: 59,7% na APS e 47,5% na média complexidade. Esse quadro relaciona-se intimamente à rotina dos serviços da APS, os quais são responsáveis pela vacinação em geral. Nesse sentido, além da imprescindibilidade de atividades de sensibilização e estímulo à vacinação, a fim de aumentar a prevalência de vacinação para hepatite B na APS, é essencial também a adoção de estratégias de gestão e comunicação focadas nos(as) trabalhadores(as) da média complexidade para completar esquemas vacinais.

Um terço dos(as) trabalhadores(as) da saúde que relataram a completude do esquema vacinal para hepatite B não apresentou níveis adequados de anticorpos protetores, portanto, encontrava-se exposto à infecção pelo vírus, talvez, por não saber da necessidade de verificar sua imunidade ou pelo custo do exame, haja vista que não é disponibilizado gratuitamente. Assim, reforça-se a necessidade de, além de ações que visem o estímulo à vacinação, estratégias que incentivem o(a) trabalhador(a) a realizar o exame anti-HBs e disponibilizem gratuitamente ou auxiliem nos custos do exame, principalmente para aqueles(as) que se encontram mais expostos ao risco ocupacional.

Por fim, a vacinação não deve ser entendida apenas como uma ação individual (de autocuidado) do(a) trabalhador(a), desvinculada das ações assistenciais e de gestão dos serviços de saúde. Portanto, estratégias, como monitoramento contínuo das coberturas vacinais, atividades de educação em saúde do(a) trabalhador(a), incentivo a completude de cartão de vacinação em campanhas de vacinação de rotina e busca pela realização do exame anti-HBs, que tenham como públicoalvo trabalhadores(as) da saúde e implementação de tecnologias de comunicação de vacinação em atraso, podem favorecer o alcance de esquemas completos para hepatite B e verificação da imunidade entre trabalhadores(as) da saúde.

 

AGRADECIMENTOS

YCFJ foi bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) durante a redação do artigo.

 

CONTRIBUIÇÕES DOS AUTORES

YCFJ foi responsável pela concepção do estudo, tratamento de dados, análise formal dos dados, investigação, metodologia, apresentação e redação – esboço original e revisão & edição. FOS participou do tratamento de dados, análise formal dos dados, investigação, metodologia, software, supervisão, validação e redação – esboço original e revisão & edição. MCH participou da análise formal, investigação, metodologia, validação e redação – esboço original e revisão & edição. TMA participou da obtenção de financiamento, administração do projeto, recursos e software. PSP participou da concepção do estudo, tratamento de dados, análise formal dos dados, investigação, metodologia, administração do projeto, recursos, supervisão, validação e redação – esboço original e revisão & edição. Todos os autores aprovaram a versão final submetida e assumem responsabilidade pública por todos os aspectos do trabalho.

 

REFERÊNCIAS

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Recebido em 3 de Fevereiro de 2022.
Aceito em 3 de Novembro de 2022.

Fonte de financiamento: Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq – nº 440691/2016-8)

Conflitos de interesse: Nenhum


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