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ARTIGO ORIGINAL

Síndrome de burnout na Atenção Primária à Saúde

Burnout syndrome in Primary Health Care

Érika Maria Izaias1; Rita de Cássia de Marchi Barcellos Dalri2; Maria Lúcia do Carmo Cruz Robazzi2; Fábio de Souza Terra3; Elaine de Jesus Gusmão Sampaio4

DOI: 10.47626/1679-4435-2021-938

RESUMO

INTRODUÇÃO: A conjuntura laboral é considerada indispensável ao seguimento social, entretanto, há que se considerar a incongruência entre sua importância e as alterações psíquicas que pode ocasionar aos trabalhadores.
OBJETIVOS: Verificar a presença da síndrome de burnout em trabalhadores da Atenção Primária à Saúde de um município do interior do estado de São Paulo e verificar sua associação com os dados sociodemográficos e laborais desses trabalhadores.
MÉTODOS: Estudo exploratório, transversal e quantitativo, direcionado a 74 trabalhadores e desenvolvido de julho a outubro de 2020. Para a coleta de dados, utilizou-se instrumento para caracterização sociodemográfica e laboral e, para mensuração da síndrome, o Oldenburg Burnout Inventory, já validado no Brasil. Foram realizadas estatísticas descritivas, frequência, percentual, medidas de tendência central e dispersão; utilizou-se o teste exato de Fisher para verificar a associação entre as variáveis estudadas e a síndrome de burnout, considerando o nível de significância p < 0,05. Os dados obtidos foram discutidos mediante a literatura existente.
RESULTADOS: Dentre os participantes, 20,3% não apresentaram alterações, 18,9% apresentaram distanciamento, 16,2% apresentaram exaustão e 44,6%, síndrome de burnout. Houve significância estatística para a variável unidade de trabalho (p < 0,014).
CONCLUSÕES: Estudar a saúde mental laboral na Atenção Primária à Saúde tem importância, uma vez que há constante exposição a situações de riscos psicossociais nos cenários sociais, que apresentam instabilidades. O conhecimento das condições possibilita ações de intervenção nos ambientes e viabiliza o enfrentamento dos problemas.

Palavras-chave: esgotamento profissional; saúde do trabalhador; atenção primária à saúde.

ABSTRACT

INTRODUCTION: The labor situation is considered essential for social follow-up; however, the contradiction between its importance and the psychic changes it can cause to workers should be considered.
OBJECTIVES: To check the presence of burnout syndrome in Primary Health Care workers in a municipality in the interior of the state of São Paulo and to check the association with the sociodemographic and labor data of these workers.
METHODS: Exploratory, cross-sectional and quantitative study, with 74 workers and developed from July to October 2020. Data were collected using an instrument for sociodemographic and labor characterization and for measurement of the syndrome, the Oldenburg Burnout Inventory, already validated in Brazil. Descriptive statistics, frequency, percentage, measures of central tendency and dispersion were used; Fisher’s exact test was applied to check the association between the studied variables and the burnout syndrome, considering the significance level of p < 0.05. The obtained data were discussed using the existing literature.
RESULTS: Among the participants, 20.3% had no changes, 18.9% showed distance, 16.2% had exhaustion, and 44.6% had burnout syndrome. There was statistical significance for the variable unit of work (p < 0.014).
CONCLUSIONS: The importance of studying labor mental health in Primary Health Care is because of the constant exposure of workers to psychosocial risk situations in social settings and their instabilities. Knowledge of the conditions allows for intervention actions in the environments and makes it possible to face the problems.

Keywords: burnout; professional; occupational health; primary health care.

INTRODUÇÃO

O trabalho possui dimensões objetivas e subjetivas; é capaz de satisfazer as necessidades sociais e intermediar a relação entre homem e natureza. É considerado indispensável ao seguimento social, pois as relações profissionais contribuem para a minimização de incertezas e insatisfações à medida que solidificam aspectos pessoais que perpassam pelo campo das realizações, incutido em cada ser humano1.

Ao observar o trabalho como prática intrínseca ao indivíduo, há que considerar, também, sua relação com o processo saúde-doença, à medida que é disposto como mantenedor e ao mesmo tempo vinculado à precarização que expõe o ser humano às situações adversas à saúde2.

Abrangente cenário laboral, o setor saúde abarca possibilidades de desenvolvimento de processo de trabalho nas áreas pública e privada. A esfera pública possui como porta de entrada a Atenção Primária à Saúde (APS) que preconiza a assistência de forma integral com a finalidade de prevenir, tratar e promover a saúde da coletividade3,4.

Para ser trabalhador da APS, é necessário ter conhecimento técnico e habilidades específicas, porém, todo o saber científico isolado não basta para suprir as atitudes esperadas pelo produto da saúde primária. Os indivíduos possuem inúmeras habilidades e individualidades em sua inteligência, portanto, o trabalhador de saúde primária deve ter como característica a prática do respeito pelos diferentes usuários em seus diversos cenários, sem procurar anular a comunidade em análises pré-existentes3.

Entretanto, para suprir as necessidades de tal serviço, o trabalhador pode ser colocado negativamente frente à carga e sobrecarga de trabalho, às pressões no trabalho e ao modo de organização institucional, que podem denotar situações de riscos psicossociais e suas repercussões, além de outras possíveis situações que alterem a saúde mental4.

Dentre os distúrbios relacionados à saúde mental ocorridos entre os trabalhadores, destaca-se a síndrome de burnout (SB), resposta à prolongada exposição do trabalhador a situações estressoras que levam ao sofrimento, exaustão emocional, despersonalização e redução da realização pessoal. O modelo de gestão e as situações presentes no ambiente de trabalho podem contribuir para riscos psicossociais e para os impactos desfavoráveis à saúde mental dos trabalhadores4.

Nesse contexto, este estudo objetivou identificar a SB em trabalhadores da APS de um município no interior do estado de São Paulo e verificar sua associação com os dados sociodemográficos e laborais dos pesquisados.

 

MÉTODOS

Trata-se de um estudo exploratório, descritivo, transversal e de abordagem quantitativa, desenvolvido em um município localizado no interior do estado de São Paulo. A população referiu-se a 96 trabalhadores das unidades de APS; após os critérios de seleção aplicados (ser atuante na APS há no mínimo 6 meses e estar presente nas datas estipuladas para as coletas de dados), obteve-se a amostra de 74 trabalhadores.

A elaboração deste estudo seguiu os preceitos éticos de pesquisa envolvendo seres humanos, conforme Resolução Nº 466, de 12 de dezembro de 2012, do Conselho Nacional de Saúde (CNS)5, e obteve aprovação do comitê de ética em pesquisa, com parecer número 4.078.163.

O instrumento para caracterização sociodemográfica possui 19 questões. Para mensuração da SB, foi utilizado o Oldenburg Burnout Inventory (OLBI), desenvolvido por Demerouti em 1999, e validado no Brasil, em 2013, por Schuster & Dias6, que possui 13 itens que avaliam a exaustão e o distanciamento laboral. Suas respostas têm caráter crescente, classificadas de 1 a 4, em que 1 caracteriza-se por “discordo plenamente” e 4, por “concordo plenamente”6.

Os dados coletados por meio da utilização dos instrumentos passaram por dupla digitação. Seguidamente realizou-se a seleção e categorização dos dados para verificar a exatidão das informações obtidas. Foram realizadas, então, estatísticas descritivas, frequência e percentual para as variáveis qualitativas e medidas de tendência central (média e mediana) e dispersão (desvio padrão) para as variáveis numéricas. Utilizou-se o teste exato de Fisher para verificar a associação entre as variáveis sociodemográficas e laborais e a SB, sendo considerado o nível de significância p < 0,05.

 

RESULTADOS

Participaram do estudo 74 trabalhadores, com idade média de 38 anos, sendo a maioria do sexo feminino (87,8%), com companheiro (48,6%), com um a dois filhos (54,1%) e ensino superior (40,5%), vinculação por meio de concurso público (83,8%) e tempo médio de 6 a 10 anos de atividade na instituição. Houve baixo percentual para realização de horas extras (5,5%) e, durante a coleta de dados, 86,5% dos participantes referiram carga horária semanal de até 40 horas na instituição.

O grupo que mais concentrou trabalhadores foi o de agentes comunitários de saúde (16,2%), seguido dos agentes de vetores (9,5%), técnicos e auxiliares de enfermagem (9,5%) e médicos (9,5%). Trabalhadores da limpeza participaram com percentual de 8,1%, assim como os seis trabalhadores do setor de recepção (8,1%). Enfermeiros contabilizaram 4,1% no estudo, bem como os dentistas (4,1%), os auxiliares de saúde bucal (4,1%) e a gestão (4,1%). Fonoaudiólogos representaram 2,7% da amostra, assim como fisioterapeutas (2,7%), estagiários (2,7%), farmacêuticos (2,7%), auxiliares administrativos (2,7%) e assistentes sociais (2,7%). Houve um participante para cada seguinte profissão: psicólogo (1,4%), nutricionista (1,4%), educação permanente (1,4%), técnico em farmácia (1,4%), e motorista (1,4%).

A Tabela 1 apresenta a descrição das respostas dos trabalhadores frente aos questionamentos que levaram aos resultados de distanciamento e exaustão.

 

 

Para as análises estatísticas, utilizou-se o teste exato de Fisher, que verificou associações entre as variáveis, considerando o nível de significância de p < 0,05. A variável unidade de trabalho se diferenciou das demais, pois apresentou significância estatística (p = 0,014).

Entre a população feminina, 16,9% não apresentou SB; enquanto entre os homens a síndrome não foi identificada em 44,4% deles. Já o distanciamento foi observado em 18,5% das mulheres e em 22,2% dos homens. A exaustão não foi encontrada na população masculina, mas em 18,5% das participantes. Quanto à SB, esta foi evidenciada em 46,2% das mulheres e em 33,3% dos homens.

Entre 15 trabalhadores com idades entre 19 e 29 anos, 46,7% apresentaram SB. O grupo de 30 a 39 anos totalizou 31 trabalhadores, sendo que 51,6% foram classificados com SB. Na faixa etária de 40 a 49 anos, houve 14 trabalhadores e 35,7% com SB. A população de 50 anos ou mais apresentou-se em um total de 14 participantes, dos quais 35,7% apresentaram SB.

Dos 24 participantes que responderam não possuir filhos, 50% apresentaram SB. Dos 40 trabalhadores que referiram possuir de um a dois filhos, 45% estavam com SB. A população que referiu ter três ou mais filhos foi composta por 10 pessoas, dentre os quais 30% demonstravam SB.

Dentre os seis participantes com ensino fundamental como maior nível de escolaridade, 50% apresentaram SB. O ensino médio foi referido por 22 trabalhadores, sendo que 54,5% apresentaram SB; 30 pesquisados referiram ter cursado até o nível de graduação e, destes, 30% apresentaram SB. Ainda, 16 participantes referiram possuir escolaridade compatível com o nível de pósgraduação, dentre os quais 56,3% com SB.

Ao que tange a carga horária semanal, 64 trabalhadores responderam cumprir de 20 a 40 horas laborais por semana, desse total, 43,8% apresentaram escore para SB. Outros 10 participantes referiram que trabalhavam mais de 40 horas por semana e as associações mostraram 50% para SB.

Dez trabalhadores retornaram de férias nos últimos 30 dias anteriores à coleta de dados, resultando em três com escore para SB. Dos 64 participantes que não estiveram de férias nos 30 dias anteriores à coleta de dados, os resultados foram aumentados em relação aos que estiveram de férias: 30 (46,9%) apresentaram SB.

Os trabalhadores foram questionados sobre o tempo de vínculo na instituição e 30 deles responderam possuírem de 6 meses a 5 anos, sendo que 14 (46,7%), apresentaram resultados indicativos de SB.

Vinte e seis participantes referiram vínculo laboral de 6 a 10 anos; estando 13 (50%) com escore para SB. Dez participantes responderam que trabalhavam entre 11 e 20 anos na instituição, sendo que um (10%) apresentou escore para SB.

Seis participantes referiram o tempo de 21 a 29 anos; três (50%) apresentaram escore para SB. Os dois respondentes que referiram ter mais de 30 anos de atuação laboral também foram classificados com SB.

Em relação ao tempo de trabalho na APS, 35 profissionais referiram 6 meses a 5 anos, sendo que 18 (51,4%) apresentaram escore para SB.

Verificou-se 32 trabalhadores com tempo de 6 a 15 anos na APS e, nesse grupo, 10 (31,3%) classificaram-se com escore para SB.

De 16 a 20 anos de trabalho em APS, evidenciou-se seis trabalhadores, sendo que quatro (66,7%) apresentaram SB. Identificou-se apenas um trabalhador com mais de 20 anos de atuação na APS e este também apresentou escore para SB.

Sobre o tempo de atuação na unidade de saúde, 51 trabalhadores referiram atuar de 6 meses a 5 anos; 18, de 6 a 10 anos e cinco atuavam há mais de 10 anos na mesma unidade. Nas análises desses três grupos, houve concentração de maior percentual de SB do que nas demais dimensões, evidenciando tendência ao desenvolvimento dos episódios de SB em todos os períodos avaliados. Tais períodos apresentaram, respectivamente, resultados de 45,1, 44,4 e 40% para a SB.

Quando questionados quanto ao número de vínculos empregatícios, os participantes responderam um, dois ou mais que dois. A primeira opção foi a mais respondida e resultou em 60 respostas e, dentre elas, 26 (43,3%) apresentaram escore para SB.

Os demais 14 participantes responderam possuir dois ou mais empregos e os achados mostraram que sete (50%) estavam com SB.

A respeito do tipo de vínculo empregatício, 62 trabalhadores possuíam vínculo obtido por meio de concurso público, sendo que 30 (48,4%) obtiveram escore para SB.

O vínculo por meio de processo seletivo foi referido por oito participantes, dos quais dois (25%) pontuaram para compatibilidade com SB.

Trabalhadores que referiram função comissionada somaram três, sendo que um (33,3%) apresentou escore para SB.

A variável unidade de trabalho foi dividida em cinco, sendo que as três primeiras apresentavam o mesmo perfil de serviço e possuíam congruências entre a composição das equipes, pois eram esquematizadas em unidades de Estratégia Saúde da Família, portanto, apresentaram número de trabalhadores semelhantes.

Dentre as três unidades com o mesmo perfil assistencial, a unidade 1 contou com um total de 12 respostas; apenas dois trabalhadores (16,7%) foram identificados com escore para SB.

A unidade 2 apresentou os maiores percentuais de ocorrência de prejuízo à saúde mental; 15 trabalhadores trabalhavam nesta unidade e 11 (73,3%) com escore para SB.

Na unidade 3 houve um total de 11 respostas e, destas, cinco (45,5%) com escore para SB.

A unidade 4 apresentou-se num contexto de Unidade Básica de Saúde e Centro de Especialidades, incluiu serviços de prevenção aos vetores, vigilâncias em saúde e, portanto, caráter assistencial diferenciado das três primeiras. Para essa unidade, observou-se 31 participantes, estando 11 (35,5%) com SB.

Por fim, a unidade 5 foi composta por cinco trabalhadores que prestavam atendimento em caráter interdisciplinar e em esquema de apoio às unidades de saúde, a fim de ampliar o serviço assistencial prestado; nesse grupo, 80% classificaram-se com escore para SB.

A renda familiar mensal variou de 1 a 11 ou mais salários-mínimos, considerando o valor de R$ 1.045,00 para o salário-mínimo no período da coleta de dados, e foi subdividida em quatro categorias, de acordo com as respostas encontradas; 40 pessoas referiram renda familiar mensal de um a três salários-mínimos, das quais 40% obteve escore para SB, 25 participantes referiram renda familiar de quatro a seis salários-mínimos ao mês, sendo que 52% pontuou para SB. Dos cinco participantes que referiram possuir renda familiar mensal entre 7 e 11 salários-mínimos, 60% apresentaram escore para SB. Quatro trabalhadores referiram renda familiar de 11 ou mais salários-mínimos ao mês e, destes, um (25%) com escore para SB.

Com relação à categoria profissional, esta foi dividida em quatro grupos, e o maior deles foi o de serviços assistenciais composto por 53 trabalhadores, dos quais 24 (45,3%) apresentaram escore para SB.

Os serviços administrativos foram compostos por 11 participantes, sendo que seis (54,5%) apresentaram escore para SB.

O grupo de serviços de apoio foi composto por quatro respondentes, sendo que nenhum apresentou SB.

Por fim, os trabalhadores de serviços gerais foram seis, três (50%) com escore para SB.

Com relação às associações realizadas, a variável unidade de trabalho apresentou significância estatística (p = 0,014); não se verificou significância estatística nas demais associações. Com relação às classificações do OLBI, entre os 74 trabalhadores pesquisados, de forma geral, 20,3% foram classificados como sem SB; 18,9% com distanciamento; 16,2% com exaustão; e 44,6% com SB.

 

DISCUSSÃO

A predominância de trabalhadores do sexo feminino no contexto de trabalho em saúde é denominada como feminização do trabalho e também visualizada neste estudo com 87,8% de mulheres. Fato que leva à reflexão acerca do fortalecimento desse público no mercado de trabalho e o direcionamento para novas expectativas pessoais e profissionais mesmo perante aos desafios da dupla jornada de trabalho7.

A faixa etária com maior percentual de escore voltado à SB foi a de 30 a 39 anos (41,9%), achado que pode ser relacionado à maior vulnerabilidade às situações estressoras devido à menor maturidade e ao menor controle das emoções8. Em contrapartida, a literatura indica também que a faixa etária mais elevada pode apresentar menor facilidade em se adaptar ao cenário laboral e, nesse caso, propiciar o aparecimento de alterações na saúde mental dos indivíduos9; ambas as teorias indicam a importância de se considerar a idade nos estudos relacionados à temática.

O fato de possuir filhos e, consequentemente, relações de contexto familiar, podem ser observados como fatores protetores e estar relacionados ao menor acometimento da saúde mental dos trabalhadores10. No entanto, no presente estudo, dentre os participantes que referiram ter de um a dois filhos, 54,1% deles apresentaram escore para SB, demonstrando que o maior percentual foi observado nos que possuíam filhos, em detrimento dos que não possuíam.

Quanto à escolaridade, pesquisa realizada em um pronto socorro de um hospital universitário do estado do Paraná demonstrou que as pessoas com maior nível de escolaridade possuíam maior probabilidade de desenvolver SB11; o que se assemelha ao que foi evidenciado na presente pesquisa, em que os profissionais com ensino superior completo apresentaram maior tendência de acometimento pela síndrome.

Quanto ao tempo de atuação profissional, a maioria dos trabalhadores referiram tempo médio de 6 a 10 anos de atividade na instituição e a mesma média foi encontrada na atuação em APS. Estudo brasileiro realizado no estado de Goiás relatou que o tempo de trabalho obteve relação direta com episódios de ansiedade12. Já em outro estudo realizado no estado de Minas Gerais os trabalhadores com menor idade e tempo de atuação apresentaram maior nível de estresse13.

A incongruência dos achados pode reforçar o conceito de que a subjetividade de cada trabalhador deve ser analisada na individualidade e/ou nas especificidades da equipe em que está envolvido, pois por trás de estigmas positivos em relação à estabilidade e à experiência profissional podem se esconder inúmeros focos contribuintes para o adoecimento no trabalho14. Na presente pesquisa, houve percentuais para SB em todos os grupos etários, fato que corrobora os contrapontos encontrados na literatura.

Esta pesquisa foi realizada em uma instituição pública; é importante mencionar que a maior parte dos trabalhadores entrevistados (83,8%) referiu vinculação por meio de concurso público. Em relação a isso, a literatura valida achados que interfiram na falta de estabilidade no emprego como facilitadores para a ocorrência de alterações de pensamentos e sentimentos que podem acometer a situação psíquica do trabalhador15. Todavia, vale lembrar que os trabalhadores de serviços públicos referem, muitas vezes, conviver com a sensação de demérito relacionado à sua condição laboral, pois muitas vezes são vistos como favorecidos devido à estabilidade16. Sendo assim, sua possibilidade de adoecimento pelo trabalho é subestimada, fato que traz um alerta aos estudiosos, afinal, mesmo que apresentem forma contratual estável, esses profissionais ainda se encontram imersos em um ambiente laboral sujeito às instabilidades do processo de trabalho e à subjetividade de cada trabalhador17,18.

Neste estudo, a maior parte dos trabalhadores (54,1%) apresentou renda familiar mensal de um a três saláriosmínimos e valores consideráveis de tendência à SB, porém, também se observou, nos grupos com renda acima dessa quantia, o que pode estar relacionado ao achado de que, ao avaliar a renda e o trabalho, grande parte do tempo de vida é consumido no ambiente laboral e, por vezes, a remuneração e esse ambiente não se equiparam à amplitude dos serviços prestados, podendo ser precursores de desgaste emocional oriundo da insatisfação do trabalhador e da sensação de pouco reconhecimento19.

Os resultados apresentados no estudo em questão evidenciaram que, dentre os participantes, os assistenciais se destacaram (71,6%) e, nessa categoria, é notória a existência da característica multiprofissional. Em vista desse fato, volta-se a discussão para a importância da interdisciplinaridade acerca dos serviços prestados no âmbito da APS, pois a prática interdisciplinar possibilita a prestação da assistência integral de acordo com as necessidades de saúde da população20.

O trabalhador acometido pela SB manifesta características próprias ao processo de exaustão e distanciamento do trabalho, expressões que denominam dimensões da síndrome abordadas pelo instrumento utilizado nesta pesquisa. A exaustão circunda os desgastes psíquico e físico que podem ou não estar ligados ao relacionamento interpessoal no trabalho. O distanciamento é percebido com as atitudes de afastamento do indivíduo para com os pares, acompanhado do sentimento de baixa realização no trabalho e baixa identificação com a atividade executada21.

A variável unidade de trabalho apresentou, no presente estudo, significância estatística mediante à análise realizada. A inserção do trabalhador no âmbito institucional o sujeita a situações que estimulam ou enfraquecem sua produtividade, fato que se deve às variações desse meio e às suas interferências na vida do indivíduo. É interessante que a gestão tenha atenção para com a saúde mental de sua equipe, pois, de acordo com maiores níveis de exaustão, existirá também déficit no empenho laboral. Por conseguinte, as estratégias de prevenção do estado mental dos indivíduos envolvem também as de cunho organizacionais que consideram o estímulo de ambiente cooperativo e exercem a valorização dos trabalhadores22.

No contexto organizacional, desenvolvem-se as relações interprofissionais; as diferenças e as afinidades entre os pares resultam em constantes movimentos de situações harmônicas e/ou conflituosas na equipe. Quando conflituosas, podem viabilizar comportamentos individuais e afetar a estrutura de toda a equipe e, no caso dos serviços de saúde, desestabilizar o processo de produção do cuidado. Nesse sentido, pesquisa desenvolvida no sul do Brasil, com trabalhadores da saúde do nível de atenção hospitalar secundário, teve o objetivo de propor a estratégia do job rotation, um rodízio sistematizado com tempo pré-definido, para qualificar o trabalho da instituição. O resultado foi positivo para relações interpessoais, resolução de conflitos e aprimoramento técnico. A harmonia da equipe tende a favorecer seu desempenho laboral e reduzir os agravos à saúde mental dos membros23.

Todavia, não foram encontradas pesquisas semelhantes no cenário da APS, fato que pode estar relacionado com modelo de atenção que preza pela importância do vínculo entre equipes e comunidade para fortalecer a longitudinalidade do cuidado24. Diante do resultado encontrado no presente estudo, seria essa característica do modelo de APS, a longo prazo, benéfica ou não à saúde mental dos trabalhadores? O vínculo propicia melhor comunicação entre equipe e comunidade e facilita o processo de atendimento e do cuidado; outra vertente mostra que essa mesma proximidade pode ocasionar situações de agravos à saúde mental dos trabalhadores quando estes se percebem impotentes frente às longas buscas por melhorias em um determinado grupo e/ou família atendida, muitas vezes malsucedidos, de acordo com as características locais25.

Na APS existe grande proximidade a numerosas situações de vulnerabilidade social e contextos do cenário comunitário que denotam desigualdades e fragilidades do processo de saúde frente às doenças. Diante dos acontecimentos nesse sentido, os trabalhadores têm maior propensão a vivenciar alterações psicológicas associadas ao desequilíbrio da sociedade em relação às condições comportamentais, culturais e econômicas26.

A estratégia de manejo e redistribuição de tarefas, a promoção de momentos de escuta, a acessibilidade à gestão e o estabelecimento de acordos coletivos entre os membros de uma equipe, para que o ambiente de trabalho funcione de forma colaborativa, podem ser benéficos para que os trabalhadores de APS não sejam sobrecarregados com a densa demanda comunitária proveniente dos atendimentos e possam desempenhar suas funções com maior engajamento e aproveitamento27,28.

Embora avaliar os impactos da pandemia da covid-19 não seja um dos objetivos desta pesquisa, é importante pontuar que no ano de 2020, quando ocorreu a coleta de dados deste estudo, as pesquisas sobre a saúde mental tiveram visibilidade aumentada devido ao momento de pandemia, que exigiu estratégias de manejo em todas as vertentes sociais e que gerou impacto direto nos serviços de saúde, ocasionando necessidade de readaptação de todo o processo de trabalho. A exposição contínua da integridade física aos fatores de risco vinculados ao novo vírus propiciou também maior chance de alterações do estado psíquico dos envolvidos29.

Levando-se em conta as fragilidades advindas dos danos à saúde mental dos trabalhadores e o reflexo destas aos serviços, percebemos que os estudos sobre tais questões norteiam o processo diagnóstico das instituições. Pesquisas nesse sentido podem funcionar como um indicador de qualidade do ambiente de trabalho e da avaliação de distúrbios como a SB e podem se tornar referência ao planejar pontos facilitadores do processo de trabalho30.

Ressaltam-se, como limitações deste estudo, a possibilidade dele ter sofrido influência do cenário mundial de pandemia e enfrentamento da covid-19 vivenciado no período de coleta de dados, as perdas relacionadas aos afastamentos e a diminuição no total da amostra, o que não permite generalizações frente ao tema estudado.

 

CONCLUSÕES

Destaca-se, no presente estudo, acometimento de SB em 45% de trabalhadores e, também, expressivos percentuais para os níveis de exaustão e distanciamento, totalizando a maioria dos participantes em fases de adoecimento, o que demonstra a necessidade de ações de intervenção nos ambientes laborais, para verificação e enfrentamento dos problemas.

O enfrentamento dos fatores de risco e das situações de agravos à saúde mental pode ser pautado em realizar pausas, no trabalho, entre as tarefas, aproveitar os momentos de lazer, procurar suporte no contexto familiar, buscar apoio em questões relacionadas à crença e manter comunicação clara com os pares e com a chefia.

É relevante estudar a respeito do cenário de saúde mental dos trabalhadores de saúde, uma vez que estes se expõem constantemente a situações de risco psicológico quando prestam acolhimento às famílias diante dos numerosos cenários sociais e suas instabilidades.

 

Contribuições dos autores

EMI foi responsável pela concepção, investigação, análise formal, administração do projeto, recursos materiais, redação – esboço original, revisão & edição do texto e apresentação. RCMBD foi responsável da concepção, administração do projeto, metodologia, análise formal, supervisão, redação – revisão & edição do texto e validação. MLCCR participou da revisão & edição do texto. FST participou da metodologia e revisão & edição do texto. EJGS, participou da investigação – coleta de dados e revisão & edição do texto. Todos os autores aprovaram a versão final submetida e assumem responsabilidade pública por todos os aspectos do trabalho.

 

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Recebido em 13 de Dezembro de 2021.
Aceito em 25 de Fevereiro de 2022.

Fonte de financiamento: Nenhuma

Conflitos de interesse: Nenhum


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