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ARTIGO ORIGINAL

Síndrome de burnout e satisfação no trabalho de agentes comunitários de saúde

Burnout syndrome and job satisfaction in community health workers

Lorhan da Silva Menguer1,2; Eduarda Valim Pereira1,2,3; Antônio Carlos Rosa da Silva2,3; Joni Marcio de Farias1,2,3

DOI: 10.47626/1679-4435-2021-903

RESUMO

INTRODUÇÃO: Os agentes comunitários de saúde possuem um lugar de evidência na atual proposta da atenção básica. Uma das doenças no meio trabalhista é a síndrome de burnout, e, ao adquirir essa doença, o trabalhador sofre com consequências que afetam a satisfação no trabalho.
OBJETIVOS: Avaliar a existência da síndrome de burnout e a satisfação no trabalho dos agentes comunitários de saúde de uma cidade do extremo Sul catarinense.
MÉTODOS: Tratou-se de um estudo analítico, individual, transversal realizado nas Estratégias de Saúde da Família. Os participantes foram selecionados por meio de amostragem aleatória probabilística, com erro amostral de 10%. Foi realizada anamnese de identificação, e os participantes responderam ao Inventário de Burnout de Maslach e à Escala de Satisfação no Trabalho.
RESULTADOS: Participaram do estudo 66 agentes comunitárias, todas do sexo feminino. As análises demonstraram correlação positiva moderada entre satisfação com os colegas e com o chefe, e correlações positivas fracas entre exaustão emocional e despersonalização, assim como entre realização profissional e satisfação com promoções. Por outro lado, exaustão emocional, realização profissional e satisfação com a remuneração obtiveram correlação negativa fraca.
CONCLUSÕES: Os resultados indicam boas condições dos agentes comunitários para lidar com as demandas do trabalho. Destaca-se a insatisfação com a remuneração, podendo ser desmotivante e podendo desencadear doenças relacionadas à saúde mental.

Palavras-chave: agentes comunitários de saúde; estresse ocupacional; satisfação no emprego

ABSTRACT

INTRODUCTION: Community health workers play a prominent role in the primary care context in Brazil. Burnout syndrome is an important work-related condition whose consequences affect job satisfaction.
OBJECTIVES: To evaluate the extent of burnout syndrome and job satisfaction among community health workers in a city in southern Santa Catarina.
METHODS: This analytical, individual, cross-sectional study was conducted in Family Health Units. The participants were selected through random probability sampling, with a sampling error of 10%. After sociodemographic data collection, the Maslach Burnout Inventory and a job satisfaction scale were applied.
RESULTS: All 66 included workers were women. According to the analyses, there was a moderate positive correlation between satisfaction with colleagues and satisfaction with supervisors. There were weak positive correlations between emotional exhaustion and depersonalization and between professional fulfillment and satisfaction with promotions. However, there was a weak negative correlation between emotional exhaustion and both professional fulfillment and satisfaction with salary
CONCLUSIONS: The results indicate that the conditions of these workers are sufficiently satisfactory to deal with the demands of the job. Nevertheless, there was substantial dissatisfaction with salary, which can be a demotivator and trigger work-related depression.

Keywords: community health workers; occupational stress; job satisfaction

INTRODUÇÃO

O agente comunitário de saúde (ACS) é um dos profissionais mais importantes na implementação do Sistema Único de Saúde (SUS), pois é o membro da equipe que desenvolve o papel de porta-voz da comunidade. Ele trabalha em contato direto com a população em suas casas, o que permite a criação de vínculos mais facilmente. O ACS fortalece a conexão entre os serviços de saúde da atenção primária à saúde e a comunidade1.

De acordo com a Política Nacional de Atenção Básica (PNAB), o ACS possui atribuições específicas, como desenvolver ações que busquem a integração entre a equipe de saúde e a população adstrita à unidade de saúde; cadastrar todas as pessoas de sua microárea e manter os cadastros atualizados; orientar famílias quanto à utilização dos serviços de saúde disponíveis; desenvolver atividades de promoção da saúde, de prevenção das doenças e agravos e de vigilância à saúde por meio de visitas domiciliares e de ações educativas individuais e coletivas nos domicílios e na unidade básica2.

No cotidiano, esses profissionais sofrem inúmeras situações de tensão, pois residem nas áreas onde trabalham e vivem a rotina da comunidade com seus aspectos positivos e negativos3. Um dos agravos no meio trabalhista é a síndrome de burnout (SB). O burnout é um fenômeno resultante da exposição ao estresse contínuo relacionado ao trabalho, e ele é constituído por três domínios: a exaustão emocional (EE), que compromete a energia do trabalhador para a realização das atividades trabalhistas; a despersonalização (DE), que leva à adoção de um comportamento frio e impessoal com colegas e pacientes; e a baixa realização profissional (BRP), que faz com que o profissional não se sinta realizado ao desenvolver suas atividades4.

Diversos fatores estão associados ao desenvolvimento do esgotamento profissional de saúde, incluindo questões sociodemográficas, menor satisfação no trabalho (ST), atitude negativa dos funcionários em relação ao trabalho e condições psicossociais, como ambiguidade de papéis, falta de experiência e problemas no relacionamento com a equipe4. Vicente & Portes5, em um estudo desenvolvido na região Sudeste do país que avaliou a prevalência de burnout em ACS, indicaram que 34,72% dos profissionais da amostra obtiveram diagnóstico de burnout - uma relação baixa, mas significativa para o cuidado preventivo desses profissionais. Dados de outro estudo corroboram com tais afirmações e descrevem que os acometimentos relacionados à saúde mental dos agentes não podem ser evitados ou modificados, pois já estão constituídos nos aspectos existenciais da profissão, embora possa haver ações de educação em saúde para que os conhecimentos dessas pessoas de como lidar com tais agravos na saúde sejam abordados6.

Fatores como altos níveis de estresse, menor ST, aumento da rotatividade de pessoas, aumento do absenteísmo, menor produtividade e desgaste (afetando saúde física e mental, desempenho no trabalho e a crescente intenção de parar com suas atividades) afetam o cuidado dos pacientes e de suas famílias7. Entender as relações entre os sujeitos e o seu trabalho é uma preocupação para os pesquisadores, pois a ST é um aspecto nessa relação que pode influenciar a vida pessoal do trabalhador, interferindo em seu comportamento em várias esferas da saúde8.

Assim, avaliar o estado de saúde do ACS pode evidenciar os reflexos do estado de saúde mental desses profissionais e como isso pode se refletir na prática. Essa análise possibilita a viabilidade de ações que reduzam os níveis de estresse e insatisfação no trabalho, tendo em vista que esses profissionais são responsáveis por atividades de cuidado e promoção da saúde na comunidade.

Diante da importância do ACS para a saúde pública e da falta de estudos sobre a SB e ST desses profissionais, o presente estudo teve como objetivo avaliar a existência de SB e o nível de ST e correlacionar as variáveis da Escala de Satisfação do Trabalho (EST) com as variáveis de SB de uma cidade do Extremo Sul catarinense.

 

MÉTODOS

CARACTERIZAÇÃO DO ESTUDO

Tratou-se de um estudo analítico, individual, transversal que investigou a existência de SB e o nível de ST dos ACS de uma cidade do Extremo Sul catarinense.

LOCAL DO ESTUDO

O estudo foi realizado nas Estratégias de Saúde da Família (ESF) distribuídas nos cinco distritos sanitários do município e organizadas da seguinte maneira: Santa Luzia (10 unidades básicas de saúde), contendo 40 ACS; Rio Maina (8 unidades básicas de saúde), contendo 32 ACS; Boa Vista (8 unidades básicas de saúde), contendo 30 ACS; Centro (12 unidades básicas de saúde), contendo 53 ACS; e Próspera (10 unidades básicas de saúde), contendo 44 ACS.

POPULAÇÃO DO ESTUDO

O município possui 199 ACS distribuídos nas unidades de ESF, conforme dados disponibilizados pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS) em julho de 2019.

AMOSTRA

Para este estudo, foi utilizada uma amostra aleatória probabilística, ou seja, todos os ACS teriam a mesma chance de serem selecionados para participar da pesquisa. Assim, foram sorteados 66 ACS voluntários distribuídos nos cinco distritos sanitários da cidade (Figura 1). Como critério de inclusão, os participantes deveriam ser ACS registrados, estar em trabalho efetivo no município, aceitar participar da pesquisa e assinar o termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE). O tamanho da amostra da pesquisa foi determinado utilizando a fórmula proposta por Barbetta, com um erro amostral de 10%9.

 


Figura 1. Fluxograma do plano amostral, 2021 (n = 66).

 

PROCEDIMENTOS PARA A COLETA DE DADOS

O delineamento do estudo ocorreu em três etapas. Após aprovação do projeto pelo Comitê de Ética e Pesquisa em Seres Humanos da Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC) (nº de parecer 3.481.535) e autorização da SMS do município para a realização da pesquisa, foi estabelecido contato via telefone com o gestor das unidades de saúde. A lógica de contato para agendar a apresentação do projeto foi estabelecida por ordem alfabética de cada unidade de saúde, conforme o bairro e o distrito em que estava localizada.

Após aceite do gestor para o desenvolvimento da pesquisa na unidade de saúde, o projeto foi apresentado para os grupos de ACS; neste momento, também foi realizado o sorteio da participação voluntária na pesquisa. O sorteio aconteceu da seguinte forma: uma visita foi feita nas Unidades Básicas de Saúde/ Estratégia Saúde da Família de cada distrito por ordem alfabética dos nomes dos bairros. Em seguida, foram entregues envelopes correspondentes ao número de ACS do distrito, e cada ACS escolheu um envelope, podendo conter o convite para participação voluntária na pesquisa ou apenas um agradecimento pela participação no sorteio. Caso uma das sorteadas não aceitasse o convite, seria feito um novo sorteio, mas isso não ocorreu.

Após o grupo tomar conhecimento da pesquisa a ser desenvolvida, cada participante assinou o TCLE. A coleta dos dados ocorreu neste mesmo encontro, sendo realizada por pesquisadores profissionais de educação física, residentes pelo Programa de Residência Multiprofissional em Saúde Coletiva/Atenção Básica. As coletas ocorreram entre agosto e setembro de 2019, e o preenchimento dos questionários foi realizado juntamente com o pesquisador.

INSTRUMENTOS

Para identificação dos participantes, foi feita uma anamnese contendo variáveis como sexo, escolaridade, estado civil e idade. O questionário foi elaborado a partir de questionários validados com dados de identificação. A composição corporal foi aferida com a utilização de balança antropométrica Filizola, com capacidade máxima de 200 kg para avaliar peso (kg), e um estadiômetro fixado à parede foi usado para aferir a altura (cm). Os avaliados foram orientados a ficar descalços com o mínimo de vestimentas possível para melhor fidedignidade dos dados. Para obter os resultados sobre a classificação do peso dos participantes, foi realizado o cálculo do índice de massa corporal (IMC) a partir da fórmula, que consiste na divisão do peso (kg) pela altura ao quadrado (metros).

O índice de estresse ocupacional foi avaliado pelo Inventário de Burnout de Maslach (MBI). O MBI é um instrumento autoaplicado, que deve ser respondido por escala de Likert. Esse modo de preenchimento tem frequência de cinco pontos, variando de 1 (nunca) até 5 (sempre). O inventário é composto por 22 itens que avaliam as três dimensões independentes entre si: EE (9 itens), DE (5 itens) e realização profissional (RP) (8 itens)10. A interpretação da pontuação do MBI se baseia na pontuação total de cada domínio. Quando a pontuação do indivíduo corresponde a um valor de alto escore nos domínios EE e DE e baixo escore no domínio RP, representa um diagnóstico de burnout11. Os escores de EE com valores de 0 a 15 e os escores DE de 0 a 2 são considerados escores baixos ou normais, enquanto escores acima de 25 para EE e escores acima de 8 para DE são considerados altos. O escore de 0 a 33 é considerado baixo para RP.

Outra escala utilizada foi a EST, que tem, no total, 25 questões com o objetivo de avaliar o grau de contentamento do trabalhador frente a cinco dimensões do seu trabalho: colegas de trabalho, salário, chefia, natureza do trabalho e promoções. A EST é um instrumento autoaplicado e deve ser respondido por uma escala de Likert com frequência de 7 pontos, sendo que 1 corresponde a totalmente insatisfeito, 2, a muito insatisfeito, 3, a insatisfeito, 4 a indiferente, 5, a satisfeito, 6, a muito satisfeito e 7, a totalmente satisfeito12.

ANÁLISE DOS DADOS

A coleta dos dados foi inserida em planilha eletrônica, sendo representada por valores absolutos, média, desvio-padrão e erro médio padrão. Desse modo, inicialmente os dados foram analisados descritivamente para caracterizar os ACS, o burnout e a ST. A normalidade dos dados foi analisada por meio do teste Kolmogorov-Smirnov, com distribuição normal. Para as análises sem distribuição normal, foram utilizadas análises não paramétricas. Para a comparação dos valores médios entre grupo foi utilizado o teste t de Student para amostras independentes nas variáveis com distribuição normal. Nas demais variáveis, foi utilizado o teste equivalente não paramétrico U de Mann-Whitney e Wilcoxon. Em seguida, realizou-se o teste de correlação de Spearman para determinar a existência de relação entre o burnout e a ST. A análise estatística do presente estudo foi executada utilizando o software Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), versão 22.0.

 

RESULTADOS

ANÁLISES DESCRITIVAS

A amostra do estudo foi integralmente do sexo feminino (100%), com idade média de 43,8±11,5 anos. O peso em quilogramas das participantes variou entre 57,5 kg e 90,5 kg, obtendo média de 74±16,5 kg; já a média de altura foi de 1,61±6,4 cm. Para a classificação de IMC, a média entre as participantes foi de 28,7±5,5 kg/m2, demonstrando valores referentes a sobrepeso em uma visão de classificação geral. Do total, 59,1% são casadas, e 80,3% possuem ensino médio completo ou superior incompleto. O tempo médio de serviço das ACS era de 8,1±16,9 anos (Tabela 1).

 

 

Para a análise do índice de estresse ocupacional, conforme descrito na Tabela 2 no que se refere à EE, os valores são bastante semelhantes entre classificação baixa e alta. Ainda assim, 39,4% das ACS apresentaram nível baixo de EE. Quanto à DE, 54,5% também apresentaram baixo nível. Já na avaliação sobre RP, 51,5% das ACS apresentaram nível alto; entretanto, 31,8% dessas profissionais relataram alto índice de EE.

 

 

Para caracterização da Escala de Satisfação com o Trabalho (Tabela 3), as variáveis foram descritas, conforme estabelecido em questionário, em uma escala Likert de 7 pontos (totalmente insatisfeito, muito insatisfeito, insatisfeito, indiferente, satisfeito, muito satisfeito e totalmente satisfeito). Algumas variáveis não apresentam todos os itens da escala Likert devido à ausência de respostas.

 

 

Como principais resultados, podemos destacar que a maioria das ACS relatou indiferença (40,9%) na satisfação com colegas, seguido por 34,8% de ACS satisfeitas. Em relação à satisfação com o salário, 37,9% descreveram insatisfação. Já em relação à satisfação com o chefe, 42,4% estavam satisfeitas.

Nas análises correlacionais (Tabela 4), os resultados indicaram correlação positiva moderada entre satisfação com colegas e satisfação com o chefe (0,56, p ≤ 0,001). Foram demonstradas correlações positivas fracas entre EE e DE (0,46, p ≤ 0,001), RP e ST (0,37, p ≤ 0,001), RP e satisfação com promoções (0,30, p ≤ 0,005), satisfação com chefe e ST (0,40, p ≤ 0,001) e satisfação com o trabalho e satisfação com promoções (0,46, p ≤ 0,001).

 

 

Além disso, foram encontradas correlações negativas fracas entre EE e RP (0,32, p ≤ 0,001), EE e satisfação com o salário (0,33, p ≤ 0,001), RP e DE (0,41, p ≤ 0,001) (Tabela 4).

 

DISCUSSÃO

Os ACS possuem um lugar de evidência na atual proposta da atenção básica no Brasil. A partir desse pressuposto, o atual estudo avaliou e correlacionou as condições de estresse ocupacional e ST desses profissionais, ganhando destaque como uma importante análise para embasar medidas interventivas voltadas à saúde deles.

A SB é um distúrbio psicossocial que afeta o trabalhador quando exposto a sobrecarga. EE, DE e baixa realização pessoal se desenvolvem em resposta ao estresse crônico no trabalho11. Apesar de a maioria (39,4%) das ACS apresentar grau baixo de EE, nosso estudo demonstrou que um terço estava com grau alto de EE, indicando esgotamento e sobrecarga emocional. Tironi et al.13 indicaram que a EE é a primeira reação do burnout surgindo como implicação do estresse ocupacional. Nesse estudo, a EE foi a primeira reação ao estresse gerado pelas exigências do trabalho. Notou-se que, após a EE, os profissionais apresentavam dificuldade para relaxar e cansaço emocional e físico, gerando dificuldades para desempenhar suas atividades diárias.

Os resultados indicaram na maioria das ACS a presença de baixa DE. Esse é um resultado satisfatório, uma vez que tal sintoma remete à atuação impessoal e desumanizada do profissional. Segundo Selamu et al.4, com a DE, o trabalhador pode agir de maneira cínica e irônica com as pessoas à sua volta.

Mais da metade (51,5%) das ACS entrevistadas apresentaram escores altos de RP. Um dos aspectos que colabora para a manutenção da percepção de RP vem do tipo de trabalho realizado: os ACS se sentem úteis para a comunidade em que vivem e atuam. Estudos em profissionais de saúde revelaram a manutenção de nível elevado de RP14,15. Os resultados do presente estudo evidenciam que não há uma presença significativa de alto risco para a SB.

Verificou-se que 42,4% das ACS estão satisfeitas com a chefia, corroborando outros estudos que utilizaram a EST com servidores públicos16,17. A satisfação com o chefe envolve questões relacionadas a quanto de profissionalismo o chefe possui e à maneira como ele passa informações e tarefas para os seus subordinados12. A satisfação com o trabalho foi outra dimensão com um bom índice: 36,4% das entrevistadas estão satisfeitas com a natureza do trabalho. Para obter satisfação com a natureza do trabalho, as tarefas devem envolver totalmente o indivíduo12, e esse é um aspecto muito presente na profissão de ACS.

O resultado (indiferente) apareceu com maior frequência nas dimensões satisfação com colegas e satisfação com promoções. Esses dados merecem uma atenção especial da instituição em relação à necessidade de modificações ou revisões nas avaliações16. Os resultados também indicaram que 37,9% das ACS estão insatisfeitas com o salário, à semelhança de demais estudos11,18. A insatisfação salarial aparece como uma questão crítica na literatura, que evidencia uma estreita relação entre salário e ST19.

Os resultados indicaram associação positiva moderada entre satisfação com chefe e satisfação com colegas. O apoio no trabalho está conectado à interação entre colegas de trabalho e supervisores em colaboração para a realização do trabalho e pode colaborar para reduzir a pressão sobre os trabalhadores e os riscos à saúde20.

A EE apresentou associação negativa com RP e salário. Vale salientar que falta de energia, cinismo, estresse, frustração e tensão estão ligados à EE4. Uma maior sobrecarga de trabalho e os conflitos sociais reduzem a quantidade de tempo que os trabalhadores passam no trabalho e a quantidade de esforços gastos no exercício da função21.

O presente estudo foi desenvolvido com o máximo de cuidado para evitar limitações com o objetivo pretendido. Deste modo, seguiu uma metodologia bem elaborada, respeitando o direito de toda a população de ter chances iguais de participar do estudo e realizando a coleta dos dados com equipe treinada. No entanto, ainda que o estudo tenha sido desenvolvido de forma anônima e sem a identificação de participantes, pode ser que, ao responder às perguntas, as ACS tenham o sentimento de insegurança na verdadeira resposta do que estavam sentindo, o que pode ser uma potencial limitação do estudo.

Mesmo que os índices de satisfação com o trabalho tenham sido positivos, com poucos casos de burnout, não se dispensa a importância de ações para esta população. Deste modo, para estudos futuros, indica-se atividades de extensão voltadas para o cuidado do cuidador, podendo ser desenvolvidas em parcerias com universidades e o sistema de saúde municipal. Esses trabalhos relacionados a intervenções de educação em saúde servem para ampliar os conhecimentos dos profissionais, fazendo com que tenham ainda mais cuidado com a sua saúde e, posteriormente, forneçam cuidado à população, aprendendo a lidar com o possível estresse oriundo da profissão.

 

CONCLUSÕES

Os resultados do presente trabalho permitem observar o perfil de estresse ocupacional e da ST de ACS de uma cidade do Extremo Sul catarinense. Esses resultados são positivos por indicarem boas condições gerais dos funcionários para lidar com as demandas do trabalho, sem excessiva sobrecarga emocional. No entanto, alguns servidores não apresentaram bons resultados, sendo preocupante e indicando um contexto de relativa vulnerabilidade ao desenvolvimento do esgotamento profissional, o que salienta a importância de intervenções preventivas a fim de evitar o agravamento dos riscos. É necessário destacar que não obtemos informações se ACS de outras cidades/regiões seguem o mesmo perfil. Investir na saúde e na qualidade de vida dos cuidadores é assegurar melhor saúde a toda a comunidade.

 

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Contribuições dos autores: LSM trabalhou na concepção, investigação, metodologia e software, análise formal e redação – revisão & edição. ACRS trabalhou na concepção, investigação, metodologia e software, análise formal e redação – revisão & edição. EVP auxiliou na investigação, metodologia e redação – esboço original e revisão & edição. JMF concepção, investigação, metodologia e software, análise formal e redação – revisão & edição. Todos os autores aprovaram a versão final submetida e assumem responsabilidade pública por todos os aspectos do trabalho.

Recebido em 8 de Outubro de 2021.
Aceito em 15 de Dezembro de 2021.

Fonte de financiamento: Este estudo contou com bolsa de estudo referente à Residência Multiprofissional de Saúde Coletiva disposta pelo MEC.

Conflitos de interesse: Nenhum


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