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ARTIGO ORIGINAL

Prevalência do estresse ocupacional em profissionais de saúde durante a pandemia da covid-19: estudo transversal

Prevalence of occupational stress in health care personnel during the COVID-19 pandemic: a cross-sectional study

Kairo Silvestre Meneses Damasceno; Arthur Pinto Silva; Claudeone Vieira Santos; Janaina de Oliveira Castro; André da Silva dos-Santos; André Luiz Bispo Pereira; Rodrigo Fernandes Weyll Pimentel; Magno Conceição das Merces

DOI: 10.47626/1679-4435-2022-957

RESUMO

INTRODUÇÃO: O estresse ocupacional tem sido exacerbado nos trabalhadores de saúde durante a pandemia da covid-19, podendo trazer prejuízos à saúde dos profissionais, aos gestores e à população.
OBJETIVOS: Estimar a prevalência do estresse ocupacional em profissionais da Estratégia Saúde da Família de um distrito sanitário do município de Salvador, Bahia, Brasil.
MÉTODOS: Trata-se de um estudo transversal realizado com 105 profissionais das equipes da Estratégia Saúde da Família de três Unidades de Saúde da Família de um distrito sanitário do município de Salvador, Bahia, Brasil. Foram aplicados um questionário com informações sociodemográficas e laborais e a Escala de Estresse no Trabalho. Os valores numéricos do estresse foram categorizados, a partir da média, em baixo e alto nível do estresse. Foram calculadas as medidas de tendência central e a análise bivariada entre o estresse e as demais variáveis.
RESULTADOS: O nível alto do estresse apresentou-se com uma prevalência de 46,7%, com os seguintes fatores estressores da Escala de Estresse no Trabalho mais pontuados: deficiência de capacitações, poucas perspectivas de crescimento na carreira, deficiência na divulgação das decisões, discriminação no trabalho e falta de autonomia.
CONCLUSÕES: A prevalência do nível alto de estresse ocupacional entre os profissionais de saúde das Unidades de Saúde da Família alcançou 46,7% da amostra estudada; fato que merece sensibilização por parte dos gestores quanto à promoção e à proteção à saúde dos trabalhadores de saúde.

Palavras-chave: estresse ocupacional; saúde do trabalhador; atenção primária à saúde.

ABSTRACT

INTRODUCTION: Occupational stress has been exacerbated in health care personnel during the COVID-19 pandemic, which can harm the health of professionals, managers and the population.
OBJECTIVES: To estimate the prevalence of occupational stress in professionals of the Family Health Strategy of a Health District in the city of Salvador, Bahia, Brazil.
METHODS: This is a cross-sectional study carried out with 105 professionals from the Family Health Strategy teams of three Family Health Units in a Health District in the city of Salvador, Bahia, Brazil. A questionnaire with sociodemographic and work information and the Work Stress Scale were applied. Numerical stress values were categorized, from the average, into low and high stress levels. Measures of central tendency and bivariate analysis between stress and other variables were calculated.
RESULTS: The high level of stress presented a prevalence of 46.7%, with the following most punctuated TSE stressors: lack of qualifications, few prospects for career growth, deficiency in the disclosure of decisions, discrimination at work and lack of autonomy.
CONCLUSIONS: The prevalence of a high level of occupational stress among health professionals at Family Health Units reached 46.7% of the sample studied; a fact that deserves awareness on the part of managers regarding the promotion and protection of the health of health care personnel.

Keywords: occupational stress; occupational health; primary health care.

INTRODUÇÃO

O estresse ocupacional pode ser definido como as alterações que ocorrem na saúde física e mental do trabalhador, que são decorrentes de fatores estressores no ambiente de trabalho, como, por exemplo, o excesso de demanda1.

O primeiro cientista a estudar o estresse e seus efeitos no organismo foi o médico endocrinologista Hans Selye, que definiu o termo como a Síndrome de Adaptação Geral (SAG) em virtude das reações do corpo na tentativa de adaptar-se a situações que exigissem esforço. Essa síndrome foi caracterizada pelas fases de alarme, de resistência e de exaustão2.

Na fase de alarme, há uma resposta orgânica imediata ao agente estressor, com o aumento da frequência cardíaca, da pressão arterial, da frequência respiratória, da ansiedade e da dilatação da pupila. Na fase subsequente, a de resistência, o organismo reage à continuidade do agente estressor através do aumento do córtex cerebral, das úlceras gástricas, da insônia, da irritabilidade e da diminuição da libido. Em caso de evolução, tem-se a fase de exaustão, com os mesmos sinais e sintomas da fase de alarme, o esgotamento físico e mental e as falhas no funcionamento do organismo1,2.

Os principais estressores no trabalho podem relacionar-se a: natureza do trabalho, pressão por maior produtividade, requisitos para novas destrezas, vários vínculos empregatícios, situações críticas vivenciadas, rotina, baixa remuneração, responsabilidades, desvalorização profissional, falta de autonomia na tomada de decisões, condições precárias de trabalho, complexidade das tarefas, recursos inadequados, relações interpessoais, sobrecarga, jornada de trabalho, dentre outros3-6.

A pandemia provocada pela SARS-CoV-2 trouxe novos elementos que exacerbaram o estresse ocupacional dos trabalhadores de saúde, como o medo de ser demitido e, consequentemente, a perda de seus meios de subsistência;

o medo de ser infectado e de ser colocado em isolamento, sendo separado da família; o aumento da carga de trabalho e de longas jornadas; os filhos em casa, em virtude do fechamento das escolas; a necessidade de se atualizar sobre a nova doença; as decisões difíceis em relação às escolhas terapêuticas; o luto pelas perdas dos pacientes e dos colegas; o estigma gerado na população com relação aos profissionais de saúde que estão em contato com portadores da covid-19, dentre outros7,8.

Nessa perspectiva, o estresse ocupacional constitui um fator de exposição para problemas físicos, como os osteomusculares, hipertensão arterial e outros distúrbios cardiovasculares, problemas gastrointestinais, adiposidade abdominal, síndrome metabólica e, eventualmente, incapacidade para o trabalho e morte4,5,9.

Quanto aos sintomas emocionais e cognitivos causados pelo estresse ocupacional, os principais são: ansiedade, angústia, ira, irritabilidade, frustração, preocupação, depressão, hipersensibilidade emotiva, tensão, redução da atenção e da concentração, falta de memória, agressividade, dentre outros. Sintomas comportamentais também podem ocorrer, como aumento do consumo de álcool e drogas, ausência no trabalho e distúrbios no sono3,10.

Outrossim, o estresse ocupacional pode impactar nas organizações em decorrência dos custos associados ao absenteísmo; aos atrasos ao trabalho; à rotatividade de pessoal; à redução do desempenho e da produtividade; ao aumento das práticas de trabalho inseguras, das taxas de acidentes e das queixas de clientes; à substituição de trabalhadores ausentes; ao treinamento de trabalhadores substitutos; entre outros. Trata-se, pois, de um problema grave de saúde pública na sociedade moderna, que traz consequências para empregadores, trabalhadores e sociedade em geral3,10.

Diante desse contexto, o presente estudo objetiva estimar a prevalência e os fatores associados ao estresse ocupacional em profissionais da Estratégia Saúde da Família (ESF) de um distrito sanitário (DS) do município de Salvador, estado da Bahia, Brasil durante a pandemia da covid-19.

 

MÉTODOS

Foi realizado um estudo de corte transversal em profissionais da ESF de um DS do município de Salvador, Bahia, Brasil.

O estudo do tipo transversal ou seccional consiste na investigação da exposição de um evento ou doença a uma determinada população, em um determinado momento, sendo um método utilizado para detectar prevalências de doenças e para averiguar quais grupos são mais afetados por elas11.

A distritalização consiste na organização dos serviços e dos estabelecimentos de saúde em uma rede conforme os critérios geográficos, populacionais, epidemiológicos, gerenciais e políticos. Contribui para a integralidade do cuidado, a intersetorialidade, a participação social e a efetividade dos serviços12.

O estudo foi realizado em três Unidades de Saúde da Família (USF) de um DS do município de Salvador no período de março a maio de 2021. Todos os profissionais de saúde pertencentes às Equipes de Saúde da Família foram convidados a participar da entrevista, totalizando 13 equipes e 145 trabalhadores, entre enfermeiros, técnicos de enfermagem, dentistas, auxiliares em saúde bucal, agentes comunitários de saúde e médicos. O critério de inclusão para o estudo foi estar cadastrado em uma Equipe de Saúde da Família. Houve um total de 29 recusas, seis encontravam-se em licença médica, duas estavam afastadas do trabalho em virtude de gestação e três achavam-se em trabalho remoto, resultando, ao final, um quantitativo de 105 participantes.

Os participantes voluntários responderam a um questionário sociodemográfico e laboral e à Escala de Estresse no Trabalho (EET), instrumento que contribui para diagnóstico de estresse em ambientes de trabalho das organizações, orientando estratégias voltadas para a qualidade de vida do trabalhador13.

A EET foi validada no Brasil e traduzida por Paschoal & Tamayo13, sendo composta por 23 itens que abordam um estímulo estressor e uma reação a ele. O coeficiente alfa de Cronbach foi equivalente a 0,91. Cada item acompanha respostas do tipo Likert com as alternativas: 1. Discordo totalmente; 2. Discordo; 3. Concordo em partes; 4. Concordo; e 5. Concordo totalmente. Quanto maior o somatório, maior será o estresse13.

Dessa forma, o estresse ocupacional assume um valor numérico para cada indivíduo. Após as entrevistas, calculou-se o nível do estresse de cada participante (somatório da escala Likert dividido por 23). A distribuição desses valores apresentou normalidade por meio do teste de Kolmogorov-Smirnov. A média geral dos valores numéricos do estresse (valor 2,81) foi utilizada como ponto de corte para a categorização do estresse em nível alto e nível baixo.

Para a análise bivariada, foi utilizado o teste do quiquadrado de Pearson, considerando-se o valor p menor que 0,05 para significância estatística. Os dados coletados foram tabulados no programa Microsoft Excel e, para as análises estatísticas, foi utilizado o programa Stata, versão 11.0.

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética e Pesquisa (CEP) da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) sob o parecer 4.478.349. Foram respeitadas as diretrizes referentes a pesquisas em humanos da Resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde e os princípios da Declaração de Helsinque. Aqueles que concordaram em participar da pesquisa assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

 

RESULTADOS

Participaram da pesquisa 105 profissionais de saúde. A maior frequência foi de indivíduos com idade menor ou igual a 45 anos (60,95%), de sexo feminino (91,43%), de raça preta (50,48%), que são agentes comunitários de saúde (55,23%), com nível de escolaridade de graduação/ pós-graduação (51,43%), com tempo de ocupação na ESF menor ou igual a sete anos (54,29%), que não trabalham fora da USF (79,05%), com carga horária semanal menor ou igual a 40 horas (81,90%), que não fazem plantão noturno (88,57%), com renda familiar maior que dois salários-mínimos (56,19%), que estão insatisfeitos(s) com sua situação econômica (82,86%), que não são casados(as) (56,19%), com um a dois filhos (66,67%), com vínculo de trabalho concursado efetivo (95,2%) e que já sofreram algum tipo de violência na USF (63,81%), conforme a Tabela 1.

 

 

A média geral do estresse na amostra foi de 2,81, sendo este o ponto de corte para a categorização em nível baixo e alto do estresse ocupacional. Um total de 56 participantes (53,33%) apresentaram nível de estresse baixo e 49 (46,67%) foram classificados como portadores de estresse em nível alto. O menor valor individual do estresse foi de 1,00 e o maior valor foi de 4,61.

A análise bivariada entre as variáveis sociodemográficas (variáveis preditoras) e o estresse ocupacional (desfecho) dicotomizada em nível baixo e nível alto revelou que o estresse alto teve maior prevalência entre categorias mais jovens (51,56%), de sexo feminino (47,92%), de raça branca (66,67%) e parda (51,16%), nas categorias profissionais de enfermeiros (62,50%), auxiliares de saúde bucal (62,50%) e técnicos em enfermagem (56,25%), com nível de graduação/pós-graduação (51,85%), com tempo de ocupação menor ou igual a 7 anos na USF (47,37%), que não trabalham fora da USF (48,19%), com carga horária semanal menor ou igual a 40 horas (48,84%), que não fazem plantão noturno (49,46%), com renda menor ou igual a dois salários-mínimos (47,83%), satisfeitos(as) com a situação econômica (61,11%), casados(as) (47,83%), com um a dois filhos (55,71%), com vínculo de trabalho concursado (49%) e que já sofreram algum tipo de violência na USF (55,22%), conforme Tabela 2. Apenas as análises do estresse com as variáveis número de filhos, vínculo empregatício e violência no trabalho apresentaram-se estatisticamente significativas, com valores de p iguais a 0,01; 0,032; e 0,02, respectivamente.

 

 

Dentre os itens que compõem a EET, os que apresentaram maiores médias foram, em escala decrescente: tenho me sentido incomodado com a deficiência nos treinamentos para capacitação profissional (4,03); as poucas perspectivas de crescimento na carreira têm me deixado angustiado (3,90); sinto-me irritado com a deficiência na divulgação de informações sobre decisões organizacionais (3,62); fico irritado com discriminação/ favoritismo no meu ambiente de trabalho (3,29); a falta de autonomia na execução do meu trabalho tem sido desgastante (3,13), representados pelo Quadro 1.

 

 

DISCUSSÃO

Existe uma escassez de estudos que abranjam a saúde mental dos trabalhadores de saúde da ESF, sobretudo, durante a pandemia da covid-19. A maioria das pesquisas aborda a categoria profissional da enfermagem e da atenção à saúde especializada, deixando lacunas no estado da arte quanto às demais categorias profissionais e à atenção primária à saúde (APS), a exemplo da ESF.

A frequência do sexo feminino na pesquisa é compatível com a feminilização das categorias profissionais da ESF observada na literatura14-16. A prevalência do alto estresse nesse grupo foi de 47,92%, levando à suposição de que a dupla ou até mesmo a tripla jornada comum entre as mulheres possa contribuir para esse índice17.

A maior prevalência do estresse alto foi entre aqueles com idade igual ou menor que 45 anos (51,56%). O desgaste profissional nos mais jovens pode ser analisado pelo fato de possuírem menos experiência laboral e, portanto, menor habilidade para o domínio/controle das situações no ambiente de trabalho18,19. Esse mesmo raciocínio pode ser aplicado com relação àqueles com tempo de trabalho na USF menor ou igual a 7 anos (47,37% com estresse alto).

A raça branca apresentou nível de estresse maior (66,67%). Contrário a esse resultado, um estudo mostrou uma associação positiva e significativa entre os transtornos mentais decorrentes dos estressores ocupacionais e mulheres negras20.

Os profissionais de enfermagem (enfermeiros e técnicos) apresentaram alta prevalência de estresse nível alto. Esses trabalhadores acumulam demandas e responsabilidades referentes aos cuidados da população adstrita, além de contarem com estrutura física inadequada e materiais insuficientes21. Ressalta-se que as unidades de saúde foram selecionadas para vacinação e/ou testagem da covid-19, o que resultou no aumento da jornada e da sobrecarga de trabalho.

Os trabalhadores com nível de graduação/pósgraduação tiveram uma maior prevalência de estresse alto, sendo sugestivo que o acúmulo de responsabilidades possa ser um importante fator estressor.

A carga horária estabelecida pela Política Nacional de Atenção Básica (PNAB)/Brasil é de 40 horas semanais para os trabalhadores das Equipes de Saúde da Família. Porém, para complementar a renda, alguns profissionais mantêm outros vínculos empregatícios, o que aumenta a jornada e a carga de trabalho. Percebe-se, no entanto, que as categorias não trabalhar fora da USF, trabalhar 40 horas semanais ou menos e não fazer plantão noturno tiveram maiores frequências do estresse alto (48,19; 48,84; e 49,46%, respectivamente) quando comparadas com trabalhar fora da USF, trabalhar mais que 40 horas semanais e fazer plantão noturno, não havendo relações estatisticamente significativas. Um estudo não encontrou associação entre tempo na instituição e realização de plantões com o estresse ocupacional18. A jornada dupla desses profissionais possivelmente os condiciona a adotar estratégias de enfrentamento e resistência aos fatores estressores laborais.

Entre aqueles que tinham uma renda menor ou igual a dois salários-mínimos, 47,83% tiveram estresse alto, sendo a baixa remuneração um fator desencadeante para o estresse ocupacional21, podendo estar condicionada a sentimentos de desvalorização e à diminuição do poder de consumo. Porém, entre os satisfeitos com a situação econômica, 61,11% tiveram estresse alto, contra 43,68% entre os não satisfeitos. Essa análise não se mostrou estatisticamente significante.

A análise bivariada revelou significância estatística na relação entre as variáveis número de filhos, vínculo de trabalho e violência na USF.

Os cuidados com filhos podem ser um estressor que se soma à rotina do indivíduo, sobretudo, quando representado por mulheres, geralmente responsáveis pelos cuidados com as crianças19. Em contrapartida, um estudo concluiu que ter filhos apresentou-se como um fator protetor contra a síndrome de burnout em profissionais de um hospital da Espanha22.

Acredita-se que a estabilidade proporcionada pelo vínculo de trabalho seja um fator de proteção ao estresse. Todavia, observou-se que um achado foi de encontro aos resultados, no qual o nível de estresse moderado teve valores bastante próximos, tanto entre concursados, quanto terceirizados23. Ressalta-se que os cinco profissionais de vínculo não estatutário são os da categoria médica, na qual, apesar do vínculo temporário, os salários estão acima da remuneração das demais categorias profissionais, o que pode ser um fator amenizador do estresse.

A maioria dos participantes relatou ter experenciado algum tipo de violência no ambiente de trabalho (63,81%), sendo que, destes, 55,22% possuíam nível de estresse alto (p = 0,02), com relatos de agressões verbais, violência psicológica, assédio moral e, até mesmo, casos de agressões físicas, que se constituem, portanto, como fatores desencadeadores do estresse ocupacional24,25.

O registro de violência e abusos contra profissionais de enfermagem já era notório em vários países antes mesmo da pandemia. As más condições de trabalho, com reflexos na oferta de serviços à população, apresentam-se como principais geradoras de violência. Durante a crise sanitária da covid-19, a violência institucional a esses profissionais tendeu a aumentar, somando-se à discriminação com os trabalhadores de saúde por estarem na linha de frente dos cuidados aos doentes. As características da violência mantiveram-se semelhantes ao período pré-pandêmico, como agressão verbal, física e assédio moral26.

Considerados como heróis em virtude do seu labor durante a pandemia, parecem contraditórios os atos de violência contra os trabalhadores de saúde, tanto por parte da população que deles carece de cuidados, quanto dos gestores, que não proporcionam satisfatoriamente condições ambientais, estruturais e materiais, nem a devida valorização financeira a esses trabalhadores26,27.

Pesquisa realizada com profissionais de enfermagem de unidades de terapia intensiva concluiu que 70,8% dos participantes tinham estresse moderado e 18,1% nível intenso28. No contexto da pandemia da covid-19, os achados de um estudo encontraram prevalências elevadas de sofrimento psíquico, estresse percebido e síndrome de burnout em profissionais de saúde da linha de frente no combate à doença29.

O sofrimento mental teve uma prevalência de 61,6% em profissionais de saúde de diversas categorias e de todos os níveis de atenção à saúde atuantes na pandemia. Estiveram associados ao desgaste mental fatores individuais, como idade menor que 40 anos, sexo feminino e fatores psicossociais, como jornadas acima de 60 horas semanais e baixo apoio dos colegas de trabalho30.

Já uma equipe de enfermagem atuante no nível hospitalar apresentou 53,8% dos profissionais com ansiedade, 38,4% com depressão e 40,3% com estresse, sendo este associado ao tempo de serviço, ao contrato de trabalho e à satisfação no trabalho31. Outro estudo com profissionais de enfermagem revelou uma associação entre a prevalência de 90,6% do estresse ocupacional e um maior nível de escolaridade, renda e nível de cuidado32.

Observa-se que a maioria dos estudos estão direcionados a profissionais de enfermagem e à atenção especializada à saúde (AES)33. Nosso estudo, por outro lado, aborda a APS e contempla todas as categorias profissionais da ESF.

A literatura aponta que a pandemia contribuiu para exacerbar o estresse ocupacional dos trabalhadores de saúde em virtude do aumento das jornadas de trabalho, da sobrecarga de trabalho, da falta de recursos e equipamentos de proteção, do medo de contágio, da perda de pacientes e parentes, dentre outros29,30,33.

O menor valor para o estresse foi de 1,00 e o maior valor foi 4,61. Na análise do estresse ocupacional em residentes de um programa multiprofissional, o estresse teve valores que variaram de 1,04 a 4,39 para aqueles do primeiro ano do programa e de 1,61 a 4,65 para o segundo ano do programa34.

Dentre os itens da EET, aquele que se destacou com maior média foi a deficiência nos treinamentos para capacitação profissional (4,03), seguido pelas poucas perspectivas de crescimento na carreira (3,90); pela deficiência na divulgação de informações sobre decisões organizacionais (3,62); pela discriminação/ favoritismo no ambiente de trabalho (3,29); e pela falta de autonomia na execução do trabalho (3,13). Outro estudo, desenvolvido antes do período pandêmico, destacou como principais estressores a deficiência na divulgação de informações sobre as decisões organizacionais (2,97); poucas perspectivas de crescimento na carreira (2,75); deficiência nos treinamentos e na capacitação profissional (2,69); irritação pelo controle no ambiente de trabalho (2,59); e nervosismo pela forma de distribuição das tarefas no trabalho (2,58)23. Observa-se que, quando comparados aos dados do estudo desenvolvido antes da pandemia, os fatores mais estressores assemelham-se em três itens. Desconhecemos, até o momento, estudos que utilizaram o instrumento EET em trabalhadores de saúde durante a pandemia da covid-19.

Dessa forma, os valores encontrados nos itens da EET, com maiores médias, podem orientar a gestão local a desenvolver ações que contemplem as reais necessidades manifestadas pelos trabalhadores de saúde, a exemplo de capacitações permanentes, valorização financeira do trabalhador por meio do cumprimento do plano de cargos e salários, alcance das informações organizacionais por todos, melhorias nas relações interpessoais e maior espaço de participação dos trabalhadores nas decisões do ambiente de trabalho13.

A pesquisa foi realizada em apenas um DS do município de Salvador, sendo, portanto, uma limitação do estudo, tendo em vista o fato de a coleta de dados de um extrato populacional ter sido delimitada por uma área geográfica.

Os estudos seccionais possuem a desvantagem de não medirem riscos nem relação causal. Por outro lado, possibilitam a medição da prevalência e da relação de prevalência11. Todavia, o presente estudo limitou-se à análise descritiva dos participantes quanto às variáveis sociodemográficas e laborais e quanto à prevalência do alto nível do estresse entre as variáveis independentes por meio da análise bivariada, podendo contribuir para um planejamento em saúde do trabalhador que vise a minimizar o estresse ocupacional entre os profissionais de saúde da ESF.

 

CONCLUSÕES

O alto nível do estresse ocupacional apresentou-se com alta prevalência (46,7%) entre os trabalhadores de saúde das USF no contexto da pandemia da covid-19, com significância estatística na análise bivariada com as variáveis número de filhos (p = 0,01), vínculo empregatício (p = 0,032) e violência no trabalho (p = 0,02).

Dentre os principais estressores identificados pela EET estão a deficiência de capacitação profissional, as poucas perspectivas de crescimento na carreira, a deficiência na divulgação das informações organizacionais, a discriminação e o favoritismo no ambiente de trabalho e a falta de autonomia na execução do trabalho, que podem orientar o gestor quanto ao planejamento de ações voltadas para essas demandas.

Sugere-se que outros estudos possam ser desenvolvidos na perspectiva da saúde mental do trabalhador de saúde, alcançando outras categorias profissionais e a APS.

 

Contribuições dos autores

KSMD contribuiu com a concepção do estudo, investigação, análise formal e tratamento dos dados coletados no estudo e foi responsável pela redação – esboço original e revisão & edição do manuscrito. APS, CVS, JOC, ASS, ALBP, RFWP e MCM contribuíram com a concepção do estudo, investigação e redação – revisão & edição do manuscrito. Todos os autores aprovaram a versão final submetida e assumem responsabilidade pública por todos os aspectos do trabalho.

 

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Recebido em 10 de Janeiro de 2022.
Aceito em 28 de Novembro de 2022.

Fonte de financiamento: Nenhuma

Conflitos de interesse: Nenhum


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